Diamantino é parecido com CR7? A culpa é de Carloto Cotta

O filme sobre o qual muitos falaram em espelho corrosivo a Cristiano Ronaldo abriu o Curtas Vila do Conde. Diamantino é uma longa de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt que nos mostra um craque de futebol que não sabe se gosta de meninos ou meninas. Carloto Cotta ganhou o pacote seis de abdominais e falou com o DN.

Rui Pedro Tendinha
"Diamantino".© Direitos reservados

Depois de Cannes e da vitória na Semana da Crítica, Diamantino, comédia lusitana de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, deu o pontapé de saída e de bicicleta do 26.º Curtas Vila do Conde, o mais aclamado dos festivais de cinema em Portugal, uma mistura de curtas, longas e cineconcertos numa cidade que se torna capital do cinema em Portugal.

Diamantino é um delírio único. A história do maior jogador do mundo, Diamantino, que depois de falhar o penálti decisivo no Mundial da Rússia entra numa crise espiritual, vendo-se depois a contas com as alegrias da adoção de um filho adolescente e de um programa experimental do governo português. Mas será este Diamantino uma sátira a Cristiano Ronaldo e ao seu mundo dourado? Seguramente é uma enxurrada de ironia sobre um país chamado Portugal.
Carloto Cotta, ator que é bandeira do sucesso internacional do nosso cinema (foi protagonista nos filmes com mais "internacionalizações" de Miguel Gomes), conta-nos como foi ganhar músculo para este futebolista viciado em carros de luxo, com irmãs "cruéis" e com sotaque das ilhas... Ele que também é a estrela de Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, curta do norte-americano Eugène Green, obra que encerrou hoje as festas em Vila do Conde.

Em Cannes, quando esteve na promoção de Diamantino, por certo sentiu essa adesão fortíssima que há nos festivais pelo cinema português. Existe um movimento do nosso cinema a nível internacional que muitos cá em Portugal não dão conta. A vitória do filme na competição da Semana da Crítica quase não nos deixa espantados...

Isso é espetacular! Sempre que viajo e chego a um festival internacional ou conheço pessoas cinéfilas recebo um feedback muito positivo, fico imensamente orgulhoso. O cinema português está mesmo em alta! Falamos com um francês, um inglês ou um brasileiro e sentimos que eles veem nos nossos cineastas uma certa identidade. Creio que terá que ver com o facto de ser um cinema heterogéneo e lá foram olham para ele como uma força. Eu estive um pouco por dentro do começo dessa vaga, pois fiz o Arena [João Salaviza] e o Tabu [Miguel Gomes] e fica difícil pôr-me de fora para analisar.

Este filme tem um lado de fábula sobre Portugal e os seus caminhos políticos. Crê que pode criar maus fígados por cá? Será que pode ofender alguns portugueses mais sensíveis?

Pois... corre realmente esse risco! Pode haver pessoas capazes de pensar que o filme é um gozo ao nosso país, mas não sei... Estou curioso para ver como os portugueses reagem a Diamantino! Acho que é um filme tonto e satírico, não é maldoso.

A personagem nasce da cabeça dos realizadores mas fica-se com a ideia de que o Carloto também a moldou face ao seu processo...

Foi uma criação bastante livre e descomplexada, sem grandes pretensões técnicas nem nada. Foi uma construção em conjunto com os realizadores e foi acontecendo naturalmente. Tenho uma boa química com o Gabriel Abrantes, já tínhamos trabalhado antes. Trata-se de um génio que me dá imensa liberdade. Isso é muito fixe! Houve muito para explorar e para misturar géneros, do grotesco passando pela comédia física e passando também por overacting.

E melhorou o seu futebol?

Joguei no Belenenses quando era puto mas nunca fui um grande jogador. Como antes jogava sempre no banco, este filme foi uma boa vingança... Mas não fiz nenhum trabalho específico com nenhum treinador. Tive antes uma preparação com o personal trainer para tirar a barriga. O problema é que agora voltei a ter barriga. Dá muito trabalho ter aqueles abdominais. Mas, em relação a futebol, o que posso dizer é que não era um pé de chumbo, mas também não sou um Ronaldo, com muita pena minha. Sempre quis ser um grande jogador...

Mas acha que o Ronaldo pode levar a mal o filme?

Não! Acho que não! A coisa é apenas uma inspiração vaga... Brinca-se sobretudo com o arquétipo do jogador de futebol, da grande estrela e não há uma enfoque numa figura em particular. Eu até optei por um sotaque macarrónico, meio açoriano. Claro que a ideia foi não fugir de alguns clichés.

Pois, mas por vezes olhamos para aquele Diamantino e não pensamos em mais ninguém se não nele...

Pois, às vezes... O Ronaldo é um jogador tão extraordinário e emblemático que em Portugal qualquer coisa que se faça em relação a um jogador de futebol vai dar a ele. Ronaldo é um fenómeno gigantesco! Espero sinceramente que goste do filme, que ache piada. Não é nada pessoal...

Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schimdt, chega às salas na rentrée.