Almoço com Luís Represas: "Na exportação, a cultura devia funcionar como a cenoura da economia"

Acabado de lançar Boa Hora, Luís Represas fala da aventura de juntar velhos amigos e novas gerações à roda do mesmo projeto, das dificuldades do negócio e dos desafios que a indústria vive nos tempos do digital.

O encontro estava combinado para Galamares, Sintra, no restaurante Adega do Cozinheiro. É daqueles sítios só para quem conhece, quase sem publicidade na estrada principal, que liga Sintra a Colares. Esperei uns minutos por Luís Represas, à porta do restaurante, numa rua sem saída, que desce para a ribeira de Colares. Era um daqueles dias ao contrário, com uma insuspeita chuva miúda de julho em Lisboa e um céu relativamente aberto sobre a serra de Sintra.

A entrada na Adega do Cozinheiro, já com Luís Represas, parecia um regresso a casa, a uma casa de família. "Seja bem aparecido!", soltou Sónia, uma das responsáveis pelo espaço, a meias com o irmão Bruno e a mãe Fernanda. Um beijo aqui, um abraço mais adiante. Há uns tempos que Luís não aparecia por ali, estava visto.

"Isto era e é um restaurante de família", conta Luís enquanto nos sentamos à mesa. A sala tem o chão numa calçada portuguesa meio improvisada, com marcas do tempo e a decoração é rústica - ferramentas de quem trabalha a terra, sinais de que por ali já se cantou o fado, com guitarras e xailes no recanto onde nos instalámos, numa mesa redonda.

Bruno deixa na mesa um prato com melão e umas fatias de presunto, e abre a garrafa que estava à nossa espera. Uma escolha que não mereceu contestação: Tiago Cabaço, Vinhas Velhas, 2013. Luís conta a história do cozinheiro: "O Fonseca era homem fantástico, um cozinheiro de mão-cheia e, além de ter um sentido de humor fabuloso - nunca o vi maldisposto, tinha sempre um sorriso -, era também uma figura muito respeitada aqui na freguesia, sempre muito tranquilo... tinha uma personalidade muito rica. Era uma figura."

A história deu uma volta trágica há uma década. "Extemporaneamente, há dez anos, o Fonseca morre quase sem aviso. Foi um choque grande para a família, mas os miúdos cresceram perante a adversidade e tomaram conta do restaurante. Atravessaram as crises, o mau tempo económico, e aqui estão." Luís Represas fala da Adega do Cozinheiro como um porto de abrigo, a um passo de casa. "Quando estou a gravar vimos todos comer aqui, quando preciso de comer e não tenho tempo de cozinhar ou se os meus filhos estão em casa e precisam de almoço ou jantar, a Fernanda leva lá a comida para 'os meninos dela'. Isto está a uns cem metros da minha casa. É como se tivessem aqui a casa da avó."

Desde os tempos do Fonseca que quase tudo se mantém. "Isto por dentro não mudou nada. Tem o empedrado, a calçada portuguesa, o mapa antigo da escola e estas prateleiras... é uma garrafeira com coisas escondidas para aí. O Bruno nem sabe bem o que tem aqui, deve haver para aí coisas espantosas." Luís já criou uma legião de fãs, do restaurante. "Tenho malta estrangeira que vem cá gravar comigo que a primeira coisa que pergunta é: 'Como está o cozinheiro?'"

Estávamos nesta conversa, com Luís a dizer que por ali se comia um belo bacalhau no forno, quando chega à mesa uma alheira. "Só para provarem", diz o Bruno. Sim, só para provar... uma garfada de cada vez até que não sobrou mais. Tinha pedido a Luís Represas que escolhesse um restaurante ao qual tivesse uma ligação. Cumpriu e desconfiei disso antes mesmo de entrarmos. Da lista, à porta, consta um prato pouco habitual por aqueles lados: frango à cubano. Mais adiante Luís conta a história dessa "influência direta na lista": "Vinha cá muito com os cubanos e eles começaram a fazer uma coisa que aprenderam com o Miguel Nuñes [pianista], o frango cubano." Mas que raio é o frango à cubano, pergunto. "O frango à cubano é frango no forno, temperado com sumo de laranja e limão, e com muita cebola e outros temperos. Foi aprovado por eles e ficou na lista até hoje [risos]."

