Antônio Fagundes: "Não consigo nem definir o que está acontecendo no Brasil"

Faz teatro desde os 15 anos, cinema e televisão desde os 19. Não frequentou o curso de Engenharia em que se inscreveu. Foi Alaor, Cacá, Ivan, Bruno Mezenga, coronel Ramiro Bastos na segunda Gabriela e Brick, MacBeth, Mark Rothko, Ruy Guerra, Heitor Villa-Lobos. Traz uma peça de teatro nova a Portugal, rodeado da família.

Tem 52 anos de carreira como ator, em teatro, televisão e cinema, e podemos acrescentar outras funções sempre à volta destas artes - encenador, argumentista, produtor de cinema. Antônio da Silva Fagundes Filho é Cacá em Baixa Terapia, uma peça escrita pelo argentino Matías del Federico que, só no Brasil, já foi vista por 150 mil pessoas. Em palco estão a mulher dele, o filho mais velho, a ex-mulher e o marido dela, numa produção dirigida pelo marido da ex-mulher. A tradução é de outra ex. Estreia-se em Lisboa, no Tivoli BBVA, no dia 26 e ficará por Portugal alguns meses, com mais oito cidades no programa. O rosto dele é conhecido em todo o Brasil, em Portugal, na Rússia e mais além, porque o mundo das telenovelas da Globo é assim mesmo. Nascido no Rio de Janeiro em 1949, foi para São Paulo aos 8 anos, e aí o teatro descobriu-o. Diz-se triste com a situação no Brasil e defende que o povo tem de estar atento e intervir, não pode limitar-se a votar.

Começou a fazer teatro na escola. Porquê?

Foi sem querer.

Tinha jeito?

Fui descobrir que tinha jeito quando já era quase profissional. Fui fazendo, não foi uma coisa programada, não foi "Eu quero ser empenhado nisso". Um professor de Português deu uma aula diferente de alexandrinos. Em vez de ficar falando o que eram alexandrinos, ele deu uma peça de teatro para a gente montar...

A Ceia dos Cardeais?

A Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas, o meu primeiro contacto com Portugal - talvez por isso Portugal nunca mais tenha saído do meu coração. A peça deu certo e fundámos um grupo de teatro estudantil, depois saímos da escola e fizemos um grupo amador. Foi tudo muito rápido. Fui convidado para fazer teatro infantil e esse teatro infantil era no Teatro de Arena, que é um teatro...

O Teatro de Arena, isso mete respeito!

Eu era muito jovem, tinha 16 para 17 anos, e era natural que o elenco levasse os filhos para ver as peças infantis do Teatro. Fiquei conhecido pelo elenco e pela direção - o Augusto Boal, o Guarnieri, aquela turma toda -, como ator, e foi natural chamarem-me para fazer um espetáculo com eles.

Logo com o Augusto Boal?

Foi com o Boal, exatamente, Arena Conta Tiradentes, a primeira peça que fiz com o grupo. Fiz uns quatro anos de Teatro de Arena, fiquei com a turma de lá e quando percebi já era um profissional de teatro.

Nunca houve outra profissão que gostasse de seguir?

Não. Eu estava estudando para Engenharia, cheguei a ingressar numa faculdade, mas não frequentei. Já tinha decidido ser ator, mas houve aquela pressão familiar. Na minha época era importante ter um diploma.

Pensaram: "Ai, que ele vai desgraçar-se!"

"Ai, meu Deus, agora não vai dar certo, ele não vai conseguir se sustentar!" Consegui. Estou aqui.

Tem conseguido.

Cinquenta e dois anos de profissão. Comecei com 16.

Está em Portugal para uma digressão longa e variada com a peça Baixa Terapia, de um autor argentino.

Na verdade são dois, porque o diretor da peça em Buenos Aires adaptou juntamente com o autor, mexeu em alguma coisa da peça. Foram o Matías del Federico e o Daniel Veronese, que também é o diretor da montagem argentina, que escreveram o texto. É um texto muito engraçado, muito bom.

Li que assistiu à peça na Argentina, em Buenos Aires, e que se riu imenso...

