A paixão dos toiros num cenário de filme

Há três gerações numa família historicamente ligada à tauromaquia, a Galeana é a menina dos olhos de Joaquim. Ali, na Ganadaria Murteira Grave, os toiros vivem livres e felizes até ao dia de mostrarem toda a sua bravura numa arena. Também há um negócio, mas é no campo que este ganadero é feliz

Reza a lenda que Galeana era uma princesa árabe de tal beleza que por ela todos se apaixonavam. A história que se conta em Toledo até tem final feliz, mas o que dela fica mais firmemente gravado no imaginário é o encanto da mulher que trocou tudo por amor a um forasteiro, a musicalidade e nobreza do nome, a magia e mistério que sempre têm as lendas antigas passadas de boca em boca. E conforme vamos avançando pela estrada estreita e tosca que serpenteia entre os campos a perder de vista, erva e flores a pintar o horizonte recortado pelo porte imponente de toiros negros e castanhos e sarapintados a brilhar, o perfume de tudo quanto vem da terra quase palpável numa manhã de sol tardio, não custa acreditar em encantamentos e almas antigas, felizes e bonitas a passear por ali.

A Herdade da Galeana, que se estende por 918 hectares e onde desde 1944 vive a ganadaria Murteira Grave, é o imensamente belo pedaço de terra que separa Mourão e Espanha. "Aqueles montes escuros que se avista ao fundo já são do lado de lá. Antes tem um pouco de raia seca, um ribeiro que de verão se faz fio de água e pedrinhas." Joaquim Grave, que há mais de uma década trocou uma carreira na investigação em Santarém pela propriedade que desde criança foi a menina dos seus olhos, vai fazendo as apresentações. "Aqui à volta é tudo montado de azinho típico, os solos são muito pobres com xisto a rasgar a terra a todo o momento, e com primaveras precoces e exuberantes. Em fevereiro já cheira a primavera, mas acaba mais cedo do que em Évora, por exemplo. Esta margem esquerda do Guadiana é seca, árida, mas tem muita magia."

Abarca o horizonte com um gesto e recorda que a propriedade está na família desde 1939 - quando o avô a comprou, depois de dois anos arrendada a uma espanhola - o que explica os vestígios da arquitetura castelhana na casa da herdade, atipicamente dividida em dois pisos mas tendo ganho nas gerações seguintes os traços característicos da paisagem alentejana. Com o pai de Joaquim, desde 1955 ganhou a varanda, alguns montes mais ou menos apartados dali, outras construções erguidas à medida das necessidades decorrentes do desenvolvimento da ganadaria, passada ao filho mais velho em outubro de 2002 e que no próximo ano cumprirá as suas bodas de diamante. Primeiro de seis irmãos, Joaquim herdou-a, com um pouco de sorte e a generosidade do segundo irmão, nas partilhas que o pai fez ainda em vida: "Pelo seu simbolismo, a Galeana era a menina dos olhos de todos nós - eu até pus o nome a uma das minhas filhas -, por isso o meu pai pegou nos três mil hectares que tinha, fez seis lotes e sorteou-os pelos filhos. E eu, que tanto a queria, perdi-a no sorteio, mas o Carlos, num gesto que não esquecerei, trocou logo comigo." Talvez fosse esse o momento em que decidiu, ainda que inconscientemente, que a sua vida passaria a ser ali. Em pouco tempo, o veterinário mudou-se para Reguengos trocando a longa carreira na investigação que até já o levara a passar uma temporada em Bruxelas por uma chefia de divisão. E mesmo disso prescindiu, ao fim de quatro anos, aceitando a mobilidade voluntária para poder dedicar-se exclusivamente à Galeana, onde as quatro filhas (entre os 26 e os 16 anos) o visitam sempre que estão por cá (três delas vivem nos EUA, a mais nova em Santarém com a mãe) mas à qual ainda não criaram aqueles laços tão fortes.