Por esta altura já tínhamos decidido o que íamos almoçar: bacalhau à Gomes de Sá primeiro e depois cabrito assado no forno. Luís conta que se tiver companhia é capaz de fazer centenas de quilómetros para ir a um restaurante. "Durante muito tempo, ainda antes de haver autoestrada, tinha um grupo de amigos que ia uma vez por mês jantar ao Fialho a Évora. O que significava uma hora e meia ou uma hora e quarenta e cinco de caminho para lá e para cá." O regresso era complicado, adivinho. "Não havia balão na altura [risos] e havia sempre um que bebia menos para trazer o carro, mas, sim, era sempre um regresso complicado."

E em noites de espetáculo? O jantar acontece sempre antes, conta: "Não consigo tocar com fome, com essa sensação desconfortável de me faltar qualquer coisa." "É um hábito que ganhei, jantar antes dos concertos. Enquanto o médico não me proibir de fazer isso... É que dificilmente consigo comer depois de tocar, não só por causa da hora, mas também porque é a mesma coisa do que saíres do ginásio e ires diretamente para a mesa. Não funciona." É uma questão de gestão de stress. "Acabas o espetáculo, estás carregado de adrenalina e o que queres é baixar os níveis, beber um copo com os amigos, tudo menos sentares-te à mesa de um restaurante e 'embora lá jantar'. Tudo menos isso."

Luís Represas partilha um lamento dos anos de estrada com os Trovante. "Temos pena de não ter feito um roteiro gastronómico dos 'nossos' restaurantes, dos sítios por onde passámos nos 16 anos de estrada que tivemos enquanto Trovante." Agora já será tarde, até porque não guardou muito na memória. "É engraçado como, ao longo dos anos, tu te esqueceste, mas as pessoas lembram-se de que lá passaste. 'Você esteve aqui em 1980 e não sei quê" [risos]. É curioso. Quem anda comigo, o meu condutor ou o road manager, lembra-se perfeitamente, mas eu não me lembro de nada. Esta história de ser transportado... não fixas o caminho nem ganhas raízes."

Um nervoso miudinho que dura há 40 anos de estrada

Será que é uma questão de concentração, de foco? A proximidade dos concertos apaga memórias escusadas? Não. É mais uma questão de arrumos interiores. "A minha cabeça é muito esquisita porque perde-se muito em muitas coisas. As muitas gavetas que tenho por ser homem e não aquela gaveta única que as mulheres têm e que é ótimo... essas gavetas estão sempre a funcionar, incluindo aquela gaveta que não tem nada. É uma gaveta que eu prezo muito, que todos nós temos e que provoca sempre aquela resposta muito irritante quando elas perguntam 'em que é que estás a pensar?' e nós respondemos 'em nada...' Se pensares bem, eu nunca vi uma mulher à pesca. É um daqueles momentos que é uma âncora em que podes valer-te do nada."

Esse focar do concerto, revela, "existe mais no momento antes de sair de casa. Mal saio de casa e entro no carro, desaparece e descontraio. Depende sempre do nível de exigência, se tem artistas convidados, se é com outros músicos ou com uma orquestra. Todos esses componentes, consigo trabalhá-los ainda em casa, uns dias antes". Luís relembra um conselho do pai, um conselho que ficou. "É um pouco aquele conselho dos nossos pais, que os mais calões de nós, em que me incluo, ouviam quando achávamos que íamos estudar tudo na véspera do exame. O meu pai dizia: "Não vale a pena, esquece, estás a fazer pior. Estás a entrar numa angústia. Descontrai, hoje vai à tua vida, vai beber um copo, vai fazer qualquer coisa menos estudar." É um bocado isso, foi algo que me ficou, essa máxima."

E aquele nervoso miudinho, aquele formigueiro antes dos concertos? Luís Represas garante que os mais de 40 anos de palco não apagam essa sensação. "Sim, sinto e não quero deixar de sentir. Estou a dizer isto e estou a arrepiar-me. Não quero mesmo deixar de sentir isso. Se há momentos em que não o sinto é porque algo está errado. Ou o sítio onde vou tocar não me diz muito, ou porque a situação... mas, é raríssimo. Sentir isso é fundamental, é uma forma de me pôr a postos para o que vai acontecer."