Muito. Me surpreendi com o final, com o encaminhamento do texto, adorei. Saí do teatro atrás do autor, consegui localizá-lo no dia seguinte de manhã, marcámos um encontro. Não estava em Buenos Aires e marcámos o encontro para depois. Voltei a Buenos Aires para falar com ele e comprei os direitos. Nós só conseguimos montar a peça um ano depois, porque eu estava fazendo uma outra produção, o Vermelho, uma peça de John Logan que a gente não conseguiu trazer para Portugal, porque era uma montagem muito grande. Mas logo que acabámos o Vermelho montámos o Baixa Terapia e estamos em cartaz no Brasil há mais de um ano e meio.

Numa entrevista dizia que tinha 150 mil espectadores no Brasil e nos Estados Unidos.

Cento e cinquenta mil. Fizemos uma pequena excursão nos Estados Unidos e viajámos por mais de 20 cidades no Brasil; aqui em Portugal vamos a nove cidades, então não estamos muito longe da digressão - como vocês dizem - brasileira.

Em Portugal a estreia vai ser em Lisboa.

Ficamos um mês em Lisboa.

Estamos a chegar ao dia da estreia, que será a 26 de setembro?

E ficamos até 28 de outubro no Tivoli.

Não quero que conte a história, mas há dados que pode já...

Não, não vou contar. Inclusive, tem uma surpresa muito agradável. O final da peça realmente é surpreendente. Uma das coisas com que a gente se preocupou no começo foi pedir ao público que não contasse o final da peça, mas não precisamos, ninguém conta. Não tivemos conhecimento de que alguém tivesse ido assistir à peça sabendo o final. Isso é muito bom, quer dizer que agrada mesmo, as pessoas se surpreendem mesmo.

Continua a recomendar ao público que não conte?

Não, ninguém fala, nunca falamos, não precisou, né? As pessoas entendem que o gostoso da peça é exatamente isso.

Mas são três casais que fazem terapia e há um dia em que...

São três casais que aparecem na terapia e a terapeuta não vai. Ela deixa uns envelopes com algumas instruções para eles mesmo desenvolverem a terapia. Imagine a confusão que não dá isso aí! São três casais com perfis diferentes, com idades diferentes, com problemas diferentes e um se metendo na vida do outro, então a situação realmente é muito engraçada, mas além disso o Matías del Federico e o Daniel fizeram uma peça com piadas pontuais muito boas. Posso garantir que o público ri muito mesmo.

Fizeram alguma adaptação para Portugal?

Não, fizemos nenhuma adaptação, como também não o fizemos no Brasil. A peça é bastante atual, bastante universal. Está sendo montada agora, com muito sucesso, em 20 países e, que eu saiba, não se mexeu no texto em nenhum dos países, o que quer dizer que ele conseguiu fazer uma obra universal mesmo.

Um dos casais é um casal realmente, que é o Antônio Fagundes...

Não, eu não faço o marido da minha mulher. A minha mulher na peça é a minha ex-mulher. Quem faz o marido da minha mulher é o meu filho.

E depois há o marido da sua ex-mulher...

O marido da minha ex-mulher é o diretor de produção da gente, e a tradução da peça é da Clarisse Abujamra, minha primeira ex-mulher.

É a confirmação de uma das peças que trouxe a Portugal, As Mulheres da Minha Vida?

Com alguns homens pelo meio.

Esta é a quarta peça que traz a Portugal. O público português tem alguma característica?

O público português é extremamente generoso comigo, então acho que não posso falar muito. Eu fiz muitas novelas no Brasil e quase todas elas passaram aqui, foram muito sucesso aqui e num período de tempo bem mais curto do que eu levei para fazer no Brasil. É natural que me conheçam, mas o carinho que eu recebo sempre é muito grande, me emociona sempre. O público de teatro português tem uma característica bem diferente do brasileiro, porque você percebe que está habituado a ir ao teatro, um público que tem prazer de ir ao teatro ainda. No Brasil, esse prazer está-se perdendo um pouquinho, as concorrências lá são mais fortes do que aqui, quer dizer, são as mesmas, mas eu diria que, por uma estrutura cultural mais forte do público português, o teatro vai demorar para ser abandonado aqui.

