Horror de autor 

Reflexão cuidada sobre medo e saúde mental, Sorri, de Parker Finn sobrevive ao buzz da net e é uma surpresa agradável no cinema de terror de Hollywood. Tem tudo para ser um sucesso e originar sequelas.

Vale o que vale, mas a Paramount com este Smile está a conseguir algo premonitório no seio da indústria de Hollywood: um filme que se torna "viral" pelo seu marketing, sobretudo pela forma como os seus teasers e trailers foram lançados na net. À partida, mesmo antes do seu julgamento e lançamento, a aposta ficou ganha. Um feito promocional que se sobrepõe ao próprio valor artístico. Quer isto dizer que este é um caso do triunfo de tudo aquilo que está para além do hype de um filme, uma espécie de negação do cinema. Um pouco a glorificação dos efeitos de um trailer como o fundamento de um filme. Na verdade, o filme de Parker Finn fica refém das reações entusiastas aos sustos e ao ambiente gerado pelas imagens promocionais, quase que se torna irrelevante discutir-se o seu mérito como novo objeto dentro do género.

Se os méritos do golpe de marketing são melhores do que o próprio filme, isso já é uma "baixa" ou fatalidade. Pouco há a fazer, mas talvez seja importante defender o trabalho de Parker Finn, realizador estreante que apresenta uma obra de terror com dotes autorais e um conceito de perturbação psicológica a tentar sair da caixa. Sorri não é nenhuma obra-prima mas um bom exemplo de uma possibilidade do próprio género abordar questões de saúde mental com alguma originalidade, desde as metáforas de estarmos todos loucos às próprias limitações da psiquiatria moderna.

A protagonista da história é uma médica psiquiátrica que depois de ver uma paciente a suicidar-se à sua frente começa a ter sintomas de uma alucinação. Alucinação ou maldição... Aos poucos compreende que ao testemunhar aquele suicídio poderá estar a entrar numa cadeia mortal, uma força do mal que a faz ter visões e a entrar num esgotamento com contornos de psicose aguda. Juntamente com o ex-companheiro, um polícia que ainda está apaixonado por ela, pesquisa as anteriores vítimas dessa maldição - todas acabam sempre com uma possessão de um espírito que as levam ao suicídio.

De uma certa forma, Smile está construído e guiado por uma fórmula algo estanque de conceito de terror industrial. As pistas para essa fórmula são metidas a martelo, não têm fator surpresa, mas a novidade é a boa "sabotagem" que a um outro nível a câmara de Finn propõe. É daqueles casos em que o pitch original acaba por ser desconstruído por um cineasta que propõe uma nova ordem. Cinema de autor capaz de abordar uma metáfora dos traumas psicológicos de uma sociedade adormecida e com um estilo de narração muito próprio, convocando uma coreografia de silêncios e gestos minimais, mesmo quando deixa à vista dispositivos de máscaras na ordem do espetáculo circense e nas quais se desenvolve um imaginário à Guillermo Del Toro. Pena somente que esses monstros da mente cedam numa reconfiguração do engenho mais automático da série Final Destination. Mas dentro da norma de que a morte vai sempre apanhar-nos o filme está sempre mais próximo de exemplos como Vai Seguir-te ou The Ring, sem nunca deixar de ser tremendamente eficiente na técnica dos sustos de salto na cadeira, os chamados "jump scares".

dnot@dn.pt

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