Porque é que pela primeira vez não há portugueses na Bienal de São Paulo?

O novo modelo de curadoria pode ser a explicação para a ausência inédita de portugueses na exposição. Serralves, que tem exposto núcleos da bienal no seu museu, não fechou ainda qualquer acordo para que tal aconteça desta vez

Mariana Pereira
A exposição da 33.ª Bienal de Arte de São Paulo, Afinidades Afetivas, no Parque do Ibirapuera© EPA/Sebastiao Moreira

Pela primeira vez na história da Bienal de Arte de São Paulo, neste ano não haverá qualquer artista português presente. Nesta que é a 33.ª edição do certame, com o título Afinidades Afectivas, a exposição que abre nesta sexta-feira ao público no Parque do Ibirapuera, onde ficará patente até 9 de dezembro, inaugura um novo modelo de curadoria na bienal, que poderá explicar a, segundo o jornal Público , inédita ausência de representantes portugueses ao fim de 67 anos de existência.

Não é por acaso que o título pede emprestadas expressões ao romance Afinidades eletivas de Goethe e à tese do crítico de arte brasileiro Mário Pedrosa Da natureza afetiva da forma na obra de arte. Afinal, além de selecionar ele próprio 12 projetos de artistas para expor, o curador-geral desta edição, o galego Gabriel Pérez-Barreiro, selecionou sete artistas-curadores para assinarem a curadoria de sete mostras coletivas. Estes tiveram liberdade na escolha dos artistas que haveriam de selecionar e apenas um requisito: tinham de incluir trabalho próprio na mostra.

Alejandro Cesarco, uruguaio e americano, o espanhol Antonio Ballester Moreno, a argentina Claudia Fontes, Mamma Andersson, da Suécia, os brasileiros Sofia Borges e Waltercio Caldas, além de Wura-Natasha Ogunji, nascida nos Estados Unidos e a viver atualmente na Nigéria, foram os artistas-curadores escolhidos por Gabriel Pérez-Barreiro.

Nos doze projetos individuais escolhidos pelo curador-geral, que se focou na América Latina, contam-se três homenagens póstumas: a Aníbal López, Feliciano Centaurión e Lucia Nogueira. As escolhas do curador galego recaíram ainda sobre os brasileiros Siron Franco, Maria Laet, Vânia Mignone, Nelson Felix, Bruno Moreschi, Luiza Crosman, Tamar Guimarães, Denise Milan, e o argentino Alejandro Corujeira.

Questionado pelo DN acerca da ausência de artistas portugueses nesta edição da bienal, o gabinete do ministro da Cultura respondeu apenas: "A Direção-Geral das Artes não recebeu candidaturas de artistas portugueses para apoio à participação na Bienal de S. Paulo.". Na última bienal, recorde-se, a Direção-Geral das Artes investiu 16.500 para apoiar os artistas portugueses selecionados para a bienal.

A Fundação de Serralves, que em 2015 e 2017 levou até ao seu Museu de Arte Contemporânea as obras da bienal, depois de ela acontecer, não tem ainda acordo firmado para que o mesmo aconteça nesta edição, confirmou o DN junto do gabinete de comunicação de Serralves.

Lourdes Castro, Carla Filipe, Gabriel Abrantes, Priscila Fernandes e Grada Kilomba foram os artistas portugueses que marcaram presença na Bienal de São Paulode 2016. O ministério da Cultura, já chefiado por Luís Filipe Castro Mendes, dizia então tratar-se do "maior contingente estrangeiro presente nesta edição da bienal", intitulada Incerteza Viva, com curadoria geral de Jochen Volz e Lars Bang Larsen.

Ouvido pelo Público , João Fernandes, subdiretor do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, atribui ao novo modelo curatorial a ausência de artistas portugueses. "É um modelo com os seus condicionalismos, porque os artistas olham para o mundo através das suas obras e vivem no seu próprio universo", afirmou.