A sua origem é o teatro e fez muitas peças de autores clássicos, Shakespeare, Tennessee Williams...

... Cyrano de Bergerac...

Fez tudo, basicamente. E há este paradoxo de se tornar mais conhecido do público por causa da televisão.

Sabe, eu tive isso sempre na minha cabeça quando me tornei profissional, particularmente pelas condições, digamos, geográficas do Brasil. O Brasil é um país de dimensões continentais. Fazendo uma peça de teatro num determinado bairro numa cidade qualquer do país, você jamais será conhecido no resto do país por mais que se esforce. Nós visitámos 20 cidades agora e o Brasil tem 5570 municípios, quer dizer, faltou só 5550 para a gente visitar, e nem que tivéssemos a vida inteira para fazer isso não conseguiríamos com uma peça só. Sempre botei na minha cabeça que era importante ser conhecido também; e a forma mais rápida, mais fácil de ser conhecido é através do trabalho em televisão. Isso fez que eu fosse conhecido também internacionalmente - sou conhecido em Portugal como sou conhecido na Rússia, como sou conhecido noutros países - por causa do meu trabalho em televisão. Aparentemente é um paradoxo, mas na verdade é a somatória de um trabalho. Gostaria muito de que o público me conhecesse e que ao conhecer-me me desse um crédito, e esse crédito é ir assistir às peças que vou fazendo. Quem sabe eles gostem.

Pelos vistos têm gostado. E dos filmes também.

Dos filmes também, fiz muitos.

E nos filmes também é um público diferente?

É um público diferenciado. Acho que os três veículos têm um momento em que o público se cruza, aquele que assiste ao filme, assiste ao teatro e vê televisão também, mas é um grupo reduzido de pessoas que vê as três coisas. São públicos separados, distintos. O que faz também uma somatória aí; se você consegue transitar bem pelos três veículos, você tem um público superior.

Começou na televisão, por aquilo que percebi, a fazer aulas de Biologia?

Eu fiz muita coisa.

Mas foi a primeira coisa que fez?

Sou acusado de muita coisa, mas não foi a primeira. Sempre tive muita curiosidade sobre como utilizar as minhas armas de ator para fazer o que eu pudesse fazer, então fiz dublagens [dobragens], fiz narrações, fui apresentador de programa de auditório, fiz telecurso de segundo grau de Biologia, fiz programas infantis na televisão. Sempre tive curiosidade de me exercitar nos diversos veículos e de diversas formas; então você vai ver no meu currículo coisas às vezes até meio estranhas. Mas foi muito bom, fui um dos primeiros a fazer telecurso no Brasil. A gente tem uma televisão estatal, a TV Cultura, e começou a fazer aulas pela televisão e eu fui chamado para dar aula de Biologia.

Esteve na TV Cultura, na TV Tupi...

Sim, a TV Tupi já acabou. Na TV Globo, estou há 42 anos.

A TV Globo é - em termos profissionais - uma espécie de monopólio?

É uma grande empresa que exporta o seu produto para o mundo inteiro, para mais de 150 países. É a maior produtora de televisão do mundo, a quarta maior rede do mundo - as três primeiras são americanas -, mas das que produzem o seu próprio conteúdo é a maior do mundo, que eu saiba, e conseguiu reunir ao longo desses anos todos os maiores talentos do teatro, da televisão e do cinema. É uma empresa que vem funcionando bem há muito tempo.

Como disse, a maior parte das novelas que fez, para a Globo sobretudo, passaram em Portugal e por exemplo o Cacá do Dancing Days...

O Dancing Days faz tempo!

Faz muito tempo sim, mas teve muito êxito em Portugal. Fui buscar lá atrás, sim; O Rei do Gado...

O Rei do Gado é mais recente.

E no remake da Gabriela foi fazer um papel que tinha sido feito por outro grande ator...

