O avô dela tocou com o Sinatra, a tia dele dançou com o John Wayne. Isto são os Açores.

"Tu de Quem És?", uma criação coletiva que leva Lúcia Moniz e Miguel Damião ao palco, com textos de Nuno Costa Santos e Alexandre Borges, está em cena neste sábado no Teatro Micaelense, integrado no festival Walk & Talk

Mariana Pereira
© Filipa Couto / Walk & Talk

Um homem das Flores responde ao poeta John Donne e ao verso em que escreve "No man is an Island." ("Nenhum homem é uma ilha"). Diz que John - "posso tratar-te por João?", sotaque açoriano, sempre - está enganado. "Um homem não é uma grande cidade." É mesmo uma ilha.

O homem das Flores é o ator Miguel Damião, e antes já Lúcia Moniz entrara e saíra do palco. Os dois dão corpo, voz, e as suas memórias a Tu de Quem És?, peça com textos de Nuno Costa Santos e Alexandre Borges que se estreou ontem no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, onde neste sábado volta à cena, integrada no festival Walk & Talk.

Os quatro são açorianos, dois de São Miguel, dois da Terceira, e pouco depois de a peça começar já fomos introduzidos à rivalidade que existe entre ilhas. A pergunta "Tu de Quem És?" vai pairando. A certa altura os dois atores respondem-lhe diretamente. Lúcia Moniz, por exemplo, é dos morangueiros do avô, na Terceira onde ela não nasceu, mas onde fez questão que a filha Júlia nascesse. Miguel também não nasceu na sua ilha, mas é da ilha, e de Moçambique também, onde chegou a viver, e de onde tem imagens fortes de um safari que fez com pouco mais de três anos. Não nasceram nos Açores, mas são dos Açores, afirmam.

"Aqui nos meios pequenos tu remetes a pergunta para esse sítio muito próprio que é a árvore genealógica, de quem somos filhos. Mas é engraçado fazeres essa pergunta de forma mais generalizada: Tu de quem és? O que é que te vem à memória? Quem sentes que és? A quem pertences?", lança o ator numa conversa dos dois atores com o DN.

"Este espetáculo está com 92% de humidade", diz uma voz. Estamos de facto nos Açores, arquipélago com o ponto mais ocidental da Europa - "Quando o sol se põe aqui já passou por toda a gente" - e onde temos mais uma hora do que aqueles que estão no continente - "Menos uma hora uma ova", ouve-se.

Há muitas cenas cómicas nesta peça em que Miguel Damião veste um fato que evoca uma vaca, e Lúcia Moniz tem um longo vestido com um enorme ananás: ouvi-los, com sotaque, a falar das pessoas da terra; ouvi-los a enumerar o que cada uma das suas ilhas tem, um contra o outro, como num rápido despique de cartas; vê-los feitos Romeu e Julieta versão Terceira.

Mas também há cenas como Lúcia Moniz a cantar o Poema dos Náufragos Tranquilos, de Emanuel Félix, ou aquela, final, em que se ouve a voz de Carlos Alberto Moniz, seu pai, perguntar: "E a menina como se chama?" Ana Lúcia Pereira Moniz. "Quase três anos". Enquanto se ouve a canção cantada pela criança, é projetado um vídeo e juventude do dia em que o pai de Miguel Damião fez 16 anos, um vídeo cheio de crianças, com a sua avó e a sua bisavó.

E se o avô de Lúcia Moniz tocou com Frank Sinatra na Terceira, a tia Micá de Miguel Damião dançou com John Wayne em São Miguel, quando ele por ali passou em 1963. Aliás, o livro de honra daquele teatro tem a sua assinatura.

Os dois atores, com Nuno Costa Santos, Alexandre Borges e Cláudia Gaiolas, também envolvida nesta criação coletiva, passaram "quatro dias e meio nos Açores". Do material bruto que saía em conversa, muito deste feito de memórias, ia surgindo o texto.

"Para mim este projeto é também uma forma de honrar a minha família. Disse sempre que faria este espetáculo também para eles", explica Miguel Damião, que aqui viveu até aos 20 anos. "Tenho cá a minha família toda. Aqueles agradecimentos todos [numa cena da peça] são tramados, emocionei-me mesmo agora no fim. São praticamente todos primos e tios que vão estar cá hoje à noite, vou estar a agradecer-lhes diretamente", afirma no final do ensaio.

Lúcia Moniz passou a sua primeira infância na Terceira, e tem muitas memórias em casa dos avós, onde ficava quando os seus pais iam em digressão. "Mesmo vivendo a maior parte da minha vida em Lisboa, eu não me sinto lisboeta. Fado para mim... Eu acho as modas açorianas muito mais bonitas. Isso, sim, mexe comigo. São coisas que não têm explicação. Há amigos meus que as vezes dizem-me assim: "Já estás cansada." "Como é que sabes?" "O teu sotaque"."

A jornalista viajou a convite do festival Walk & Talk