A arte de usar as fotografias e os azulejos de ninguém

Rita João e Pedro Ferreira, que formam o Estúdio Pedrita, partiram de uma fotografia encontrada ao acaso na rua, com a inscrição "meu avô" nas costas, para a exposição Lost and Found

Mariana Pereira
Lost and Found o Estúdio Pedrita, Pedro Ferreira e Rita João | foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens
Lost and Found o Estúdio Pedrita, Pedro Ferreira e Rita João | foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens
Lost and Found o Estúdio Pedrita, Pedro Ferreira e Rita João | foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens
Lost and Found o Estúdio Pedrita, Pedro Ferreira e Rita João | foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens
Lost and Found o Estúdio Pedrita, Pedro Ferreira e Rita João | foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Está dentro de uma pequena capa de plástico, à frente das outras. É uma fotografia a preto-e-branco rasgada que mostra o rosto de um homem bem arranjado, com uma expressão algo solene, difícil de descrever. Nas costas, com uma letra bem desenhada, está escrito: "meu avô".

Rita João, quem mostra a fotografia, e Pedro Ferreira encontraram-na na rua, depois de saírem do escritório onde trabalham enquanto dupla de design: o Estúdio Pedrita, fundado em 2005, depois de os dois terem estudado juntos e trabalhado na Fabrica, da Benetton, em Itália. "Até comentei com o Pedro: "Vamos juntar às outras." Porque já tínhamos outras fotografias encontradas assim em circunstâncias estranhas. E depois ficámos a pensar: "Então e se fosse isto? Se fosse este o tema da exposição?" É uma fotografia antiga. Naquela altura não devia haver muitas fotos..." Pedro entra na conversa: "E é um bocado violento, não é? Porque é o "meu avô" e deitaram [a fotografia] fora."

Falamos por detrás do espaço da galeria Underdogs onde ainda está a ser montada a exposição Lost and Found, a segunda da dupla naquele espaço dirigido por Pauline Foessel e Alexandre Farto (Vhils), e que ontem abriu ao público. Em cima da mesa à volta da qual nos sentamos há dezenas de fotografias caseiras, com bebés, miúdas vestidas de bailarinas no corredor, viagens, aqui e ali um retrato de grupo com uma paisagem atrás - Rita diz ter descoberto neste processo que as fotografias que envolvem fardas são sempre mais caras.

Foi a partir de imagens como estas que os Pedrita começaram as obras que agora surgem penduradas na parede. Imagens daquelas que hoje se encontram para venda em caixas na Feira da Ladra e afins, e que na altura em que foram tiradas e reveladas teriam um qualquer significado na vida de alguém. Mas as pistas para esse lugar e para esse momento são escassas. Nas costas de algumas fotografias decorre uma briga familiar. Noutras uma madrinha faz um gesto simbólico, oferecendo-as.

Como se dizia: as pistas são poucas. Tal como acontece na matéria que os Pedrita usam para as suas obras: os azulejos reunidos pelo avô de Pedro, Joaquim Cortiço, que há mais de três décadas começou a adquirir azulejo industrial, comprando os restos do fim de linha das fábricas (que os identificam sempre nas costas), e fazendo disso o seu negócio. Até hoje existe a Cortiço & Netos.

Lá está, pendurado logo à entrada da Underdogs, o "meu avô". O seu rosto é agora construído por azulejos que ora mostram parte do que parece ser um girassol e de outras flores, ora parte daquilo que parece ser um homem em traje ribatejano; mas também há azulejos banais, coloridos apenas, e outros com formas que o nosso olhar conhece de casa.

"Algumas destas fotos têm composições bonitas, enquadramentos bonitos. Achámos que havia aqui uma parecença entre as duas coisas: a fonte e o material que usávamos", afirma Rita. "E parecenças também na consideração [exterior que ambos têm]", completa Pedro.

Da mesma pequena capa de plástico em que estava a fotografia com a inscrição "meu avô", Rita tira também um slide com alguns camelos. E lá estão eles, na parede em frente, formados por azulejos vários. Noutro, duas mulheres passeiam por Tunes, Tunísia. Rita e João encontraram um grande saco cheio de slides junto ao lixo. "Antes de pensarmos que podia ser usada como tema para a exposição já tínhamos passado serões a ver slides, a tentar ver o que era aquilo. Tinha fotografias de todas as partes do mundo, praticamente, foi uma pessoa que viajou por todo o lado. Devia ser um missionário."

O processo de construção das obras é semelhante àquele que foi usado na anterior exposição. Há uma espécie de alfabeto, uma base de dados composta por cerca de 900 azulejos (há sempre alguns a acabar e outros a entrar, vindos de paletes ainda por abrir). A fotografia analógica é digitalizada, e a cada pixel passam a corresponder azulejos. Num software próprio, os Pedrita lançam a imagem que querem usar, e este apresenta-lhes várias guias, repetindo 50 vezes as peças de azulejo que reconstroem a imagem, ou apenas duas vezes. Rita continua a explicar: "Essa [última] é uma confusão total, e às vezes não dá para ler a imagem. Depois à mão e a olho conseguimos fazer correções e ajustes de maneira a conseguir uma imagem possível. Usamos uma [máquina fotográfica] go pro, que está pendurada no teto da oficina."

Quanto ao critério de seleção das fotografias (Pedro adivinha a pergunta antes dela chegar): "Não tem a ver com nada em especial. Partimos do princípio de que as fotos são todas especiais, à sua maneira. A seleção não está aí. Está no sujeito que conseguimos isolar e representar com esta técnica quando olhamos para fotografia. [O critério] é estético e técnico, porque a foto é sempre boa: tem esta história incrível, como os azulejos, ninguém os quer."