Um grande ator, Paulo Gracindo. Foi uma honra fazer a mesma personagem que ele fez, com linhas diferentes, é claro, mas foi muito bom. Eu me lembrava dele sempre, porque foi um grande colega de trabalho. Fizemos teatro juntos, um Tennessee Williams, a Gata em Telhado de Zinco Quente. Ele fazia o papaizão e eu fazia o Brick.

Sabe que a primeira versão da Gabriela em Portugal foi um escândalo? Houve uma sessão da Assembleia da República que foi parada para ver o último episódio.

Isso acontecia muito no Brasil. Nos últimos capítulos de novela você saía à rua e parecia que tinha explodido uma bomba, você ouvia novela na rua, porque todas as televisões estavam ligadas.

Creio que foi uma sessão da Assembleia Constituinte [foi a Assembleia da República, em 1977].

Tinha uma novidade, aquela Gabriela, ela era muito sensual para a época. Era ousada e era uma belíssima adaptação, se não me engano, foi o George Durst que fez a adaptação - era um autor fantástico -, sobre Jorge Amado que era maravilhoso; o Avancini era um grande diretor também. Mas esse remake que a gente fez não ficou muito atrás não, eu acho que foi uma experiência interessante.

Vem a Portugal com a família; recentemente esteve cá Caetano Veloso com um espetáculo com os três filhos. Isto tem que ver, de alguma maneira, com a situação no Brasil, esta vontade de juntar a família?

Essa sua análise é interessante. Acho que essa necessidade de que algumas pessoas sentem de se olhar mais nos olhos, de estar juntas, tem que ver com a situação do mundo. Sinto que a tecnologia, que de alguma forma é tão fantástica e que deveria propiciar aquilo a que a gente chama de era da comunicação, está nos afastando um pouco. Sinto isso com amigos, com novos amigos, com a forma como a gente se tem relacionado uns com os outros. É por isso que insisto tanto em fazer teatro, porque hoje, do jeito que o mundo vai, conseguir reunir mil pessoas no mesmo lugar, em silêncio, no escuro, sem usar aquela maquininha infernal, ouvindo um grupo de seis pessoas desenvolver uma ideia durante uma hora e meia é revolucionário.

É quase uma forma de resistência?

É uma resistência que dura 2500 anos e que se a gente continuar insistindo vai durar mais 2500 anos porque é uma necessidade do ser humano e o ser humano não está percebendo que abriu mão dessa necessidade e que ela vai fazer falta daqui a pouco. Talvez a partir da união de pessoas queridas e de ficar um pouquinho mais juntos a gente esteja aumentando a resistência.

Começou no Arena, um teatro de resistência durante a ditadura, com o Augusto Boal.

Comecei lá em 1966, bem no começo da ditadura, e fizemos espetáculos no Teatro de Arena até 1971, ainda durante a ditadura. Vai ser lançado um livro agora aqui em Portugal...

... que parte do seu percurso no teatro para contar a história do Brasil dos últimos 50 anos.

A autora, Rosângela Patriota, contextualiza a minha trajetória dentro da história do teatro do Brasil, dentro da história do Brasil. O livro vai ser lançado agora nessa feira de livros em Óbidos [Folio]. Eu vou lá ao lançamento, vou estar autografando o livro com ela. O livro é dela, é uma pesquisa longa, é um trabalho bem bonito para quem se interesse por história do teatro do Brasil, pela história do Brasil também. O título do livro é Antônio Fagundes no Palco da História: Um Ator, ela me jogou ali como guia.

Ao ler o livro percebeu o seu papel?

É gozado perceber tudo junto, é. É engraçado pelo facto de eu ainda estar produzindo, quer dizer, não é uma coisa saudosista.

Não é póstumo.

É, não é uma melancolia "Ai, meu Deus, olha...", não, não, ao contrário, ainda estou aqui. Ainda estou produzindo. A gente estava brincando, inclusive, sobre quando é que ela vai fazer o volume 2, porque ainda fiz muita coisa depois que ela parou de escrever. Ela encerra o livro e eu ainda estou em atividade, então já tem um monte de coisas que nem entram no livro. Ela fala um pouco de Baixa Terapia quando a gente estava ensaiando.

