"Hoje não temos medo de morrer de fome. Temos medo daquilo que comemos"

O filosofo francês esteve a conversa com Joana Vasconcelos no atelier da artista, em Lisboa. Homem sempre atento ao tempo que o rodeia, deixou um pouco do seu olhar sobre o mundo.

A profissão de Gilles Lipovetsky é resolver problemas. O filósofo francês esteve esta sexta-feira no atelier de Joana Vasconcelos, em Lisboa, onde falou da relação (histórica) entre o luxo e a arte, a cultura, a educação, mas também sobre a mulher. A artista plástica - que também resolve problemas... -, juntou-lhe a dimensão do sonho: "o luxo é muito importante na ideia de desejo, de algo que não existe no dia-a-dia".

Há uma cumplicidade nesta dupla. Joana diz que se sente a fazer "aquilo que o Gilles pensa" na medida em que traduz nas suas peças "um espírito contemporâneo". O filósofo elenca raciocínios sobre o mundo que nos rodeia. "Não penso que exista uma diferença fundamental entre o artista e o intelectual", diz ele. "Trata-se de resolver problemas. Uns resolvem através de conceitos, outros utilizam formas e sons".

O atelier da artista - o "templo magnífico de Joana", nas palavras de Lipovetsky - estava repleto de ouvintes da conversa que fluiu em francês (com tradução simultânea). A iniciativa, organizada no âmbito do programa executivo de Gestão do Luxo da Católica Lisbon School of Business & Economics (que cumpre este ano a 12ª edição), tinha entradas limitadas, mas foi havendo sempre lugar para mais um. Enquanto fluíam as ideias do filósofo, passavam num ecrã várias imagens de obras da artista. Entre as quais, Marilyn (2009), o par de sapatos gigante feito de panelas faz a capa do mais recente livro do pensador ("Agradar e Tocar - Ensaio sobre a Sociedade da Sedução", Edições 70, 2019).

Antes, Gilles Lipovetsky, 74 anos (a poucos dias dos 75), sentou-se numa cadeira cravejada de peluches, na sala da artista. Sorriu para as fotos, e encontrou uns minutos para responder às perguntas do DN.

Há 36 anos, em 1983, no seu livro "Era do Vazio" perspetivava - e cito-o - "uma sociedade flexível assente na informação e na estimulação das necessidades". Mas depois, nos anos 2000, apareceram as redes sociais. De que forma as redes sociais mudaram o cenário, era para si previsível que tal acontecesse?
O surgimento das redes sociais é a continuação desse narcisismo. Vemos que muitas pessoas nas redes sociais o que fazem? Falam de si. Mostram as suas fotografias, esperam os gostos dos outros, esperam que os valorizem. Nas redes sociais temos muito pouca discussão, não há debate sério. É contar a viagem, o filme que viu, o passeio de domingo com as crianças. As redes sociais tornaram-se um teatro onde os indivíduos se põem em cena eles próprios. Na altura em que escrevi "Era do Vazio", evidentemente não havia as redes sociais, mas havia outras formas de narcisismo, como a obsessão pelo corpo - isso continua, mas as redes sociais acrescentaram-lhe um tipo de narcisismo através da imagem, onde as pessoas se apreciam, é um narcisismo numérico. As redes sociais são instrumentos de valorização do eu. Uma mise en scène do eu.

E há o fenómeno das selfies. Quando o vê surgir, pensa que é a confirmação daquilo que tinha pensado?
Sim, isso estende o que já tinha sentido há muito tempo, da cultura narcísica do nosso tempo. Mas ao mesmo tempo, o enquadramento mudou. Acredito que o ambiente em que escrevi esse livro já não é o nosso. Os anos 80 eram uma época de libertação. No início dos anos 80 libertávamo-nos do poder, da tradição, da religião, da família. Hoje já não nos libertamos disso. Hoje temos medo.

Temos medo de quê?
Da insegurança, que abrange tudo. O trabalho, a vida afetiva, a vida familiar, a identidade das pessoas. Vivemos num clima de permanente procura de proteção. Na altura da "Era do Vazio" era uma época de libertação.

Essa necessidade de proteção vem de onde, hoje em dia?
Existe um quadro cultural, político, religioso, familiar que traz uma insegurança interior às pessoas. Antes éramos agricultores, por exemplo. Vivíamos no campo. Éramos católicos, não se punham questões, nascemos católicos como os nossos pais, a nossa identidade era a nossa aldeia. O gosto, era o gosto dos costumes. Havia grandes preocupações, havia medo também. Mas não era medo de insegurança pessoal, era um medo talvez da guerra, da doença. Hoje são outros os medos, porque a mundialização, o capitalismo, o individualismo aboliram todo o sistema de proteção simbólica. Isso explica a escalada dos populismos na Europa, as pessoas têm medo. Por isso aproximam-se de demagogos que lhes dizem que eles foram traídos e lhes vão trazer segurança. É um problema de várias democracias.

Outra questão, sobre a qual gostava de o ouvir, é a ecologia...
...é outro medo! Falamos do clima, do aquecimento global, anunciamos que determinados prognósticos avançam, que haverá sem dúvida 270 milhões de pessoas de deverão deixar as suas casas... Catástrofe absoluta! A insegurança conquistou também a alimentação. As pessoas agora são informadas pela imprensa, pelos media. Temos medo daquilo que comemos. Por causa do cancro, do coração, está poluído, há organismos geneticamente modificados, portanto a insegurança ganhou a dimensão da alimentação. Hoje não temos medo de morrer de fome. Temos medo daquilo que comemos.

Mas pelo que leio, e mesmo com este cenário, é um otimista.
Sim! Sou otimista porque penso que temos ferramentas para nos adaptarmos. Creio que a crise que atravessamos deverá conduzir-nos não a moralizar as pessoas, porque nisso não acredito. Mas há duas coisas: uma, uma ação mais forte dos estados com leis que regulem as coisas, ainda há muitas ilegalidades, há que fixar normas; Em segundo lugar, a investigação deve desenvolver-se e permitir aos homens encontrar soluções técnicas para os problemas da nossa época. Porque não é recusando-nos a apanhar um avião que vamos fazer recuar as ameaças ao planeta. Há demasiadas pessoas. É preciso encontrar soluções técnicas. É preciso fazer uma transição energética, é preciso substituir as economias do carbono, por uma economia que respeite o ambiente. Mas isso é a inteligência humana que vai ter de encontrar soluções. Não é só dizer a toda a gente para parar de comer carne. Isso está bem, mas não é o suficiente. A inteligência dos homens vai encontrar a solução e não a mortificação, o 'deves deitar o teu smartphone para o lixo e andar de bicicleta'. Está muito bem andar de bicicleta, mas não está à altura dos problemas do planeta!

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