"Tenho aqui cinco pessoas comigo, mas a partir das 17.00, quando os trabalhadores se vão embora, a alma que tenho mais perto está no pueblo de Valencia del Mombuey, a oito quilómetros por estrada." A quem vem da cidade, chega a dar inveja que haja quem viva assim, de braço dado com a natureza, a saber quem lhe amassa o pão e cria os animais que hão de chegar-lhe ao prato. Ainda que, mesmo fora das obrigações diárias, a vida no campo implique que se tenha sempre que fazer - assim haja vontade e energia. E aos 65 anos, Joaquim continua a tê-las de sobra. Aponta o muro que reconstruiu no último ano, ao longo da estrada e à maneira antiga, de capacete de cal a criar uma linha irregular como a paisagem que encerra, entrecortado com os marcos da propriedade, o antigo G e o novo, em forma de espora. Mais adiante há de mostrar-me o tentadero onde testa a bravura das vacas que lhe garantem os toiros bravos, que é dos tempos mais antigos da propriedade e que será a próxima obra a levar a cabo, depois de as chuvas dos últimos dias terem derrubado parte da parede. A Galeana é uma amante cara e caprichosa. Ou como diz Joaquim, faz jus ao dito popular de que uma propriedade é suscetível de melhoramentos até à completa e total ruína do seu proprietário.

Se o amor àquelas terras o impele a fazer sempre mais, o lado turístico que a Galeana ganhou nos tempos mais recentes alimenta essa vontade com a necessidade. Já recebe ali mais de 1500 pessoas por ano, sobretudo franceses, para visitar a propriedade - um passeio que sempre provoca coros de exclamação, mesmo entre os espanhóis que ali passam, já que no país vizinho a criação de toiros é intensiva, bastante diferente deste cenário de natureza em estado puro. Quando bateu o recorde de visitantes em 2016, com perto de duas mil pessoas, usou todo o dinheiro que faturou para obras de melhoramento - uma segunda sala de refeições, casas de banho adequadas, uma cozinha industrial.

As paredes do salão onde se sentam no fim de cada passeio a saborear a carne de toiro guisada pela Manuela, cozinheira de mão-cheia - outrora usado como celeiro e modificado apenas para lhe dar algum conforto e uma chaminé alentejana - estão forradas com cartazes de corridas de outros tempos e fotografias antigas, a mostrar a ligação das diferentes gerações ao mundo dos toiros. Que se prolonga ainda hoje - o seu sobrinho, João Grave, é cabo do Grupo de Forcados Amadores de Santarém.

Na sala nova, há ainda alguns cartazes pintados, lindos, deixados pela primeira dona da Galeana e que ele restaurou - um deles do ano em que nasceu Joaquim. Há símbolos de faenas, recordações tão pessoais como o momento imortalizado da única vez que deu a volta a uma praça com um irmão que morreu novo, numa garraiada do liceu em Évora, em que Joaquim foi forcado e o irmão cavaleiro. Há uma coluna inteira dedicada a prestar homenagem a Francisco Mendes (hoje com 85 anos), que em miúdo foi ajudado pelo pai Grave a cumprir o seu sonho de toureiro e que recorda como tendo sido "o melhor português, com arte".

Ao lado, a sala dos troféus é bem reveladora da imponência da Ganadaria Murteira Grave. Chama-se a atenção para as enormes cabeças de toiros exibidas nas paredes, com respetivo nome e relato de comportamento exemplar na praça, em homenagem. Entre largas dezenas de prémios ali exibidos com merecido orgulho, há toiros esculpidos em diferentes metais e tamanhos a simbolizar a bravura demonstrada nas corridas, há uma imagem de uma mulher simbolizando Verónica (a imagem fundindo o sentido bíblico com o passe tauromáquico com o mesmo nome), há espigas de ouro (bravura) e prata (apresentação), prémios recebidos em Bilbau, Madrid, Barcelona, Málaga, Pamplona, Mont Marsan. Há até um Óscar - o prémio pela corrida mais brava de Santo Isidro, de 1988 - e em lugar de honra, uma fotografia do pai com a condessa de Barcelona (mãe de Juan Carlos) e o primeiro traje de luces que Paco Mendes vestiu, comprado pelos amigos para usar na corrida de 15 de agosto de 1950 em Reguengos.

