HMB: "Os músicos também podem estar em teletrabalho"

Três anos depois, o grupo da linha de Sintra está de regresso com Melodramático, um trabalho sobre "a travessia de algumas crises pessoais", que hoje, como afirma ao DN o vocalista Héber Marques, são "facilmente adaptáveis à realidade de muitos fãs".

São uns HMB diferentes os que se apresentam nas primeiras faixas de Melodramático, o novo disco do quinteto composto Héber Marques (voz), Fred Martinho (guitarra), Daniel Lima (teclas), Joel Silva (bateria) e Joel Xavier (baixo). Ao contrário da festa dos álbuns anteriores, em especial quando comparado ao muito bem-sucedido +, de 2017, que incluía o êxito O Amor é Assim, em dueto com a fadista Carminho, este trabalho revela uma faceta menos conhecida do grupo da linha de Sintra, mais introspetiva e menos luminosa, mas também demonstra uma capacidade de arriscar e de experimentar, tanto nas temáticas como na sonoridade, apenas ao alcance de grandes bandas.

Melodramático é assim apresentado pela banda como uma espécie de disco conceptual, que narra "a história de uma viagem de alguém que se perdeu e depois se encontra", num "percurso duro mas essencial para o crescimento e para uma maturidade mais sábia". Uma temática, portanto, em tudo coerente com os tempos atuais, mas que segundo o vocalista Héber Marques "é apenas inspirado nas vivências pessoais" dos membros do grupo. "O ano passado não foi propriamente o período mais feliz para alguns de nós, ainda mal sabíamos nós o que nos esperava em 2020", diz o músico ao DN.

Ao longo das 11 faixas do álbum, que conta com a participação de convidados como Dino D"Santiago, Papillon e Inês Castel-Branco, o ouvinte é convidado a embarcar numa viagem musical iniciada numa toada mais introspetiva, depois concluída num ambiente mais familiar aos HMB, feito de um equilíbrio perfeito entre funk, soul e pop. O objetivo, esclarece o vocalista, é transportar-nos "da noite para o dia, da escuridão para a luz, da dúvida para redenção, do egoísmo para o altruísmo".

E por ser um álbum tão pessoal também não foi o mais consensual na banda, como reconhece o músico: "Houve algumas discussões entre nós, se este seria o caminho certo, mas depois decidimos que era mesmo para avançar, para podermos partir noutra direção já livres desta carga". E quando terminaram o processo de composição e gravação até chegaram à conclusão que tinha material a mais, pelo que esse novo caminho poderá surgir muito em breve: "Antes da quarentena já nós estávamos completamente isolados de tudo e de todos para concluir este disco. E no final ficaram muitas músicas de fora, por não se enquadrarem tanto neste conceito, e que são quase são outro disco praticamente feito. Portanto, possivelmente, muito em breve haverá mais novidades."

A edição estava inicialmente prevista para o final de março, mas com a chegada da pandemia, porém, o primeiro impulso foi adiar o lançamento do disco, "talvez para setembro ou até mesmo para 2021", mas depois chegaram a conclusão que "fazia muito mais sentido agora". Pela temática "alento" do álbum, mas também por ser um tempo em que as pessoas "têm muito mais tempo para ouvir um disco" do princípio ao fim. "Este disco é o resultado de uma viagem que fizemos no meio das nossas crises e agora estamos a viver uma crise comum. Tal como aconteceu connosco, ao olharmos todos para trás, daqui a uns anos, vamos ver que sobrevivemos e se calhar até estamos mais aptos à felicidade", realça.

Certo é que é uma banda muito mais madura, a que se apresenta em Melodramático, muito embora esta palavra não seja a preferida de Héber Marques: "Prefiro dizer que estamos mais adultos, porque com o passar dos anos também vamos polindo alguns pormenores na nossa música e acrescentando outros". Desta vez, assume, quiseram "experimentar coisas novas", como misturar os instrumentos acústicos com toda a maquinaria e tecnologia que hoje está disponível em estúdio. É no entanto ao vivo, perante o público, que se sentem no seu elemento natural. "Temos aprendido muito em palco, somos assumidamente uma banda de palco. É aí que experimentamos tudo o que mais tarde acabamos por trazer para o estúdio", sustenta.

À data do início do estado de emergência, os HMB já tinham "cerca de 20 espetáculos marcados", incluindo uma atuação no Rock in Rio, entretanto todos eles adiados ou cancelados, tal como a festa de apresentação de Melodramático, que era suposto reunir fãs e imprensa para assistir a uma atuação ao vivo da banda. "Além de os concertos serem hoje a maior fatia dos nossos rendimentos, como aliás de todos os músicos, há o lado do contacto direto com o público, da reação imediata à nossa música, sabemos logo se estão a gostar ou não. Sentimos muita falta desse cara a cara, porque, quando estamos em palco, sabemos que conseguimos chegar ao íntimo de quem está à nossa frente, enquanto nas redes sociais isso já não é possível".

Mesmo assim, é nas redes sociais que os fãs da banda hoje podem matar saudades dos HMB, em rubricas como a Distância de Segurança, recentemente criada na página de Facebook da banda, na qual têm apresentado alguns dos novos temas e até receberam convidados como Diogo Piçarra. Ou, como conclui Héber Marques, "percebemos que os músicos também podem estar em teletrabalho".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG