A diva da ópera que não perde um jogo de Cristiano Ronaldo

Agora a húngara Éva Marton tem de passar a ver os jogos da Juventus e deixar de lado o Real Madrid. O que não quer mesmo perder é Cristiano Ronaldo

Ana Sousa Dias
 | foto D.R.
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 | foto Adelino Meireles / Global Imagens

"Não precisa de me explicar nada sobre o Cristiano Ronaldo", interrompe Éva Marton em plena entrevista sobre os tempos áureos em que pisou os grandes palcos da ópera mundial, em que fez 229 vezes a Turandot de Puccini

A conversa, no Hotel Intercontinental de Budapeste, tinha ido parar ao jogador madeirense porque o soprano estava a recordar os dias passados em Portugal, quando cantou Parsifal no Teatro Nacional S. Carlos, em 2001. Falou da sala: "tradicional, muito bonita, gostei muito". Falou dos passeios por Lisboa: "fiquei instalada muito perto do teatro e por isso andei muito a pé e era muito agradável, apesar de haver muitas subidas e descidas". Falou do "elétrico amarelo" e de ter apanhado um táxi cujo motorista "tinha 92 anos, era o mais antigo taxista de Lisboa e o carro dele era dos anos 1930". Enfim, "a cidade para nós era uma espécie de milagre", embora estivesse muito frio.

Para reforçar estas boas memórias Éva, a encenação de Parsifal "era muito interessante, com dois espaços diferentes, e o público acolheu muito bem a produção". O maestro era Gabor Ötvös, húngaro como ela, coisa rara num palco internacional. A Antena 2 não só gravou o espetáculo como lhe enviou a gravação.

"Foi também muito curiosa a impressão que me deixaram os portugueses. Quando o público ouvia algo de belo que lhe agradava, entusiasmava-se. Mas na rua as pessoas tinham um ar mais pesado, triste, como os húngaros." E aí é que se chegou ao futebol: "Penso que o povo deve ter uma vida muito dura e austera, num bom sentido, um povo que viveu muitas coisas, que se bateu de pé, como Cristiano Ronaldo e Figo".

Ele é um grande futebolista porque trabalha muito, não é só porque tem muito talento, comentei, estabelecendo um paralelo com o intenso treino de uma cantora lírica, Éva ri-se com gosto: "Eu sei, não precisa de me explica nada porque vejo todos os jogos dele. Tive muita pena que tivesse deixado o Manchester United para ir para o Real Madrid. Sou uma grande fã de Ronaldo." E o marido Zoltán, sentado ao lado dela, confirma. Ele próprio, cirurgião e agente de Éva, jogou futebol até aos 57 anos. "Somos ambos grandes desportistas".

A cantora fez parte da seleção húngara de voleibol e explica que o rigor e a disciplina do desporto foram um bom suporte na carreira musical. Aos 14 anos, perdeu a voz e ficou muito deprimida: "Tive muita sorte porque as jogadoras da equipa, muito inteligentes, ajudaram-me muito nesse período difícil. Além disso, viajávamos muito e isso deu-me boas oportunidades. Aconselho todos os pais a pôr os filhos a fazer desporto e a estudar música."

No caso da cantora lírica, hoje com 75 anos, não foram os pais que a levaram para a música, foi ela que o pediu quando tinha sete anos. Começou por aprender piano e a professora reparou na voz da pequena Éva e encaminhou-a para a escola de música do bairro. Depois de muitos anos e muito trabalho, formou-se com cantora lírica e professora de canto na Academia Lizt. Mais anos e mais trabalho, um filho e uma filha nascidos entretanto, e era consagrada como uma das maiores cantoras líricas do mundo.

Tinha tudo em quadruplicado, nesse tempo, porque se dividia por quatro casas: em Budapeste, em Hamburgo, em Montecarlo e em Nova Iorque. O marido trabalhava intensamente no hospital para poder somar dias de folga e estar presente, com os filhos, em todas as estreias. Não havia tempo para férias, ela trabalhava constantemente. "Não faz ideia da quantidade de energia que eu tenho".