Perdemo-nos na conversa e mal demos pela chegada do bacalhau à Gomes de Sá. É um prato arriscado, tinha pensado quando alinhei na escolha. É daqueles que, das duas uma, ou é melhor do que o que a mãe e a avó faziam lá em casa ou acaba em grande desilusão. Pois este, na Adega do Cozinheiro, ficou francamente bem na comparação com as minhas memórias. Mais ou menos a meio do bacalhau quero saber se, em mais de 40 anos de carreira, alguma vez tocou por obrigação, sem chama. "Não, só esse sentido de obrigação, não. Mas já me aconteceu dizer 'não me apetece nada fazer isto'. Todos temos dias... ou por questões pessoais, sei lá, há aqueles dias em que não apetece mesmo. Somos humanos. As pessoas às vezes encaram-nos, vistos da plateia, como sendo não humanos." "Nesses dias acontece uma coisa, a partir do momento em que piso o palco, tudo isso desaparece e muitas vezes acaba por ser um concerto em que acabo a pensar 'ainda bem que o fiz"' porque não só correu lindamente como fiquei melhor." Um concerto, uma plateia, é das melhores terapias, pergunto. "É completamente terapêutico. O lado com que consegues, em primeiro lugar e entre aspas transmitir, ao público aquilo que estás a sentir. Se não te estás a divertir, o público percebe isso, percebe tudo. Não há volta a dar, pelo menos comigo... e percebes também em cima do palco pela reação do público, nem que essa reação seja o silêncio."

O silêncio, esse luxo. "Para mim, o silêncio num concerto continua a ser das coisas mais fantásticas. Conseguires cantar em silêncio, com público atento a ouvir-te... A malta costuma dizer 'o concerto foi fantástico porque o público cantou as canções todas do princípio ao fim'. Epá, espera aí... Sim, mas em alguns momentos. Muitas vezes agradeço ao público esse silêncio porque é a forma mais completa de absorverem aquilo que eu estou a fazer." E depois há os aplausos fora do tempo. "Há uma moda nova hoje que é terrível, que é o aplaudirem no meio da música... e tu ficas assim... mas isto ainda não acabou. É muito desconcentrante." E os telemóveis a gravar cada canção, cada minuto? "Nem sequer me preocupo. Não me chateio porque isso quereria dizer que chateando-me poderia mudar alguma coisa. Como é uma coisa cada vez mais instituída, como as pessoas andam na rua a olhar para o telemóvel, como vão fazer turismo a tirar selfies e a tirar fotografias... essa ilusão de se ver o mundo através do telemóvel... só posso mesmo lamentar. Porque é que tenho um palco enorme à minha frente e prefiro ver tudo num quadradinho?"

Chega o cabrito assado no forno. Uma provocação. Ainda tentámos demover Bruno, assumimos a derrota depois do melão, do presunto, da alheira e do bacalhau, mas ele voltou a dizer: "É só para provarem..." Acabou por ser um pouco mais do que isso. A conversa continuava à roda das novas modas e dos telemóveis. "A forma como as pessoas vão a um espetáculo mudou completamente. Não estou a dizer que é mais ou menos displicente, mas mudou muito... O telemóvel não só piora a memória como vai coartar toda a retenção do ponto de vista emocional. Dificilmente alguém se arrepia ou se emociona a olhar para o ecrã de um telefone."

Um disco de encontros e reencontros

Luís Represas lançou no final de junho um novo disco. Boa Hora tem como convidados - na voz e na partilha de letras e músicas - Carlos do Carmo, Ivan Lins, Mia Rose, Jorge Palma, Paulo Gonzo e Stewart Sukuma. As maiores surpresas surgem do lado da produção, com nomes como Fred Ferreira, dos Orelha Negra ou o velho companheiro dos tempos do Trovante, Manuel Faria e o filho deste, Francisco Faria. É um disco de parcerias, de cumplicidades reencontradas e recém-nascidas, como o trabalho com Jorge Cruz, também dos Diabo na Cruz, que foi um dos catalisadores para o resto do disco.

