O que há de novo no Museu de Arte Antiga? 15 peças de mobiliário com história

São 190 peças do melhor mobiliário de produção nacional da Idade Média ao século XIX, entre elas 15 que até agora não tinham sido mostradas

Lina Santos
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens
A nova apresentação da galeria de mobiliário do Museu de Arte Antiga | foto Diana Quintela& Global Imagens

O escritório açoriano tem lugar de destaque agora que foi confirmada a nacionalidade portuguesa. Mas também há a cómoda-papeleira do século XVIII, que por ter um segredo e não se poder abrir a toda a hora, vem acompanhada de um tablet com um vídeo que revela o truque na nova apresentação do Museu Nacional de Arte Antiga.

Esta é uma das novas peças que se pode ver neste museu que percorre cinco séculos da história do mobiliário português. "Não é uma história do móvel, é uma história social", reflete o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga.

A consevadora acrescenta que se trata de uma coleção com "madeiras muito boas" e "quando se olha para uma mesa ou uma cadeira contam mais do que se vê. Ilustra a arte de trabalhar, são histórias, tem uma simbologia, uma história do quotidiano. Como vivemos ao longo dos tempos, como viveu uma certa elite", reflete a conservadora.

"Há uma nova comunicação, novos textos de parede e comentários desenvolvidos que fazem as peças falar", diz António Filipe Pimentel ao DN sobre as novidades do MNAA. Entre as 190 peças desta coleção, 15 são novas (e seis delas nunca tinham sido mostradas ao público). Vão da Idade Média ao século XIX e a maioria chegou ao museu através de conventos, após a extinção as ordens religiosas. Mas também há aquisições recentes.

Peças de várias origens de que as pessoas se gostavam de rodear e que eram transportadas em arcas nas suas viagens estão agora numa das vitrines do MNAA à vista de todos os visitantes. "Mostram um cosmopolitismo e o gosto em possuir objetos de vários origens", explica Conceição Borges de Sousa ao DN. Chama a atenção para uma: uma conta de rosário ilustrada com uma descida ao infernos e uma subida aos céus que a conservadora do MNAA recomenda que se preste atenção. Tão importante é que esteve recentemente numa exposição no Rijksmuseum, em Amesterdão.

Do século XV e proveniente do Convento do Varatojo, nos arredores de Torres Vedras, a cadeira de D. Afonso V é uma das peças que mais destaque no novo desenho expositivo. A cadeira, de interesse nacional, aparece em três desenhos conhecidos, mostrando o seu aspeto original antes dos restauros a que foi sujeita."É muito rara. Poucos tronos desta época conseguiram chegar aos nossos dias", realçou a conservadora do MNAA à Lusa.

Azuis e brancas, estas peças de cerâmica estão expostas ao lado dos almofarizes. "São muito bonitas e não tinham presença", refere a conservadora que agora lhes encontrou lugar.

A arca é de couro gravado final do século XVI e, segundo Conceição Borges de Sousa, "muito ilustrativa do Portugal da época". "Pelo período dela é uma peça importante", diz ao DN. Sobreviveram poucas, porque "com o passar dos anos vão-se desgastando.". Sobre ela, na parede uma uma renda de 1615.

É uma peça de contemplação obrigatória, a fazer fé no entusiasmo de Conceição Borges de Sousa por este escritório construído em Angra do Heroísmo. "Era uma zona de paragem, de escala, das armadas, quando vinham da Índia", conta, lembrando as descrições de Gaspar Frutuoso dos Açores. "Ele fala em 72 lojas de carpintaria", diz a conservadora do MNNA, "Grande parte seria para exportação, mas como era um ponto de encontro e tinham boas madeiras, recebiam influências várias". Até há pouco tempo, por semelhança com outros exemplares do género, acreditava-se que o escritório era espanhol, o que a ciência veio desmentir. "A madeira foi analisada e é uma madeira dos Açores, avermelhada. "Fiquei muito contente com as análises laboratoriais, que são para mim as mais fidedignas. Confirmava-se o que outros autores já tinham referido - que a provável origem é os Açores", diz.

Muitas das peças que chegaram ao museu, aberto desde 1884, vêm de conventos, resultado da extinção das ordens religiosas. Estas portas renascentistas não são exceção. Depois de terem sido mostradas na exposição que trazia para os pisos nobres peças que estavam em reserva, "achei que faziam sentido nesta nova mostra".

No núcleo que percorre a história da cadeira, Conceição Borges de Sousa salienta a entrada de dois novos exemplares. Uma delas, a do quarto conde de Unhão, uma família detentora de muitas propriedades, tem as armas correspondentes. A cadeira, ao estilo D. João V, "é mencionada no inventário de morte do conde". Nunca esteve exposta. A outra é de couro dourado, com desenhos nas pernas. Tão-pouco esteve exposta até agora. Para a exposição foi tratada e intervencionada.

É uma mesa "muito marcante", diz Conceição Borges de Sousa sobre esta mesa D. João V, com perfis dourados e "características muito ricas".