O papel de Princesa de Turandot foi quase uma herança da amiga mais velha, a sueca Birgit Nilsson [1918-2005]: "Num ensaio no Metropolitan de Nova Iorque, de A mulher Sem Sombra de Richard Strauss e disse-me que eu ia ser a maior Turandot." Por coincidência, a Ópera de Viena procurava uma voz para esse papel e Zoltán tinha proposto o seu nome ao maestro Lorin Maazel [1930-2014]." Estava-se em 1983 e foi a primeira das 229 vezes que interpretou o papel.

"Não tive dificuldade em aprendê-lo, era um papel para mim, era uma segunda pele. Fiz o primeiro grande ensaio com piano e quando terminou o ensaio, com José Carreras Katia Ricciarelli, Maazel fechou a partitura e disse: vamos para a igreja rezar para que ela chegue à estreia com saúde."

Entre as muitas óperas que interpretou conta-se muito Wagner, muito Strauss, muito Puccini. Dona de uma voz dramática, expressiva, recebeu os maiores prémios pelo mundo fora. O que importa, diz, é ter boa técnica, conhecer bem o estilo do que se canta, saber respirar. "É preciso mover essa grande quantidade de ar, em pequeníssimos movimentos que movem o diafragma. É preciso controlar o corpo, todos os músculos. Depois de muito treino, essa técnica torna-se automático. Quando cantamos, o corpo todo funciona como um instrumento musical." O palco era a casa dela, "a liberdade total, ali ninguém me podia dizer nada".

E porque a energia não deixava de inquietá-la, entregou-se à Academia Lizt quando deixou os palcos, em 2008, ainda com uma incursão no papel de Clitemnestra na Elektra, de Strauss, em Genebra, em 2010. "Regressei à Hungria porque queria transmitir tudo o que aprendi ao longo da carreira".

Em vez de quatro casas, agora tem uma bem grande na capital húngara, onde mora com os filhos e os quatro netos. "Vejo muitas produções de ópera porque sou consultora da direção da ópera nacional de Budapeste e sinto que os encenadores agora gostam de resolver os seus traumas de infância no palco e isso cansa-me".

Além de toda esta atividade, faz parte de um conselho consultivo de sábios que se reúne com o presidente e o primeiro-ministro. "Sou a vice-presidente desse comité e a única mulher, com 13 homens cientistas, académicos, até um padre".

Dirige o departamento de Canto e dá aulas a seis alunos na Academia Lizt, mas ainda tem tempo para organizar um prémio com o seu nome destinado aos jovens. "E assim se completa um círculo: comecei na Academia e esta instituição para mim foi sempre muito importante, desde logo pelo nome do compositor que sempre trabalhou para a comunidade, ajudou os pobres, fundou a universidade. Como ele dizia, Deus deu-nos um talento que é ao mesmo tempo uma grande responsabilidade. Encontrar um novo talento, um jovem promissor, é "magnífico, é isso que esperamos".

"Na minha turma nem todos os alunos têm o maior talento e há quem não entenda por que é que os outros estão lá. Mas para os grandes talentos se desenvolverem é preciso uma comunidade, todos beneficiam disso. A formação é também um trabalho psicológico, não é apenas ensinar a técnica, é preciso tratar o lado humano. Muita coisa depende do estado de alma, do caso social, de um todo. É preciso esperar com muita paciência quando um aluno não consegue deixar a sua pele, esperar o momento em que ele compreende. Não faço milagres, o milagre tem de ser feito por eles, têm de envolver nisso tudo o que têm. É sempre um milagre alguém cantar bem ou tocar bem um instrumento. Mas temos de admitir que o instrumento mais difícil é o corpo humano. Somos instrumentos musicais que andam."