Icons: as histórias e viagens pelo mundo de Steve McCurry

A exposição do fotógrafo norte-americano abre hoje ao público na Cordoaria Nacional em Lisboa. Desde de catástrofes a retratos, é possível ver o mundo através da sua lente.

"Os retratos contam sempre grandes histórias sobre a humanidade e realmente mostram como as pessoas gostam de se apresentar. Queremos sempre apresentar-nos da melhor maneira. Eu quero ver como é que as pessoas se querem ver a elas mesmas." Quem o diz é Steve McCurry, cujo retrato de Sharbat Gula, a menina afegã dos olhos verdes, é uma das fotos expostas a partir de hoje na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

Steve McCurry fotografou Sharbat Gula num campo de refugiados afegãos no Paquistão em 1984. Mas passados quase quatro décadas sobre a imagem que foi capa da National Geographic, continuam a falar todas as semanas. Depois de 35 anos no Paquistão, Gula foi detida e deportada para o Afeganistão em 2017, tendo conseguido asilo em Itália, com ajuda de McCurry, no ano passado, pouco antes de os talibãs voltarem ao poder em Cabul.

A exposição Icons do fotógrafo norte-americano estará patente até dia 22 de janeiro. Mistura os diferentes países por onde McCurry passou, da Índia aos Estados Unidos. Cada imagem tem uma história e juntas revelam a jornada do fotógrafo.

Sem percurso definido nem ordem cronológica, cada visitante pode ver o mundo pela lente do norte-americano, de 72 anos.

Questionado pelo DN sobre a atual situação política no Afeganistão, McCurry afirma que o novo regime talibã tem "uma interpretação extrema da religião e é muito dominado pelos homens. É um desperdício de potencial das mulheres, que perderam os seus direitos. Eu pergunto-me até quando é que isto vai durar." Para o fotógrafo, esta visão do mundo "está agora muito integrada na própria cultura afegã e pode demorar um bocado para as mulheres serem capazes de terem direitos iguais no Afeganistão".

Icons tem curadoria de Biba Giacchetti, co-fundadora da agência Sudeste57, que já trabalhou em 54 exibições juntamente com o fotógrafo norte-americano. Para a curadora, esta mostra funciona como um diálogo entre as fotografias e o público que as vê.

Com as suas imagens, McCurry pretende documentar o mundo. "Estou a tentar mostrar as dificuldades humanas. A intenção de viver e viver em certas condições. A vida é difícil mas de alguma forma somos capazes de sobreviver. Eu acho que há uma beleza no mundo que vi e quero documentar isso."

Algumas das fotografias expostas foram tiradas com câmara analógica e outras com câmara digital. O retrato do ator Robert de Niro, por exemplo, foi das últimas fotografias que McCurry tirou com uma Kodak, antes de passar para as câmaras digitais.

Uma das características que saltam à vista nas fotografias de McCurry é o foco nos olhos, algo que considera muito importante. "Eu acho que os olhos nas fotografias são muito expressivos e ajudam a explicar quem somos. Contam a história de vida de uma pessoa. Os olhos são a parte mais expressiva do nosso rosto e podem ser muito poderosos e dizer muito sobre a personalidade de alguém", explicou em conversa com o DN depois da visita à imprensa.

Sharbat Gula não é a única dos seus retratados com quem McCurry continua hoje em contacto. Em 1992, numa das suas viagens a Cabul, fotografou um rapaz de 12 anos que perdeu a infância para a guerra, sendo um dos soldados do seu bairro. Hoje, vende limonada nas ruas.

Outro destaque da exposição é uma fotografia tirada no Peru que mostra uma criança a apontar uma arma à própria cabeça e a chorar. Para quem não conhece a história por detrás da imagem, pode levar à ideia errada. McCurry explicou que a arma é um brinquedo e que a fotografia foi captada no meio de uma brincadeira entre crianças. "Às vezes vejo pela minha filha de cinco anos como o que pode ser visto como o fim do mundo para uma criança, a seguir passa e já não importa", explicou aos jornalistas durante a visita à exposição.

Para o fotógrafo, a China é o país que mudou mais desde a primeira vez que o visitou. "Quando fui lá a primeira vez tudo antiquado mas quando voltei em 2020 estava tudo completamente diferente. Eu não queria acreditar na transformação. O que se passou foi também um milagre económico."

O próximo passo para McCurry é viajar para o Canadá por onde pretende conduzir, observar e talvez fotografar.

O preço dos bilhetes varia entre os 6 e os 12 euros. Podem ser adquiridos online.

mariana.goncalves@dn.pt

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