Além da beleza artística da peça, Conceição Borges de Sousa diz que esta papeleira "tem a particularidade de ter o nome de quem a fez, quando e onde", diz a conservadora de mobiliário do MNAA. A saber: Domingos Tenuta, Lisboa, 1790. "O mecanismo está perfeito", refere. A papeleira foi comprada num leilão e veio para o MNAA em 2013. Pertencia a uma coleção privada e a especialista já a conhecia e à sua importância.

"Há muito poucos móveis assinados. Apesar de haver a obrigatoriedade de o fazer, pouca gente cumpria". Domingos Tenuta, porém, fá-lo, apesar de ser necessário recorrer ao segredo. Era prática comum entre os franceses também, diz a conservadora, que o faziam sob a pedra de mármore do tampo.

Das reservas para a exposição das reservas e daqui para a coleção permanente, a xiloteca de D, João VI é um móvel que ganha destaque na nova apresentação. "Tem 35 gavetas com amostras de madeiras e a identificação de cada uma". Está "estampilhada", isto é, com a marca do marceneiro. O autor é José Aniceto Raposo, que era secretário da corporação."Deve ter sentido a obrigatoriedade de assinar", diz Conceição Borges de Sousa em jeito de hipótese. As amostras das madeiras estão identificadas e guardadas numa das gavetas.

Já tinham estado na exposição, apresentados de outra forma - a cadeira e o estore pintado, e recentemente doado ao MNAA, para o qual Conceição Borges de Sousa chama a atenção. É um trabalho de Joaquim Rafael, que foi aluno de Vieira Portuense que, por sua vez, foi díscipulo de Jean Pillment. Juntaram-se - as duas peças - porque a cadeira também tem "apontamentos de pintura".

Imagens muito apreciadas eram replicadas de disciplina em disciplina, como quis mostrar a conservadora neste núcleo em que uma mesa em escaiola onde é reproduzida a mesma imagem que encontra num chávema. "As que têm muita aceitação, passam dos móveis para as pratas, das pratas para a cerâmica, da cerâmica para os têxteis..."

Quase no final destas salas, outra vitrina, com peças pequeninas que mostram como seriam as reiais.As "caminhas de Menino Jesus", como lhes chama António Filipe Pimentel são "versões liliputianas" do que seriam os originais. "Eram levados pelas freiras que iam para para os conventos e que depois os usavam nos presépios com a figura do Menino Jesus", contextualiza Conceição Borges de Sousa. "Como se faziam vestes para as imagens, faziam-se estes berços e cadeirinhas". São do século XVIII e uma delas "tem o furo no assento para fixar a imagem à cadeira."

Mostrar objetos que foram nascendo à medida que iam nascendo novas divisões e se criavam novos modos de vida foi uma dos objetivos da nossa apresentação da coleção de mobiliário. Veio, por isso, o leque de empoar cabeleireiras, que se pode ver junto à cadeia de espaldar alto, onde se fazia a barba. "Está uma bacia com um gumil de prata. O fole para cabeleiras aparece nesse contexto, decorado com chinoiserie."

A partir da segunda metade do século XVIII, começam a surgir uma série de móveis destinados a cobrir as novas necessidades, nomeadamente na sala de jantar que, até aqui, não exisita. "As mesas eram tampos que se punham onde fosse preciso", conta a conservadora. stjo de faqueiro, que se liga às artes da mesa. só se fiza na segunda metade. Por a mesa, daí se ter dfixado o termo. Eram tampos. Com o andar dos tempos arranja-se uma divisão que precisa de móveis novos. Nascem as cantoneiras onde se guardavam os faqueiros dentro de estojos próprios". É por isso que também há faqueiros na exposição.

É uma peça "imponente", adjetiva Conceição Borges de Sousa, sublinhando o que pode escapar aos mais desatentos: a exposição de mobiliário começa com uma trono e termina com um trono. De D. Afonso V a D. João VI... ou D. Pedro IV. Não é certo ainda se pertenceu a um ou ao outro rei, mas é, evidente para a conservadora, "é um móvel de cerimonial, ilustra a cenografia do poder". Estava na Assembleia da República e foi depositado no MNAA

Depois da renovação da galeria de pintura e escultura portuguesas e, agora, das salas dedicadas ao mobiliário português, desde a Idade Média, segue-se em setembro, a abertura da galeria de têxteis e, em dezembro, a Capela das Albertas, atualmente em restauro. O próximo passo, segundo António Filipe Pimentel, é a galeria de pintura europeia.

E embora as novas salas tenham encerrado logo após a abertura, esta terça-feira (tal como acontece com a exposição permanente de joalharia), o Museu Nacional de Arte Antiga está aberto de terça-feira a domingo, das 10.00 às 18.00. O bilhete normal custa 6 euros, têm 50% de desconto os estudantes, os maiores de 65 anos e aqueles que adquiram bilhetes de família. A entrada é gratuita aos domingos e feriados até às 14.00 para cidadãos nacionais e estrangeiros residentes em território nacional, para crianças até 12 anos, desempregados e pessoas com mobilidade reduzida.