São demasiadas gerações num disco só? Houve algures uma batalha contra preconceitos, pergunto. "A prova de que não existe um preconceito é que não foi preciso lutar contra ele ou ter isso como génese da obra. Tudo aconteceu de forma perfeitamente natural e começa quando fui buscar o Fred para produtor do disco, o que nasceu depois de uma conversa com o Kalu, que é o pai do Fred. Porquê? Porque eu estava afastado do Fred. Esse tal preconceito, que crias dentro de ti próprio... fui falar com o Kalu e perguntei-lhe o que achava. Disse logo: 'O miúdo ia adorar, fala com ele!'"

Outra conversa essencial aconteceu com Jorge Cruz, numa altura em que "tinha a folha em branco". "Fui ter com ele, para o desafiar a escrever qualquer coisa para mim, para ter outra... literatura nas canções. Acabou por ser muito mais do que isso. Acabámos por conversar um dia inteiro e acabei por perceber que ele estava muito, muito bem informado a meu respeito, e tudo o que ele disse e tudo o que ele falou fez-me imenso sentido." "Isso acabou por ser um desbloqueador para mim. Logo nesse dia começámos a trabalhar numa música a meias - Boa Hora - e ele depois escreveu a letra dessa música. É muito engraçado como estas coisas funcionam dentro da nossa cabeça, nas nossas químicas internas, porque comecei a escrever compulsivamente. E no meio dessa escrita compulsiva, escrevo uma canção chamada No Colo do Vento em que sinto claramente que é o Carlos [do Carmo] que está a cantar comigo. Depois da canção estar feita disse assim: 'Será que é desta, ao fim de 40 anos de amizade, que vamos cantar juntos?'"

Os parceiros foram acontecendo como quem se junta a um grupo de velhos amigos. Luís conta, por exemplo, que "quando estava a gravar Na Curva do Horizonte , o Manuel Faria tinha chamado a si a produção dessa música e disse: 'Faz-me falta aqui uma voz feminina, falta aqui a fragilidade e a delicadeza', e nessa conversa chegámos à Mia Rose". "Depois, o Jorge Palma e o Paulo Gonzo, oldtimers da minha geração, aparecem aqui não propriamente como um dueto... somos três, mas mais do que cantores são protagonistas de um filme. Vocês são os tipos que estão na beira da estrada e começam a falar comigo - foi o que lhes disse -, eu vou a passar de carro não sei para onde é que vou e vocês começam a contar-me uma história, que está no imaginário, uma história que já aconteceu há muitos anos, e que aconteceu de facto, porque a 125 Azul foi feita há 21 anos. Era uma lenda e assim se construiu uma lenda, o Cinema Estrada ".

A parceria com Ivan Lins em Asas de Anjo aconteceu como quem cumpre a palavra dada já quase fora do tempo. O compositor, cantor e pianista brasileiro enviou um e-mail a anunciar que "ia cumprir uma promessa secular". Os dois conhecem-se desde os anos 1980 e há muito que este encontro andava adiado. Ivan Lins enviou uma música incompleta, com a mensagem "acabe a música e, já agora, faça uma letra". Assim foi, num encontro que Luís Represas vê como uma prova de grande confiança.

Boa Hora nasceu com uma experiência que é agora moda, há mais de um ano. Uma música - Se Achas Que Sim - lançada de forma isolada e ainda sem o tempero africano que teria no disco. Já iremos a essa experiência do ponto de vista racional, do negócio. Antes, a história de uma canção que só ficou inteira depois de um telefonema para Moçambique. "É nessa música, que lancei em 2017 e em que sempre senti que faltava ali qualquer coisa, que entra o Stewart Sukuma. Só percebi o que faltava no final do disco. Liguei para Stewart Sukuma, porque todo o imaginário daquela música leva para aí, para África. Precisava de algo legítimo, que não soasse a artificial, e o Stewart tem essa legitimidade. Mais. Ele vem de um universo que, infelizmente, é dos mais desconhecidos para nós, que é Moçambique." "Liguei-lhe e disse: 'Acho que és tu que faltas a esta música', e ele gravou-me uma versão, toda muito bem cantadinha, e eu disse-lhe: ' Ó Stuart, não é nada disso que eu quero. Quero que ponhas a mão na massa e que trates a música como se fosse tua. Gostava que fizesses aqui uma componente de uma língua nacional, o changana, e ele fez coros, fez tudo e a música deu uma volta. Naquele momento, cumpriu-se aquela música.'"

