A irlandesa Anna Burns ganha o Booker prize com Milkman

A escritora irlandesa Anna Burns foi anunciada na noite desta terça-feira como a quinquagésima vencedora deste prémio literário. O livro distinguido, Milkman (Leiteiro), é, como a obra de estreia da autora, situado no conflito entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte.

Protagonizado por uma jovem de 18 anos e situado nos anos 1970, na Irlanda do Norte, Milkman, ainda sem tradução portuguesa, descreve a relação entre ela -- que não tem nome, ninguém no livro tem nome, todos são referidos por relações, funções ou características -- e um homem muito mais velho, um poderoso chefe das milícias que designa como "leiteiro" e que decidiu fazê-la dele. Ameaça matar-lhe o namorado se ela o voltar a ver e acaba por vencer a sua resistência.

Apesar de se situar numa altura de grande violência, o livro concentra-se muito mais na atmosfera opressiva e tribal que divide o território e as pessoas que nas bombas, nos tiroteios, nas mortes, acontecimentos pelos quais a protagonista, que é denominada como "irmã do meio" e se caracteriza por andar pela rua a ler livros (algo que, diz a autora em entrevista, que ela própria fazia), não demonstra interesse.

"Embora se passe na Irlanda do Norte nos anos setenta, faz pensar noutros regimes e no seu impacto: a Rússia stalinista, os Talibãs, as caças às bruxas na Idade Média. O envenenamento de Sergei Skripal e da filha, o #Metoo, também me ocorreram enquanto o lia. Apesar da surrealidade, tudo neste livro soa a verdadeiro", escreveu, sobre Milkman, no Guardian, Claire Kilroy. "A narradora subverte o status quo não por ser abertamente política, heróica ou por se opôr de forma violenta, mas por ser original, divertida, desarmantemente oblíqua e única: diferente."

Já o presidente do júri, o escritor anglo-ganês Kwame Anthony Appiah, diz: "A linguagem do Milkman de Anna Burns é simplesmente maravilhosa; começando pela distintiva voz, na primeira pessoa, da divertida, resiliente, astuta e direta protagonista. Desde a primeira página a sua voz puxa-nos para a violência quotidiana do seu mundo - ameaças de morte, assassinatos cometidos por esquadrões da morte estatais - enquanto vive a realidade de todos os dias da sua vida como jovem mulher, tentando conciliar as exigências da família, amigos e amantes num tempo turbulento. A novela evidencia de forma brilhante o poder da maledicência e pressão social numa comunidade muito fechada, e demonstra como os boatos e as lealdades políticas podem ser colocados ao serviço de uma persistente campanha de assédio sexual. Burns vai buscar a sua experiência do conflito da Irlanda do Norte para retratar um mundo onde indivíduos abusam do poder conferido pela comunidade aos que resistem ao Estado em seu nome. Mas este não é nunca um livro só acerca de um lugar ou tempo. O local está ao serviço da exploração da experiência universal de sociedades em crise."

"Desde a primeira página a sua voz puxa-nos para a violência quotidiana do seu mundo - ameaças de morte, assassinatos cometidos por esquadrões da morte estatais - enquanto vive a realidade de todos os dias da sua vida como jovem mulher, tentando conciliar as exigências da família, amigos e amantes num tempo turbulento."

Numa entrevista publicada no site da fundação Booker Prize, Burns diz que Milkman se inspirou na sua própria experiência: "Cresci num lugar carregado de violência, desconfiança e paranóia, no meio de gente que tentava navegar e sobreviver nesse mundo o melhor que podia. (...) Cresci em Belfast e isso tem uma enorme influência no livro. É sobre uma sociedade inteira afetada por violência continuada, vivendo sob enorme pressão, e como isso pasa a ser a normalidade."

Nascida em 1962, Anna Burns é primeira autora da Irlanda do Norte a ganhar o Booker, que implica um prémio monetário de 50 mil libras (57 mil euros).

O seu primeiro livro foi No Bones, em 2001, também situado no conflito da Irlanda do Norte. Seguiu-se Little Constructions, em 2007, e Mostly Hero, em 2014. Nenhum tem tradução portuguesa.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.