Gaspar Varela, o prodígio da guitarra portuguesa

Com apenas 15 anos, o bisneto de Celeste Rodrigues já editou um disco em nome próprio e estreia-se esta noite no Senhor Vinho. Em março apresenta-se a solo na discoteca Lux, em Lisboa.

Estão sentados, frente a frente, o mestre e o aprendiz. Ou antes "o professor e o aluno", como de imediato corrige Paulo Parreira, 49 anos, um dos mais reconhecidos intérpretes de guitarra portuguesa, acompanhante de nomes como Gisela João, António Zambujo, Camané, Carlos do Carmo ou Maria da Fé e um dos guitarristas residentes na icónica casa de fados Senhor Vinho, onde hoje à noite será substituído pelo adolescente de 15 que tem à sua frente. Conhecem-se bem e Paulo não tem dúvidas: "Está completamente à vontade para tocar no Senhor Vinho". Gaspar sorri, tímido e responde com reverência: "se o mestre o diz". "Mestre não, professor", interrompe novamente Paulo Parreira, "mestre só houve um, o Carlos Paredes".

Gaspar não consegue no entanto chamá-lo de outra forma, desde que, com apenas sete anos, se sentou em frente a Paulo, tal como está hoje, para começar a aprender a tocar guitarra portuguesa com um único desejo em mente, poder um dia acompanhar em palco a bisavó, Celeste Rodrigues. Aconteceu em 2015, no teatro São Luiz, aquando do concerto de celebração dos 70 anos de carreira da fadista e repetir-se-ia novamente no ano passado, no teatro Tivoli. "Sim, pode-se dizer que o meu gosto pelo fado é genético, porque sempre quis aprender guitarra portuguesa para um dia poder tocar acompanhar a minha bisavó. Entretanto tornei-me totalmente apaixonado por este instrumento", confessa. Paulo Parreira percebeu-o imediatamente, mal ouviu Gaspar tocar pela primeira vez: "Foi incrível, porque ao fim da primeira aula já conseguia tocar um clássico como o Fado das Horas. E na segunda aprendeu logo o Mudar de Vida. Vi logo que ia ser um grande guitarrista".

O gosto pelo fado nem sempre foi compreendido pelos amigos, especialmente na antiga escola, onde "o rap e o hip-hop eram muito mais populares", recorda com humor. Mudou-se entretanto para um estabelecimento de ensino mais direcionado para artes, para estudar tecnologias de produção musical e onde os novos colegas "adoram" agora ouvi-lo tocar. Mas não são só eles, como se comprovou a 24 de novembro do ano passado, quando atuou a solo no palco do CCB, em Lisboa, a convite do Museu do Fado. O espetáculo serviu para apresentar o álbum de estreia em nome próprio, Gaspar, editado no final do passado, também através do Museu do Fado, e no qual interpreta 12 temas de autores como Carlos Paredes, Jan Tisky, Jaime Santos ou José Nunes, mas também uma composição sua, Lisboetas, escrita a meias com o irmão, Sebastião Varela.

Paulo Parreira também estava lá nessa noite e recorda, comovido, "um grande concerto". Gaspar sorri novamente, perante o elogio do professor, que não se fica por aí. "Tem sido muito fácil ensiná-lo, porque estuda e interessa-se. Há muito poucos como ele, porque além do enorme talento que tem, também é muito bom miúdo. No CCB tudo correu muito bem, porque o Gaspar toca como se já o fizesse há décadas. Tem uma alma enorme, ao nível de um Carlos Paredes, diria mesmo". O riso de Gaspar torna-se agora mais nervoso: "Eu não sinto isso, mas se o mestre o diz. É sempre bom ouvir isso da boca uma das maiores referências da guitarra portuguesa, como é o Paulo".

Do CCB, Gaspar recorda também o nervosismo que sentiu, sentido antes de subir ao palco: "Passou-me quando pensei que todo aquele público estava lá só para me ouvir, não os podia desiludir". Tal como agora se sente, ao saber que vai substituir o mestre, numa das mais famosas casas de fado lisboeta. "Agora sinto o nervosismo da responsabilidade, porque vou estar a substituir um dos melhores naquilo que ele faz todos os dias. Se calhar ainda lhe vou roubar o lugar, Paulo", provoca, arrancando uma gargalhada ao professor.

Gaspar gosta de acompanhar fadistas, "pelo desafio de ter de responder e corresponder à voz", mas reconhece que, "a solo, consegue-se mostrar muito mais o que realmente é a guitarra portuguesa, enquanto instrumento". Quem o quiser ver tem agora uma nova oportunidade a 14 de Março, desta vez na discoteca Lux, em Lisboa, onde se vai apresentar novamente a solo, acompanhado por Francisco Gaspar no contrabaixo e no baixo, por André Ramos na viola de fado e por um convidado espacial, o saxofonista Ricardo Toscano, com quem irá fazer "uma abordagem mais jazzística" a alguns temas coimbrões. Aos 15 anos, Gaspar sabe que já saltou muitas etapas ou antes que já cumpriu "muitos sonhos", como o próprio prefere dizer. E no topo deles todos está a oportunidade que teve de acompanhar a bisavó em palco. "Foi o melhor que me aconteceu na vida", assume. Mais uma vez, Paulo Parreira sorri. Sabe que o pupilo tem a vida inteira pela frente e que este "tem tudo na mão para ser o grande concertista da guitarra portuguesa". O caminho está aí, todo em aberto para ele.

Gaspar Varela

Hoje, no Senhor Vinho

Lux Frágil, Lisboa. 14 de março, quinta-feira, 22..30. €10

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