A artista que não queria enfrentar leões

Cantora, percussionista, compositora, letrista e performer que grita pelos direitos das mulheres, a brasileira Karina Buhr pintou a manta em Porto Covo, no Festival Músicas do Mundo. Está neste sábado em Lisboa, no largo do Intendente (22.00), e no Porto, na Casa da Música (na sexta-feira, 27).

O apelido e as sardas denunciam a ascendência alemã, por parte do avô materno. Nasceu em Salvador, em bebé viveu em Lisboa, depois os pais fixaram-se no Recife, onde viveu até há 15 anos, quando se mudou para São Paulo.

Dragão, o tema de abertura de Selvática, o disco mais recente de Karina Buhr, começa com a seguinte frase: "Enfrentar leões, enfrentar/passar por cima de uma coisa que ´tá/no lugar da outra."

Gosta de enfrentar leões?

Preferia ficar tranquila, mas tem de ser. "Ah, você adora falar sobre feminismo e machismo, blá-blá." Não, eu não gosto, preferia não falar, mas por enquanto eu preciso falar.

As suas letras focam muito a questão dos direitos das mulheres. Como vê a evolução das mulheres na sociedade brasileira?

É maquilhada como uma coisa boa, mas é muito, muito difícil. Tem uma coisa muito ligada ao clichê da mulher brasileira que corre o mundo, e que lá também é muito forte. É como se você estivesse num lugar para ser apreciada e não fizesse parte das coisas. Cantar, por exemplo. Normalmente aceita-se que um homem faça a música, escreva a letra e a mulher cante, mesmo em 2018. Se for a uma das poucas lojas de discos que existem, na divisão de estilos, há as cantoras brasileiras. Os homens são catalogados pelo estilo musical, e as mulheres estão juntas, a Dona Ivone Lara, eu, a Karol Conka... Eu não me considero cantora. Eu gosto muito de cantar, mas para mim o principal do trabalho são as letras e as músicas que faço. Cada vez tem mais, mas é muito difícil ter mulheres instrumentistas no Brasil, que toquem guitarra, baixo, bateria, piano, flauta, violino. É como se o lugar da mulher fosse cantar.

E fora da área artística?

Ainda tem um monte de barreiras. Há uma dificuldade muito grande de obedecer à mulher, de a mulher ser chefe. Isso é mundial, mas lá é uma coisa muito forte. Essa coisa da Marielle [o assassínio] tem muito a ver com essa coisa de peitar. Ela está num lugar peitando o sistema, onde não poderia estar.

A questão racial também faz diferença?

Nesse caso especificamente não sei. No dia-a-dia faz, sim, muita. O racismo é uma coisa muito séria no Brasil e as mulheres pretas estão na frente, são bombardeadas dos dois lados. A imagem da mulata e do samba. A briga agora é para tirar esse termo.

Mulata?

Inclusive há uma profissão. Não sei se ainda está vivo, mas até há pouco tempo ele escolhia a mulata Globeleza, uma figura do Carnaval na rede Globo, em que ela sambava nua com o corpo pintado. Agora já não samba nua. E era preta, mas não podia ser muito preta, e ele dizia-se mulatólogo. O movimento feminista negro quer tirar esse termo de circulação porque é como se fosse uma coisa, um produto, não é uma mulher. São coisas que levam tempo.

Canta, escreve, compõe, é atriz... O que a preenche mais?

É muito difícil responder. É tudo. Vou fazendo as coisinhas. Alguma coisa sobressai e aí eu vou. Sempre escrevi, e em 2015 lancei o meu primeiro livro, que acabou por servir para dar uma afirmada. Tenho de repetir muito que as letras e as músicas são minhas. Uma pergunta que oiço muito no Brasil é: "Mas você fez sozinha?"

Tem mais livros por publicar?

Tenho um que eu quero fazer, mas tenho de dar uma parada. Não preciso de ir para uma ilha deserta escrever, mas tenho minimamente de me focar. E agora estou a começar a fazer um disco novo. Quando acabar o disco eu entro no livro.

O disco anterior, Selvática, conjuga uma imagem muito forte com letras afiadas e uma voz suave. Concorda?

Eu não acho suave, mas acho bom você falar que é suave. Era outro disco que eu ia gravar com outras letras e outras músicas. Metade dele ia estar nesse outro disco. Só que a gente começou a gravar e a vir outro tipo de ideias, a letra de Selvática, e aí eu comecei a virar para outro conceito de disco e acabou virando este no meio da gravação. Passámos dez dias a gravar o disco e escrevi a letra a pensar em Elke Maravilha e Denise Assunção. Elas gravaram, pensei na ideia da capa e como a minha irmã Priscilla é fotógrafa, tirei as fotos numa hora. O conceito tinha acabado de nascer e ficou muito apegado, foi muito louco.

E o novo disco, já tem uma ideia do que vai ser?

Tenho. Eu vou mudar tudo, a banda. Eu toco com esta banda desde 2008. Só não vieram o teclista e o trompetista [a Portugal]. É maravilhoso, na verdade, nós nem precisamos de falar. Deu-me uma vontade de mudar as coisas, de ficar sem chão. Deu-me a vontade de criar um problema [risos]. Estou a fazer uma coisas com o Ministério Público, que é um sound system da Baía, e estou a pensar em trazê-los para junto de mim para ver o que acontece.

Gosta de criar no momento?

É. As músicas e as letras eu já tenho, mas na hora de fazer os arranjos faço com a banda. Embora eu dirija, fazemos os arranjos juntos. Deu vontade de mudar tudo. Eu começo sempre pelo baixo e bateria para depois vir o teclado, a guitarra e o trompete. Deu vontade de chocalhar para ver como é que eu funciono. Na verdade eu começo tudo com tambor e cantando.

Quando aprendeu percussão havia poucas mulheres?

Sim. Tem agora uma moda de maracatu, que tem agora um monte de mulheres, o que é maravilhoso. Quando comecei a tocar, em 94, a mulher não podia tocar nos maracatus. Até hoje é complicado. Meu sonho era ser ogã [quem toca nos tambores do candomblé], mas mulher não pode. No maracatu rural, ou de baque solto, as mulheres assistem, até hoje não tem mulher tocando nem mulher puxando verso. No outro maracatu, de baque virado, consegui quebrar isso, fui lá tocar o meu tambor.

A afirmação a nível nacional de um artista que viva no Recife é fácil?

De jeito nenhum! A primeira barreira é a do sotaque. O que é tido como normal do Brasil é uma mistura entre Rio e São Paulo. Você é catalogado como regional. O meu segundo disco chama-se Longe de onde, porque eu falo isso, mas de qual região? O que não é do eixo Rio-São Paulo é considerado regional. Mas tem uma coisa do tipo de música. Junta o sotaque com o tipo de música, que não é muito comercial, e fica como uma coisa exótica, alternativa. Eu digo que chamam alternativa a quem ganha menos dinheiro, o cachet é mais baixo. Ou nova cena. Comecei a tocar em 94 e desde lá que eu sou tratada como nova cena. Gente, é velha cena!

Teve de adaptar o sotaque?

Não. Isso é muito engraçado porque muita gente do Nordeste e de outras regiões do Brasil acabam por fazer isso. É uma coisa muito natural. Então quando gravei assim chamou muito a atenção, causou um certo susto. Agora está mais tranquilo, mas logo que apareceu o primeiro disco tinha muito essa coisa, "Ah, faz questão de manter o sotaque." Não, não estou a fazer questão de nada, só estou cantando.

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Nuno Artur Silva

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