"Não sei se hei de rir ou chorar." Restauro amador de peça do século XV choca espanhóis

María Luisa Menéndez defende o seu trabalho: "Pintei o melhor que sabia usando o que pensava serem as cores certas"

Patrícia Jesus
© EPA/J.L.Cereijido

Um manto cor-de-rosa, cabelo ruivo, lábios pintados. Foi assim que foi transformada uma escultura religiosa do século XV, alvo de um restauro amador, em Rañadorio, nas Astúrias, a que chamam o "Ecce Homo asturiano".

A imagem de Maria e de Jesus de uma ermida de Rañadorio foi "atualizada" por uma paroquiana que pediu autorização ao padre local para lhes dar nova cor. María Luisa Menéndez defende o seu trabalho: "Pintei o melhor que sabia usando o que pensava serem as cores certas. Os vizinhos também gostaram. Pergunte e vai ver", disse a um jornalista do El Comercio.

Mas as estatuetas, um conjunto de três, já tinham sido alvo de um restauro no início do século. "Não sei se hei de rir ou chorar", disse Luis Suárez Saro, responsável pela intervenção de 2003, ao Guardian. "Usaram um tipo de tinta de esmalte industrial que se vende para pintar tudo e cores absolutamente berrantes e absurdas."

"Nem a técnica nem as cores têm nada a ver com as originais", disse também ao El Comercio, explicando que as estátuas têm enorme valor histórico e artístico e que esta intervenção é um desastre. Saro explicou que as estatuetas já foram analisadas através de infravermelhos para avaliar os danos e ver o que possível restaurar.

Esta intervenção amadora é descrita pelo jornal espanhol como um novo exemplo de um restauro falhado, depois de há alguns anos a pintura do "Ecce Homo" de Borja ter dado que falar. A pintura original do rosto de Jesus, assinada pelo pintor espanhol Elías García Martínez em 1930, correu mundo com a forma que lhe deu Cecilia Giménez, uma octogenária de Borja, ao passar o seu pincel por ela, que estava bastante deteriorada.

Já este ano, o restauro desastroso de uma escultura do século XVI, em Navarra, também foi notícia. À revelia das autoridades locais e autonómicas, a paróquia de Estella decidiu encomendar o restauro da escultura a um artesão local, sem conhecimento especializado na área, e a peça agora está irreconhecível.