Contudo, o que realmente encanta os visitantes é a propriedade, com a sua beleza natural e traços de um passado que se mostra, por exemplo, num antigo posto de guarda fronteiriça, com as casas dos guardas ao lado e a escola que o pai Grave mandou fazer para os filhos dos funcionários. Talvez um dia Joaquim os recupere para turismo.

A vida no campo

É no campo, com a erva crescida até à barriga dos toiros de meia tonelada que por ali se banqueteiam de pelo lustroso - e nos testam a capacidade de lhes trazer perigo, acabando por resolver que pouco importamos -, que Joaquim se sente mais em casa. Embevecido com o cenário que não deixa de o encantar por mais vezes que o cruze, vai-me explicando a vida dos animais e lançando interjeições carinhosas. "Eh, bonito!"; "É vaidoso este Sandokan..." O animal de pelo castanho mostra-se orgulhoso no porte. À volta, o grupo que vai fazer a corrida do Campo Pequeno, a 23 de agosto, vai avançando em corrida, estimulado pela pick up. Joaquim fá-los correr três vezes por semana, cerca de dez minutos de cada vez, para se manterem em forma. De resto, a sua vida é isto: comer, cobrir, lutar.

Neste negócio, as cabeças contam-se pelo número de fêmeas, explica-me enquanto a Toyota nos sacode ao sabor das enormes pedras que rasgam o chão ainda acima da erva. Na ganadaria Murteira Grave, há 200 vacas-mães, que por ano parem cerca de 160 animais, em teoria 80 machos e 80 fêmeas. Daqueles, nem todos chegam a toiros. Nos quatro anos que levam até sê-lo, as lutas são uma parte importante do que a natureza lhes imprimiu no ADN e, em consequência, há feridos e por vezes mortos, cumprindo o preceito da hierarquia muito forte em que esta raça se organiza. "Há um líder, depois o número dois, o número três e por aí abaixo e até pode haver dominâncias parciais mas a organização é sempre vertical. O que significa que o último da cadeia é dominado por todos; e que há sempre um aspirante a líder, o que motiva lutas violentíssimas entre eles - e o líder pode mudar de mês a mês, até de semana a semana."

A menos que tenham algum defeito físico - Joaquim já ali teve um que nasceu só com três patas e que viveu anos -, o objetivo para todos os bezerros machos que nascem é que quando cheguem a adultos, o que leva entre quatro e seis anos, vão para uma corrida. Até lá, vivem em liberdade e com a fartura que o campo - com a ajuda do ganadero quando a erva seca ou não basta - garante. "E têm ou não têm uma boa vida?" Não há como negá-lo.

Quanto às fêmeas, aos dois anos e meio têm de passar uma prova funcional de seleção, a tenta, que se desenrola no dito tentadero - uma pequena praça de toiros em que são toureadas a pé por profissionais, enquanto o ganadero analisa a sós os seus movimentos e bravura. "As que eu considero que o atingem, no meu conceito, porque para 50 aficionados pode haver 50 conceitos diferentes de bravura, ficam para futuras mães. As restantes, hão de ir para o matadouro (Joaquim também faz produção de carne biológica) ou para treinar os cavaleiros ou então são vendidas para Espanha, para tauromaquias populares de rua."

E quais são afinal as características que entende que conferem bravura ao toiro? Joaquim nem hesita. "Antes de ser bravo tem de ser toiro. Isto é, morfologicamente bonito, possante, como dizem os espanhóis deve ter trapío, lâmina, expressão. E para ser bravo tem de ser pronto na arrancada, tem de investir com alegria, tem de humilhar (o que significa investir com a cabeça o mais perto do solo possível) e ter recorrido, que é a longitude ou amplitude da investida." Explica-me que em tempos já idos os toiros bravos não investiam, acometiam. "Costumo dizer que Deus não criou o toiro bravo tal como o conhecemos hoje, criou um bovino com alguma agressividade natural, mas aquilo a que chamamos hoje bravura é o trabalho que o homem fez com essa agressividade natural. A acometida é natural, a bravura que se traduz numa investida é cultural e tem evoluído com o tempo."

