Estreias. Joaquim e Vazante- filmes para colocar o dedo na ferida colonialista portuguesa

Chegam aos nossos ecrãs em exclusivo nos cinemas UCI, Vazante, de Daniela Thomas e Joaquim- O Tiradentes, de Marcelo Gomes. Dois exemplos de cinema luso-brasileiro que falam de um passado português sangrento no Brasil

Rui Pedro Tendinha
Joaquim© DR

Reinvestimos no novo cinema brasileiro? Sim, com cautelas...Joaquim, de Marcelo Gomes e Vazante, de Daniel Thomas, são dois bons exemplos de que algo fervilha no cinema brasileiro, mas também que continua a faltar um golpe de asa, um golpe de génio.

Nesta semana em que chegam estas duas co-produções com a produtora portuguesa Ukbar, não deixa de ser também oportuno repensar a lógica desta ponte entre os dois países. Quer um, quer outro filme integram o papel colonialista português nas suas histórias. São filmes em que faz todo o sentido a ideia de produção conjunta. Esta operação da Ukbar até lança uma perplexidade maior: porque razão não há mais cinema luso-brasileiro?

Sobre Joaquim- O Tiradentes (no Brasil o título foi apenas Joaquim...), está em causa uma visão muito própria dos factos que levaram à morte do Tiradentes, figura marcante na rebelião dos brasileiros no processo da sua independência. Um herói da História brasileira filmado pela lente de Marcelo Gomes como um anti-herói.

Não estamos no território da biografia, antes de um estudo de personagem com uma energia observacional peculiar, onde as sequências com a câmara solta e em cima das personagens resultam de forma eficaz. De forma subterrânea, interessa ao cineasta de Cinema, Aspirinas e Urubus filmar o nascimento de uma nação, aquele momento onde o Brasil passou a ter consciência. Talvez chamar-lhe momento cine-cachoeira seja boa ideia, nem que para isso o filme tenha um diálogo muito feroz e sincero com a forma brutal como a nossa coroa fazia gala de um colonialismo à base da mais explócita barbárie. Mais do que nunca, sobretudo com aquilo que acontece neste Brasil que não cumpriu a sua promessa, importa criar um debate cinematográfica (e não só, evidentemente) sobre o legado do trauma da colonização portuguesa.

Com mais ou menos catarse, Joaquim é um filme histórico em carne viva. Tem atores que fazem dessa carne viva um combustível muito sentido. Mais uma vez, Nuno Lopes volta a evidenciar-se numa produção internacional ( e está quase a chegar O Grande Circo Místico, onde é filmado por Cacá Diegues...).

Em Vazante, de Daniela Thomas, cujo último filme estreado em Portugal era esse subtil e muito ignorado Linha de Passe (co-dirigido por Waltinho Salles), temos também um retrato duro do Brasil colonizado, neste caso em 1821, onde acompanhamos um fazendeiro português que depois de ficar viúvo decide casar com a sobrinha menor da sua mulher. Um espelho de um comportamento de abuso português em pleno delírio colonialista. O fazendeiro é um traste para os seus escravos e fica vincado o desprezo e racismo para os escravos negros.

No Brasil, este olhar sobre a escravidão criou alguma controvérsia. Alguns detratores falaram em vitimização, mas ficamos sempre com a convicção de que o olhar político de Thomas é mais sofisticado que o habitual lado panfletário que estas temáticas remetem. Não é, por exemplo, por acaso que Thomas optou por um preto e branco muito pictórico.

Vazante talvez incomode muitas consciências (e era bom que em Portugal a indignação de quem se sinta ofendido possa gerar debate...), mas é um filme que funciona como um balada. Triste, silenciosa. É só pena que demore tempo a pegar.

Palavra ainda para entrega do ator português Adriano Carvalho, que, com o seu olhar cansado, compõe sem problemas este fazendeiro cruel e sem ponta de humanismo.