Este disco marca o reencontro com Manuel Faria, ex-Trovante. Luís fala da confiança com que entrou com ele em estúdio. "O Manuel conhece-me como ninguém enquanto cantor. A minha voz... ele sempre esteve do outro lado da cabina. E estamos mais velhos - ele também está mais velho, não ficou mais novo... Ou seja, as aptidões que ele tem acompanharam também a minha evolução. Ele estar do outro lado da cabina não só é desafiante, porque estamos outra vez na mesma situação depois de 25 anos, como é também uma sensação de confiança no que se está a passar no outro lado. Sei que ele não vai deixar passar nada em vão, mas também sei que se disser que 'isto é para ficar', ele diz logo 'OK, isto é para ficar'. Por outro lado, sei que ele é capaz de dizer: 'Eh pá, vamos acabar com isto, que tu hoje não estás em condições', ou porque psicologicamente estou em baixo, o que quer que seja... e isso aconteceu. Teres essa confiança... foi fundamental."

Ainda à roda do cabrito assado no forno, que íamos petiscando lentamente, Luís fala de um outro produtor, Francisco Faria. Entrou sem cerimónias, como deve de ser. "Não fui eu que o fui buscar. Ele é que disse 'este tema é meu, quero fazer isto'. O Francisco é filho do Manuel, é meu afilhado, conheço-o desde que nasceu e é muito engraçado, alguém que conheces desde sempre, conhecê-lo de novo, como produto, extremamente exigente, no melhor dos sentidos, extremamente obsessivo."

Voltamos à conversa dos preconceitos, do encontro de gerações. "O Fred dos Orelha Negra... Quando estávamos a falar de preconceitos é isso. Gerações tão distantes e universos musicais tão distantes... as pessoas comentavam: 'Eh pá, o Fred?! Sim, fez a produção do disco da Mafalda, mas... O Luís estará preparado?' Mentira, mentira... quando começámos a trabalhar e começámos a falar, chegámos à conclusão de que estávamos todos com o mesmo capital de cagaço. Tínhamos estado todos, até aí, com o mesmo medo: 'O Luís é de uma geração que não tem nada a ver com a nossa' ou eu a achar que 'eles não têm nada a ver comigo, mas que disparate é este...' Não partimos para isto com preconceito, mas com esse capital de cagaço. Será que vai dar?" E deu.

Isto ainda é um negócio?

Desde 2008 que Luís Represas trabalha sem editora, mas desta vez chamou a si todos os passos de um disco, tudo menos a distribuição. "Atualmente, ou estás nessa de estar nas mãos de uma editora ou tens de correr sozinho. Tens de ter capacidade de investimento, e a Sociedade Portuguesa de Autores, de facto, aí tem tido um trabalho importantíssimo com o fundo cultural, que deverá servir para isso mesmo. É de louvar..."

Montar toda a estrutura, para um músico a solo não é fácil. "Tens de te rodear de outro tipo de valências. Assessoria de comunicação, o management e o booking - a marcação de concertos - têm de ser cada vez mais profissionalizados, porque há cada vez menos profissionalizados. Tens de ter, em termos de imagem, a coisa mais cuidada. Tens de ter alguém... sempre senti falta disso. Se estás a fazer uma sessão de fotografias, quem está a dizer "mais para a esquerda" ou "essa roupa não" ou "tira o cabelo da cara", não pode ser o meu manager ou o meu booking, que não percebem a ponta de um corno disso... tem de ser alguém que perceba o que está a fazer". O problema passa pela dimensão do mercado num país onde não existe indústria. "Existe um sacrifício enorme de quem está a investir no produto - é uma chatice chamar "produto" a isto, mas tem de ser - e quem está a investir mais diretamente é o artista e o manager. São eles que, depois, mais têm a ganhar com o income do produto. Só que não é fácil reunir capacidade financeira para investires no produto cultural. Embora haja patrocínios ou mecenato, as empresas ainda olham para isso com muita desconfiança."