No fundo, o que o ganadero seleciona é o comportamento, "não se trata de uma seleção sobre aspetos morfológicos quantificáveis, mas sobre caracteres anímicos ou psíquicos, um conceito de qualidade, que é subjetivo e evolutivo. Os ganaderos têm de criar o toiro que a sociedade pede", resume Grave, antes de usar outra expressão castelhana: El toro sale a su amo. O que isto quer dizer é que mais cedo ou mais tarde o toiro vai refletir a personalidade de quem o selecionou, o seu conceito de bravura.

Porque em Portugal não há toiros de morte, é o ganadero que indulta o toiro. O que significa que quando um se revela especialmente bravo, em vez de seguir para o matadouro e dali para os talhos quando termina a corrida, é antes devolvido à sua casa, onde pode viver mais dez anos como semental (reprodutor). "Esses têm uma vida de 14/15 anos com o seu harém." As vacas são divididas em sete lotes de 25 a 35 cada, cada lote com um toiro que entra por tradição ao dia 1 de novembro. E assim é possível saber exatamente de onde vem cada cria que nasce. "Há 200 anos que é assim; é a raça com rastreabilidade mais exata."

As vacas aceitam machos a cada 21 dias por 36 horas, a duração do cio - ficam prenhes se cobertas na segunda metade desse período -, e se cheias não aceitam mais o macho até ao parto. Longe do que acontece com as raças produzidas para alimentação, os pequenos estão com as mães até um par de meses antes de fazerem um ano, quando são desmamados. "As vacas bravas também são aleitantes, isto é, criam os filhos dando de mamar. Na verdade, a única que não o é, é a vaca leiteira, que nunca chega a ver os filhos, que bebem sempre leite em pó. Na raça brava, os bezerros mamam oito a nove meses na mãe."

Um negócio especial

No auge da Ganadaria Murteira Grave, nos anos 1980, o pai chegou a ferrar mais de cem machos. Joaquim reduziu o número mas apurou o negócio e exporta os seus toiros para Espanha e França, além de os vender para as corridas nacionais. Neste ano, tem apenas quatro marcadas - Lisboa e Abiul (perto de Pombal) e mais duas em Espanha. Mas a venda não se faz às cegas. Quando um empresário contacta a ganadaria para garantir toiros para uma corrida, há que saber em que praça serão lidados. É determinante para a escolha - ainda que esta seja feita pela avaliação morfológica do animal - "geneticamente nunca sabemos, é uma carta fechada".

O preço também varia muito e consoante vários fatores. "Em primeiro lugar, depende do prestígio da ganadaria, depois do país e da praça onde vai ser lidado, que pode ser de primeira, segunda ou terceira categoria. França é um bom mercado, Espanha tem de tudo, oito ou nove praças de primeira, as de segunda que são as das capitais, e depois as de terceira que são os pueblos - e aí há de tudo, alguns bons, outros nem tanto. Em Portugal é onde o toiro vale menos." Por cá, há duas parcelas no valor dos toiros: o que se vende ao empresário que dá o espetáculo, que é o aluguer da bravura, que vale em média uns dois mil euros, depois há a venda da carne, que serão uns 500 euros. Em Espanha, numa praça de primeira, pode valer até seis vezes mais - mas é o extremo, sendo que ali não se vende a carne.