Mas repensou o seu papel no teatro, uma vez que o livro não tem nada que ver com televisão?

Ela fala de televisão e de cinema, porque começou a analisar a minha carreira em teatro e percebeu que não começava no Teatro de Arena, começava antes, quando fiz o infantil, o teatro estudantil. E percebeu também que, juntamente com isso, eu tinha uma necessidade de fazer outros veículos, viu que o que eu fiz na televisão tinha uma certa importância. Eu gosto muito de dizer que sempre gostei muito de fazer televisão. Sinto que alguns colegas torcem o nariz com a televisão e é uma pena porque a televisão é um veículo extraordinário de comunicação.

É uma escola?

É uma escola. Você aprende a agir rapidamente para montar a personagem, tem uma urgência de tempo que o teatro não tem, e isso é uma coisa boa de você aprender, pode ajudar-te no teatro e no cinema. O cinema é muito importante também. São formas diferentes de atuar. Ela viu que seria desonesto não abrir e acabou abrindo. É um painel grande das coisas que fiz.

Tinha consciência de ter feito tanta coisa?

Não, quando vi aquilo tudo junto... houve até um crítico que ligou para mim e disse: "Fagundes, eu acompanhei a tua carreira inteira, mas eu não sabia que era tanto!" O livro tem 488 páginas, é um livro que fica de pé, é um livro de peso. Realmente é espantosa a quantidade de coisas que fiz.

E a variedade.

E a variedade. Isso é bom. Acho que a história é um pouco escrita assim também, você vive e depois revê aquilo e aí começa a ver as coisas que viveu sob outros olhos. Eu não estranhei, mas vi com outros olhos.

Viveu em tempo de ditadura, viveu em tempo de democracia. Agora, o que é aquilo?

O que é aquilo é uma boa pergunta. O que é aquilo? Porque não consigo nem definir o que está acontecendo, é um momento triste porque descobrimos muitas coisas que intuíamos mas não com tantas provas. E a gente não vê uma solução muito próxima. As coisas estão complicadas, a eleição está complicada, você não vê da parte dos candidatos nenhum entendimento do que está acontecendo, eles agem como sempre todos os candidatos agiram e sabemos que não pode ser assim, que tem de haver um discurso novo, uma postura nova, uma cabeça nova, mesmo que seja com velhos candidatos. E a gente sabe que, mesmo que venha essa novidade, não vai ser rápida a solução.

Isso angustia-o ou dá-lhe força para trabalhar?

Angustia muito, muito, eu amo o Brasil, é um país extraordinário e fico triste. Como fiquei triste com a crise em Portugal, faz uns cinco anos mais ou menos, uma crise violenta. Países com uma beleza, um povo extraordinário, trabalhador, feliz, carinhoso, passando por momentos difíceis por má gestão.

E as pessoas que sofrem com a crise não têm responsabilidade?

Acho que a gente tem responsabilidade sim. A gente tem de prestar atenção.

Não é só o ato de votar?

Acho que tem de prestar um pouco mais de atenção, primeiro, antes de votar, quando votar, e depois tem de acompanhar o que aquela pessoa está fazendo. Tive um período longo da minha vida em que apoiei publicamente candidatos. Eu fui "garoto-propaganda" de alguns candidatos, até que percebi que não estava concordando com o que aqueles candidatos eleitos com a minha ajuda estavam fazendo a partir da eleição. Não tinha o mesmo poder que tive de colocá-los lá para tirá-los de lá, então parei de apoiá-los publicamente. Falei: "Eu vou continuar agindo como cidadão, mas não me posso expor se não posso consertar o que vejo de errado". Mas o povo pode, porque se todo o mundo prestar atenção e gritar eles se preocupam um pouquinho.

Acabou de fazer agora no Brasil um filme bastante político.

Sim, é uma produção minha. Contra a Parede fala sobre isso que nós estamos falando. Se passa dois meses antes das eleições, há um jornalista muito famoso - é a minha personagem -, que se chama Cacá Viana.