Bruno aproxima-se da mesa e pergunta: "Sobremesas?" Já só conseguimos sorrir e dizer que não, que venham dois descafeinados. Falamos da presença no digital, na inevitabilidade de oferecer o que se produz em diversas plataformas. Luís Represas tem uma opinião firme sobre o tema: "As editoras estão muito cegas em relação ao digital. Estão tão aflitas que... não há nada pior do que estares à rasca. Leva-te a cometer erros por urgência." Há pontos de contacto com o que se passa na imprensa, e a conversa perde-se por aí, pela qualidade de decisões tomadas sob a pressão da sobrevivência.

Luís Represas lembra a tal música que lançou há mais de um ano, uma canção de um disco que ainda não existia. Alguém o convenceu de que agora era assim que se fazia. "Diziam-me que a malta agora lança um single e depois não sei o quê... E eu perguntei: 'Esperem lá, mas onde é que está o racional económico disso?' Para gravar uma música tenho de arregimentar recursos que, praticamente, dão para gravar meio disco. Argumentaram que 'agora é assim, usa-se assim'. Das duas uma, ou estás num país onde há indústria a sério, ou num país como Portugal nada disto faz grande sentido, estás a gastar recursos. Aquela música custou-me quase tanto como o resto do disco, e fez-se: 'Embora lá ver se isto dá resultado...' O que é que aconteceu? Chegávamos com a música aos meios de comunicação e diziam todos o mesmo: 'A música é porreira, mas quando é que sai o disco?' A música chegou a passar, mas nunca com a intensidade que teria se tivesse um trabalho completo por detrás. Podia ter poupado algum, não?" A conclusão é óbvia. "Não faz sentido, não voltarei a repetir a fórmula, a não ser que tenha o disco todo gravado..."

Esta e outras experiencias levam-no a uma lição. "Uma coisa que aprendi com este disco foi a respirar fundo, a parar e respirar fundo. É preciso investires agora, voltares à história de investir naquele sentido de "não vou desesperar". Não é o "ficar quietinho à espera de melhores dias", mas tomar decisões com mais calma, com mais ponderação, com mais conhecimento de causa".

Depois há a questão do desfasamento entre o esforço de marketing das editoras e os diferentes públicos. Luís acha que há largas faixas que estão a ser ignoradas pelas editoras, sobretudo consumidores acima dos 30/35 anos. A prova são as vendas de alguns artistas mais... populares. "Como é que há para aí gajos que vendem discos, muitos e muitos discos? Há quem os queira comprar... falta mesmo perceber que há um target que está a ser esquecido. E eles vendem discos, mas não passam na rádio, nas rádios nacionais de referência, não passam... e vendem discos. Vendem 30 vezes mais do que eu e aquelas senhoras não estão no Spotify ou a descarregar MP3. Alguém já analisou isto? Atenção, não estamos a falar do conteúdo, mas do objeto, do meio." Luís sugere um esforço de comunicação: "Onde é que está a campanha 'Compre um CD, vale a pena'? Não é pôr uma miúda de calções aos berros num festival a defender a compra de CD, é falar para um público mais velho..."

A conversa demorou-se neste ponto, do digital. Como é que se monetiza música distribuída gratuitamente num mercado como o português, com a dimensão que tem? "É muito engraçado... Ao mesmo tempo que dizemos "a malta já não compra música", diz-se "o vinil está a ressurgir". Sim, existe o Spotify e essas coisas, a malta diz 'Porreiro! A minha música está no Spotify!' Já fui... É bom que esteja, mas já fui... O digital continua a ser muito mal pago. Ou tens grandes volumes ou não conta." Até aqui os custos são a somar para quem quer colocar um disco, um produto no mercado. "Há mais os youtubes e tal... para lá daquelas pessoas de que falávamos há pouco, ainda tens de ter especialistas para tratar das redes sociais, porque senão dançaste. Os encargos estão sempre a aumentar. Quando pensavas que ias ter uma velhice tranquila, com os filhos fora de casa, não. Os filhos estão a chegar com as mulheres e com os sogros, está sempre a aumentar [risos]."