Enquanto avançamos entre os toiros, mantendo-os à distância de segurança - Joaquim já apanhou uns sustos valentes, mas a maior sova que apanhou, confessa, foi de uma vaca, há um par de anos -, explica-me que numa lide de 15 minutos o animal só está em movimento pouco mais de três. "Se conseguirmos nem que seja mais meio minuto, todo o espetáculo melhora, mas isso implica fazer as coisas com muito critério." É por isso, pela exigência física da lide, que os faz correr, para estarem mais bem preparados e poderem manifestar a sua bravura de forma muito mais plena. Como veterinário que é, sabe que o consumo de glucose no toiro é muito rápido e a reposição lenta, pelo que não está anatómica ou fisiologicamente preparado para correr 20 minutos. "O animal que investe 15 ou 20 minutos é um milagre zootécnico, porque o normal é a mansidão, a bravura é o extraordinário."

Diz que por natureza eles têm a calma característica dos bovinos, são indolentes, e uma vez que são herbívoros não precisam de matar para sobreviver; são antes as vítimas ideais dos predadores. É por essa razão que, quando se entra numa cerca com bovinos, a primeira coisa que eles fazem é afastar-se. "A primeira coisa que uma vaca faz quando dá à luz é comer os restos da placenta - vira carnívora durante uns minutos e fá-lo para não deixar vestígios aos predadores." O que o homem fez com esta raça é que lhes deu uma nova condição de não só poderem não se afastar como até atacar quando se lhes pisa o território. "Algumas horas depois de nascerem, quando vamos pôr os brincos aos bezerros (legislação europeia) eles já marram contra as nossas pernas."

Se houve um tempo em que pensava que quanto menos contacto tivesse o toiro com o homem melhor seria para o animal, veio a aprender que havendo algum contacto prévio, vendo gente e algum movimento, lhes reduz o stress no dia do embarque para a praça. "As últimas 48 horas antes da lide são muito importantes porque podem influenciar o seu comportamento na arena, pode haver interferências de fatores externos, por isso temos de os criar como atletas de alta competição."

Desfazer o preconceito

Veterinário de formação e ganadero, Joaquim rejeita em absoluto os argumentos dos animalistas contra as corridas, que diz serem mesmo contrários à ecologia. "É uma questão de preservação de uma espécie e de todo um ecossistema. Se não houver lide não haverá toiro de lide, porque há animais muito mais eficientes a produzir carne. Quando me perguntam se tenho pena dos animais, tenho, e é exatamente por isso que defendo o toiro bravo; tenho pena dos cães que vivem em apartamentos nas cidades, capados por egoísmo dos donos e que vão fazer chichi às 16.20, quando o dono pode. Aqui os toiros têm uma vida de luxo, nenhum outro bovino tem a vida que aqui vê."

Tendo chegado a ser perito em carne bovina em Bruxelas, sabe do que fala quando me diz que os animais de carne que comemos vivem até aos 16 meses num curral, nunca em liberdade, a comer farinha, e saem dali para o matadouro. O toiro bravo vive três vezes mais tempo. "No matadouro não há dignidade nenhuma, numa praça pode haver porque lhe damos oportunidade de manifestar a sua animalidade. Porque o bem-estar supremo de qualquer ser não passa necessariamente por deixá-lo tranquilo num canto, pode passar por uma atividade pela qual atualiza as suas potencialidades, pela qual realiza ativamente a sua própria essência única. E a essência única do toiro bravo é lutar, ele realiza o seu grande bem lutando, realiza a sua natureza de lutador na luta. E não me parece - há aliás estudos sobre isso - que um animal numa faena esteja num sofrimento atroz. Não está. O pico do stress é durante o transporte ."

Conta-me que depois de um Prós e Contras se tornou durante semanas alvo da ira dos animalistas por ter dito que os animais não têm direitos, porque só os tem quem tem deveres. Repete-o e justifica-o com a falta de consciência reflexiva dos bichos: a dor é inevitável, o sofrimento é opcional, porque o sofrimento implica zonas mais profundas do organismo e consciência reflexiva - uma pessoa sente medo, pensa como vai sair dali viva, curar-se, enfrentar a sociedade - que o animal não tem.