Voltou a ser Cacá?

Foi uma coincidência feliz. Ele se vê diante de um problema ético quase insolúvel porque é muito amigo de dois candidatos à presidência; um deles será o futuro presidente e vê-se envolvido num crime. É bem interessante.

É um tema muito atual.

Lá tem a Globo Play, aqui não sei se as pessoas têm... O filme está na Globo Play.

E fez também uma série para a Globo chamada Se Eu Fechar os Olhos agora.

Exatamente.

Não sei se vai chegar cá, mas hoje a noção de canal de televisão já não é a mesma...

Vai com certeza. Agora está tudo aberto. Tem muitas janelas e, por exemplo, essa série estreou-se no Now. Quem tiver a curiosidade está lá no Now.

Mas pode dar umas pistas sobre o que é?

É um dos primeiros romances do Edney Silvestre, um jornalista famoso no Brasil que escreveu já diversos romances. É muito bom. É uma história que se passa na década de 1950 no Rio de Janeiro, são dois meninos, duas crianças que estão brincando, que vão tomar banho no lago e descobrem o cadáver de uma mulher da cidade. Começam a fazer uma investigação e nesse caminho eles cruzam-se com um idoso, que é a minha personagem, que está num asilo, e que os ajuda nessa investigação. É um policial.

E é uma série de quantos episódios?

São dez episódios.

Consegue ter tempo livre para si?

Tenho. Sabe, eu tenho um problema que é uma solução: sou extremamente pontual. Inclusive, é uma coisa que a gente insiste muito aqui em Portugal, os nossos espetáculos começam rigorosamente - a gente usa essa palavra - no horário marcado. E nós começamos mesmo. Não deixamos o público entrar atrasado.

Fica já esse aviso.

Não é para castigar quem chega atrasado, mas para honrar quem chegou a horas, porque a gente sabe que é difícil chegar na hora certa. Mas vale a pena, porque você chega, senta gostoso e tal e não passa um segundo além da hora combinada. A pessoa sabe que vai ser respeitada, e mais, ela não vai ter ninguém passando na frente dela porque nós não deixamos. Porque você perde dez minutos da peça e não vale a pena. Por isso, por essa pontualidade que eu exerço na minha vida inteira, a minha vida dura mais, porque eu não atraso dez minutos aqui, vinte ali, no fim do dia eu perdi três horas. Eu uso essas três horas para fazer outra coisa, dá para ler um livro, dá para ir a um cinema, dá para ficar com a família.

Ler é fundamental para quem trabalha nesta área?

Para mim, é. Eu acho que é fundamental para o ser humano. Eu acho que grande parte dos problemas do Brasil reside no facto de que o leitor médio brasileiro lê um livro por ano. Quem lê um livro por ano não consegue ler a obra do Shakespeare - ele escreveu 36 peças. É um problema porque você fica muito sozinho com os seus pequenos pensamentos. Mas para um ator, se ele quiser realmente fazer parte do tempo dele, é importantíssimo, é vital.

Não se diz "boa sorte" a um ator.

Se diz outra coisa. A gente pode contar a história que é bonita. Uma das explicações de que eu mais gosto é essa: até ao fim do século XIX, o público ia assistir aos espetáculos de teatro a cavalo ou em carruagens. Então quanto mais - vou dizer - merda tivesse na porta do teatro mais sucesso. É por isso que a gente deseja muita merda.

E é isso que eu lhe desejo. Ou a outra expressão que é "partir uma perna"...

Essa é mais americana.

... para a Baixa Terapia que se estreia no Tivoli BBVA em Lisboa no dia 26 e faz digressão em Portugal - Porto, Braga, Famalicão, Leiria, Coimbra, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz e Águeda. E se calhar ainda aparecem mais cidades.

Estamos aumentando, a gente começou com três cidades e agora já são nove. Vai chegar o tempo em que vamos ficar um ano aqui, se Deus quiser.

As pessoas no Brasil a perguntarem o que aconteceu ao Antônio Fagundes, e ele em Portugal.

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