50º aniversário. Branco mais branco não houve

Em 30 canções, os quatro de Liverpool reafirmavam a supremacia e alargavam os interesses, no primeiro disco duplo da carreira. Hoje, com todas as histórias revividas, percebe-se como já lá estavam todos os sinais da separação, há precisamente 50 anos

Há muito que a arqueologia em torno dos Beatles se tornou num processo infinito de recuperação e exposição - como volta a comprovar-se a partir da base de The Beatles, mais conhecido como The White Album (o "ábum branco"), capaz de multiplicar pistas e de estender o número de canções até às três dezenas, originalmente publicado faz hoje, 22 de Novembro, 50 anos. Para a efeméride, foram preparadas diversas edições: uma em três CD, outra em seis, com um abundante recurso a versões (ou takes, se preferirem) que à época não contentaram o grupo, outra ainda com quatro discos de vinil, por contraponto aos dois que marcavam uma novidade no percurso dos Fab Four. Como se tal não bastasse, a multiplicação de "literatura apensa" também confirma o interesse de muitos em torno de uma etapa, tão marcante como controversa, dos Beatles, ganhando foros de "manual recomendado" o livro de Brian Southall, antigo jornalista no Melody Maker e na Music Week, depois funcionário das editoras A&M e EMI. Já dera sinais exteriores na efeméride do meio século passado sobre a edição de Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band, regressa agora com um título que não engana ninguém: The White Album - Revolution, Politics & Recording: The Beatles and The World in 1968 (ed. Carlton Books). Serve na perfeição para uma visita guiada a tudo o que se passou em torno deste disco mítico, tomando como epicentro os estúdios de Abbey Road, mas saltando para o exterior sempre que necessário.

Convirá registar a chegada ao activo, logo com os Beatles, de dois homens que, mais tarde, deram cartas na música e na produção - Chris Thomas, autor do prefácio do livro, tem hoje 71 anos e um currículo que o associa a projectos tão diversos como Roxy Music, Sex Pistols, Pretenders, Elton John ou U2, e Alan Parsons, a caminho de se tornar septuagenário, que além do seu próprio Project, colaborou com os Hollies, os Wings (de Paul McCartney), Al Stewart ou os Pink Floyd (e logo en The Dark Side Of The Moon), entre outros -, garantindo na altura as "dobras" tidas como indispensáveis a George Martin, o quinto Beatle e produtor-mor que, estrategicamente ou não, não abdicou do seu período de férias pelo meio das gravações. Mas há mais quatro figuras que "pairam" neste capítulo e que, directa ou indirectamente, por presença ou por ausência, ajudam a moldá-lo. Brian Epstein, o empresário histórico do grupo, tinha morrido subitamente, obrigando ou permitindo que os músicos - sobretudo Paul McCartney e John Lennon, mas também George Harrison - se transformassem em empresários, capazes de gerir a Apple, com interesses em diversos sectores... até na música. Geoff Emerick, um engenheiro de som, funcionário em Abbey Road e habituado a lidar com a banda, pediu escusa logo no início das sessões do álbum, descontente com o clima agreste que se instalara entre os artistas. Há ainda a considerar a figura de Maharishi Mahesh Yogi, um guru indiano que cativou as atenções de John, Paul, George e Ringo para a "causa" da meditação transcendental, ao ponto de os motivar para um retiro na Índia - onde foram acompanhados, por exemplo, pelo cantor Donovan e pela actriz Mia Farrow - que não terminaria bem, quando começou a correr o rumor de que o líder espiritual assumira avanços sexuais impróprios com uma das suas discípulas de ocasião (episódio alegadamente na origem da canção Sexy Sadie, mais tarde incluída no disco). Essa viagem à Índia marcou ainda mais mudanças para Paul, que desfez o noivado com Jane Asher, que ainda o acompanhou ao Oriente, e +ara John, que, de regresso a Inglaterra, iniciou o processo de divórcio com Cynthia e assumiu a ligação com Yoko Ono. A jovem japonesa constituiu, reconhecidamente, um problema adicional, com John a impor a sua presença diária na "sala de comandos" dos estúdios, para desagrado dos três parceiros.

Um grupo partido

A Índia voltou a estar no centro das atenções quando chegou a circular a ideia de que todas as canções do White Album teriam sido compostas e escritas durante esse "retiro". Nada disso: boa parte foi desenhada e trabalhada em Inglaterra, algumas podem mesmo ter nascido nas salas de Abbey Road. Geografias à parte, o que mudou substancialmente foi o modus operandi, de uma forma que faz ressaltar a ideia de que o "trabalho de grupo", ou até de parceria, deu lugar a um claro emergir das individualidades. O que acontece até com cantigas que apareceram assinadas pela "dupla maravilha", mas que foram realmente compostas e escritas por apenas um deles. Embora hoje tenha esmorecido a sentença que defende que, com a escolha de um álbum duplo, se perdeu um magnífico disco simples, mais conciso, mais apurado, menos diletante, fica a sensação de que nenhum dos Beatles quis abdicar do seu quinhão, mais pronunciado nos casos de Lennon e McCartney, mas com Harrison a conseguir nada menos de quatro temas, com destaque para While My Guitar Gently Weeps (que lhe valeu algumas queixas em virtude do desinteresse dos parceiros e que trouxe, como convidado especial, o notável Eric Clapton), e até Starr se estreou como compositor solitário num disco do quarteto (Don"t Pass Me By).