"O que não significa que nós, homens, não tenhamos deveres para com eles. Mas eu costumo dividir os animais em três categorias: os de companhia, a quem devemos afeto, amor, que é o que eles nos dão também; os domésticos, aos quais devemos proporcionar boas condições de vida para que nos deem a carne, o leite, a lã, os ovos; e os selvagens, a quem devemos a manutenção dos ecossistemas onde vivem para que não desapareçam. O toiro bravo não está em nenhuma destas categorias. É um animal essencialmente bravo, o que significa que põe o valor intrínseco do seu combate acima da sua própria dor." Insiste que está estudado e comprovado que no toiro a dor existe quando se põe a bandarilha, mas começa imediatamente a ser diminuída, mascarada pela libertação de endorfinas. "Os animais não são masoquistas: se tiverem uma dor horrorosa não repetem. A bravura do toiro é o que legitima intelectualmente a corrida, não vamos fazer uma corrida com um animal que não o toiro bravo. A questão é que os animalistas transportam aquilo para o seu cão ou gato e não querem vê-lo com um par de bandarilhas! Mas ninguém quer."

Depois há a questão da ecologia, que diz totalmente contraditória com os argumentos animalistas. Diz que o "animalismo" é o oposto da ecologia. "Não se pode ao mesmo tempo salvar a espécie leopardo por razões ecologistas e preocupar-se com o sofrimentos das gazelas por razões animalistas. O mesmo quando um lobo come uma ovelha. Não se pode alimentar os pombos, por sentimento animalista e preocupar-se com as suas pragas por razões ecologistas. Há que escolher: ecologia ou animalismo. E a espécie é sempre mais importante que o indivíduo. O animalismo não é uma extensão dos valores humanistas. É a sua negação. Eu prefiro ser humanista do que animalista e a festa dos toiros está radicalmente no lado da ecologia."

Da tauromaquia

Há cerca de 250 anos, quando a bravura passou a valer mais do que a carne, que o toiro é selecionado com algum critério. Havia toiros de morte em toda a Península Ibérica até um rei em Espanha (francês) que era contra os toiros, contrariou que os nobres se exercitassem para a guerra e acabando por provocar o desenvolvimento do toureio a pé - o povo já o podia fazer, sem precisar de cavalos ou dinheiro. Por cá, prosseguiu a tradição a cavalo. Dos oito países com tauromaquia - três na Europa e cinco na América do Sul -, só Portugal não tem a morte do toiro na arena. "O espectáculo pode ser cruento, mas não é cruel", diz Joaquim. "Há uma ética na tauromaquia que se respeita no campo e na praça. Ninguém vai aos toiros para os ver sofrer. É a valentia do homem e a bravura do toiro numa luta leal."

Uma recordação muito pessoal
À entrada do salão, em lugar de honra repousa o capote que Finito de Córdoba ofereceu a Joaquim e o deixou em lágrimas pela dedicatória escrita à mão. Nele lê-se: "Que privilegiado e feliz me sinto por voltar a esta casa bendita. São 25 anos os que me separam da primeira vez, D. Joaquim, obrigado por me brindar com a oportunidade de voltar a sentir-me toureiro e pessoa. Toureiro porque graças às investidas das suas vacas pude abandonar-me e expressar o que sinto; pessoa porque depois de tanto tempo com tudo o que vivi e experimentei, os nossos caminhos mostraram-nos ser os mesmos. Recordarei sempre este dia junto aos meus companheiros e amigos Manuel Escriban, com a proteção e amizade de Jaime Padilla (bandarilheiro) e aquele que sempre foi a muleta de seda no toureio, um dos maiores com o capote, Antonio Manuel Punta. Obrigado sempre pelo respeito e admiração que nos tem a nós, toureiros, a todos os presentes por paixão e afição na sua festa. Ontem o Joaquim perguntou-me ao sentarmo-nos se era supersticioso. Respondi que não e perguntei porquê. Explicou-me que éramos 13. Pois lamento dizer que contou mal, porque num dia tão mágico éramos 14: o seu pai está sempre presente."

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