Percorrer Sydney com Peter Carey

Não é todos os dias que um turista ou um viajante decide partir em direção a uma das mais conhecidas cidades australianas, mas quem já esteve em Sydney garante que é imperdível. É o caso do escritor Peter Carey.

João Céu e Silva
A ÓPera em Sydney© DR

Peter Carey é australiano, por isso joga em casa quando escreve um relato sobre Sydney, daí que até comece por citar um outro autor para descrever a sua cidade: "Já perdi a esperança de ser capaz de transmitir ao leitor toda a beleza que vejo no porto de Sydney, escreveu Anthony Trollope." Carey recorre ainda a todas as comparações com Nápoles, Rio de Janeiro ou Lisboa, mas garante que a cidade australiana é a que possui mais "beleza aquática".

Peter Carey começa por fazer a história da cidade, recordando o capitão Cook e os degredados que para lá foram enviados há mais de duzentos anos, mas não avança muitas páginas antes de fazer um sábio aviso: "Se alguém puder afirmar com segurança que conhece uma cidade é porque ela é provavelmente muito pequena." É impossível não concordar com esta frase, mesmo que o escritor precise de mais duzentas e setenta páginas para falar um pouco - nunca o suficiente - sobre Sydney. Ou seja, esta cidade é grande e impossível de descobrir por inteiro.

A forma como Carey descreve a cidade é através da sua própria vivência, dos conhecidos, dos bares e restaurantes, das ruas e promontórios. Quando regressou a Sydney para lá passar um mês após muitos anos vividos em Nova Iorque, ficou em casa de um amigo, que lhe passou para a mão as chaves de casa e do carro. É dali que vai sentir o vento oeste que odeia quando sopra sobre a cidade, observar a famosa Ópera onde antes os colonos esmagavam conhas para obter calcário, rever posições sobre os aborígenes, ou falar da arte do pinto Martin Sharp, para se compreenderem os tons da cidade.

Através das histórias de Peter Carey sabemos que a cidade nem sempre se chamou Sydney, antes era denominado Acampamento; que foi planeada num mapa feito trinta e cinco dias após a chegada dos primeiros brancos. Não sendo um guia típico, ninguém sai destas páginas sem perceber o espírito de Sydney, tão rebelde como servil, tão selvagem como urbanizado.

Peter Carey sobre os cangurus:

"Escrevia John Huxley que os cangurus mais dorminhocos continuavam deitados na poeira da estrada. Os comedores-de-mel esvoaçavam por entre as árvores. Caminhantes, alguns com crianças às cavalitas, passeavam em busca de atrações locais como o monte Cloudmaker, Big Misty e a gruta Dance Floor."

Peter Carey sobre as praias:

"Dez minutos depois,tinha-me livrado da visão satânica do Central Business District e caminhava na areia dura e amarela de Bondi Beach. Em todo o mundo que praia metropolitana se podia igualar a esta? Não me façam rir. "

Peter Carey sobre os aborígenes:

"Mesmo o mais racista de entre nós tem de reconhecer aos Aborígenes um conhecimento profundo desta terrra hostil, e isso é que lhes confere a autoridade que têm na nossa imaginação. Eles sabiam cultivar a terra e nós não, tal como continuamos a não saber."

Peter Carey sobre estar em casa:

"Eram nove da manhã em Sydney e eu, completamente baralhado com o jet lag, calculei erradamente que era meia-noite em Manhattan. Mas quando acabei de deitar o café na elegante chávena branca, sentia-me em casa."