Os Fab Four parecem empenhados, de resto, em trocar as voltas mesmo aos seus seguidores iniciados. Se John Lennon foi sempre apresentado como o "revolucionário" do conjunto, o tema mais politizado do álbum é Piggies, escrito e cantado por George Harrison, pouco ou nada contido numa crítica violenta ao conformismo das classes médias britânicas. Já Paul, tido como o mais chegado às baladas e aos temas românticos, assina dois poderosos - e decibélicos - manifestos rock: Helter Skelter, o tema que o lunático assassino Charles Manson apontou como a força catalizadora que o impeliu a coordenar os assassínios da actriz Sharon Tate e de alguns amigos, e Back In USSR, em que se regista a ausência de Ringo Starr, "amuado" à data da gravação, depois de ter sido criticado pelos três parceiros. Em "compensação", John não hesitou em escrever, cantar e tocar (sozinho) Julia, dedicada à sua mãe, morta dez anos antes. E juntou-lhes - entre outras - I"m So Tired, reflexo da sua condição de vítima de insónias durante largos períodos do ano, e Dear Prudence, inspirada na irmã de Mia Farrow, também presente na excursão indiana, que não aguentou o ritmo dos rituais de meditação e viveu quase em reclusão no seu quarto. A canção haveria de voltar à ribalta, com enorme êxito, numa versão do grupo Siouxise and The Banshees, de 1983.

Numa linha distinta da posta em prática para Sgt. Pepper"s, os Beatles foram aproveitando o (prolongado e só possível numa era distante) tempo de estúdio, não se coibindo de cumprir, para alguns dos 30 temas, dezenas de takes até se declararem satisfeitos. Dispuseram de uma novidade técnica: a chegada a Abbey Road da primeira mesa de gravação com oito pistas (!), o que lhes permitiu chamar naipes orquestrais e músicos externos para funções específicos, com George Martin e Chris Thomas a aparecer no elenco de instrumentistas. Nem sequer o experimentalismo foi abandonado, embora os respectivos resultados práticos não os entusiasmassem por igual: acontece com Revolution 9 (não confundir com a escorreita e entusiasmante Revolution 1), uma colagem sonora promovida por Lennon, com a cumplicidade de Harrison, Martin e, claro, Yoko Ono, sem McCartney e com muitos críticos a considerar o longo pedaço (mais de oito minutos) entre o "pretensioso", o "inconsequente" e o "insuportável".

O princípio do fim

Significativa é a opção da banda em não escolher nem permitir a edição de qualquer single com canções do álbum. Por um lado, já tinham cumprido - e de forma brilhante a sua "obrigação" para 1968, com os lançamentos prévios de Lady Madonna (Março) e de Hey Jude (Agosto), esta com a particularidade de ter sido escrita por Paul a pensar no filho de John, Julian, por altura da separação dos pais. Apesar da multiplicidade de géneros e da amplitude de "estados de espírito", os Beatles quiseram preservar a "integridade" de uma obra que, mesmo não se adivinhando do exterior, já carregava todos os sinais da separação que viria a acontecer oficialmente em 1970, apesar de Joh já ter anunciado internamente a sua decisão de deixar a banda antes da edição do álbum Abbey Road, em 1969. Até a capa marcava um novo ciclo conceptual: depois do interminável desfile de personalidades e figuras para "apresentar" Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band, os Beatles - ao que se sabe com forte influência de McCartney - optaram pelo branco integral, sem mancha e sem deixar indicações prévias aos interessados.

O mundo estava manifestamente em mudança e em convulsão: às muitas manifestações contra a guerra do Vietname, que acabaria por se arrastar mais alguns anos, à agitação parisiense "atribuída" ao mês de Maio mas com antecedentes e consequências bem mais alargados, juntaram-se os assassínios de Martin Luther King e de Robert Kennedy, a efémera Primavera de Praga promovida por Alexander Dubcek, a estreia dos filmes 2001: Odisseia no Espaço e O Planeta dos Macacos, bem como do polémico musical Hair, a politização dos Jogos Olímpicos pelos velocistas Tommy Smith e John Carlos (que, no pódio, ergueram os punhos cerrados para apoiar o Black Power) e as mortes do escritor John Steinbeck e do piloto de Fórmula 1 Jim Clark. Para os Beatles, o fim também já estava anunciado. Mas, com influências expressas que misturavam Chuck Berry com Karlheinz Stockhausen, não deixaram de vender quase dez milhões de cópias do "álbum branco", só nos Estados Unidos. Curioso seria podermos saber a contabilidade, 50 anos depois. Qualquer que seja o número, o disco continua a ouvir-se, a deixar marcas e a maravilhar meio mundo. Ou mais do que isso.

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