'Ana, Meu Amor'. Isto não é um 'feel-good movie'

O esplendor do desencanto romeno filmado por Calin Peter Netzer. Ana, Meu Amor foi uma das sensações do Festival de Berlim de 2017.

Mais ou menos uma década depois de o cinema romeno se ter tornado a nova corrente da moda do cinema realista europeu, começa a sentir-se um certo efeito de esvaziamento. O novo filme de Calin Peter Netzer (o autor do Urso de Ouro de 2013, Mãe e Filho), Ana, Meu Amor, já não tem a frescura a que estávamos habituados dentro deste estilo de realismo extremo. Aqui e ali começamos a sentir coordenadas de repetição, algum cansaço narrativo. Ainda assim, esta crónica de uma relação ao longo de muitos anos tem o habitual sentido do real e aquela tensão metódica que nos conquistava. Será pois injusto falar-se em desilusão, apenas talvez já não haja a frescura dos filmes romenos de meados da década passada que tornaram célebre esta corrente, filmes como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, ou A Morte do Senhor Lazarescu, de Chriti Puiu.

A história narra o romance entre Toma e Ana, ainda estudantes universitários. Começam uma acesa relação e tornam-se um casal que durante a passagem do tempo - cerca de dez anos - apaga a chama amorosa; ele com um complexo de domínio masculino, ela com uma tendência para a depressão e princípio de doença mental. Amam-se e odeiam-se ao mesmo tempo e com a mesma força. A passagem do tempo é consubstanciada pela perda de cabelo de Toma. De alguma forma, Netzer passa o filme todo a esfregar-nos na cara que uma relação a dois é uma epopeia torcida e violenta. Podíamos dizer que Ana, Meu Amor é sobre os altos e baixos de uma relação, mas é mais justo falar apenas em baixos.

Se o amor é um caso de patologia crónica, a atração de Toma e Ana tem aqui a plena demonstração disso mesmo. O fim do amor, o choque das almas gémeas nunca poderia dar um filme leve.Ana, Meu Amor é pesado, pesadíssimo e passeia um tom truculento capaz de deixar eriçado o espectador mais santo. Ao mesmo tempo, quem já passou por, ou viu, um casal a desintegrar-se sente que nada desta neurose está a mais. A bem dizer, o azedume dramático dos diálogos é justo e nada exagerado.

Uma separação não é mais rancorosa na Roménia do que nos EUA, mas os berros em romeno dão a esta odisseia um peso ainda mais visceral, sobretudo porque o final do amor é também uma metáfora de uma sociedade romena onde a moral se confunde com o político.

Veja o trailer:

O cinema deste cineasta romeno é de uma só vez físico e desencantado. É certo que às vezes a sua longa duração joga contra si, mas é um peso que faz deste conto real um objeto com uma dimensão incómoda, não tirando partido entre "ele" e "ela". No fim, o lado da "doença mental" confunde-se com as próprias consequências de uma relação doentia. Claro que já todos sabemos que o amor nos põe perto da loucura, mas é sempre bom aparecerem estes filmes do Leste para nos lembrar dessa realidade, mesmo sem partitura musical à Hollywood a sinalizar emoções. Filmar o mal-estar é difícil, sim senhor, mas Netzer, por muita vontade que tenha em expor o esplendor do desencanto romeno, tem sempre as pinças certas, antologiando as estribeiras da brutalidade humana. A vida deste casal é delicada, muito delicada. Nunca poderia sair daqui uma comédia romântica. Mesmo quando se sente algum tipo de humor, é humor de choque. Os romenos sabem muito bem o que isto é.

Não é preciso ir mais longe, está aqui o feel-bad movie do verão.

3 estrelas

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