E um balanço desta aventura de "produzir" um disco de fio a pavio? "Em 40 e tal anos é a primeira vez que estou a trabalhar assim. Já trabalhei fora de editoras, mas montar uma máquina própria é a primeira vez. Era a única forma. Ainda não consigo fazer um balanço completo, mas sinto que está a resultar, sinto que está a ser interessante a experiência."

A cultura como cenoura da economia

As Vinhas Velhas de Tiago Cabaço davam as últimas gotas quando a conversa foi parar ao papel do Estado na divulgação e no apoio à música, à cultura. Luís não quer ver o Estado a assumir um papel decisivo, mas deixa um lamento. "Não há uma cultura de mecenato em Portugal e creio que muito por desconhecimento e muito por desincentivo. Há aqui uma tarefa que devia ser exercida, com mais assertividade, por parte do Ministério da Cultura e também do Ministério da Economia - se é que é isso que pretendem -, de provocar e incentivar as empresas, tendo em conta que podem conseguir benefícios fiscais a apoiar a cultura."

Talvez fosse uma forma de "salvar um bocadinho isto", mas com controlo apertado. "Tem de haver um controlo, como é óbvio. Em Portugal, muitas vezes não se avança com medidas porque há medo de não as poder controlar. Isso é um princípio errado: 'Como já sei que vou ser enganado, não vou fazer.'" Luís vê o mecenato como uma arma na afirmação externa do país. "É fundamental essa cultura do mecenato, sobretudo para a exportação da nossa cultura a par da exportação da nossa economia. Continuo a pensar que a cultura pode funcionar como a cenoura da economia, da identidade nacional."

O mercado brasileiro e as dificuldades de afirmação de artistas portugueses no Brasil é um exemplo, afirma Luís Represas. "Não conseguimos entrar em mercados como o brasileiro - e até tem havido algumas exceções em nichos - porque não tem existido um esforço concertado. Não estou a falar de uma política cultural ou a dizer que o Estado tem de entrar nisto, mas o Estado tem de perceber qu, se está a fazer esse esforço através da AICEP e dos embaixadores económicos, etc., tem de perceber que atrás disso e nessa missão a cultura tem um papel fundamental." "A primeira coisa que mostras é a identidade do país. 'Portugal? Mas quem são os portugueses? Quem são estes gajos que aqui estão a tentar exportar produtos?' Pode ir a música, o teatro, o cinema, que depois, atrás disso, vem tudo o resto... vem o vinho, a indústria, tudo o resto. A cultura facilita, é o óleo que lubrifica uma engrenagem que pode estar emperrada, que está difícil."

Num mercado que é um continente, "terá de haver um esforço de mecenato, sobretudo das empresas que já estão lá instaladas, mas não pode ser aquela velha história de 'agora, vamos fazer uma embaixada' e vão 400 artistas... Isso nunca funcionou. O que funciona é subvencionar carreiras. Saber que há um projeto a não sei quantos anos, o que se pretende fazer e a empresa decidir que vai apoiar isso. Acho que num país com falta de massa anímica e sem recursos, a única forma de funcionar é esta. É fazer muito com pouco".

A sala já estava vazia quando Luís Represas insistiu na ideia. "É preciso que a mentalidade mude em termos de mecenato interno, mas vejo muito mais potencial na expansão para outros mercados. Devia haver uma proatividade da parte de quem está no Ministério da Cultura, de quem está no Estado, de dizer: 'Não é o Estado que vai interferir nisto, mas é o Estado que vai permitir e criar ferramentas para que isso aconteça.'"

O gravador desligou-se algures por aqui, ao fim de mais de uma hora e meia de gravação, mas a conversa continuou por mais um bom bocado. A agenda, a minha e a dele, havia de parar o almoço numa altura em que Bruno, Sónia e Fernanda já almoçavam num outro recanto da Adega do Cozinheiro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.