ESTREIAS: Tragédia grega em paisagem espanhola

Petra, de Jaime Rosales, começa por ser a busca de uma mulher pela identidade do seu pai, mas o quadro dramático é uma "pintura" mais complexa do que a interrogação de partida. Em estreia.

Chega-nos do país vizinho um olhar fino e telúrico. Sob o signo da paisagem natural da região de Girona, na Catalunha, a história de Petra - uma aspirante a artista plástica que nunca conheceu o pai - vai ganhando forma em "pinceladas" ora serenas, ora bruscas, que agarram o espectador pelo enigma que encerram a cada movimento. Ela, a heroína, acaba de chegar à propriedade de um artista renomado, Jaume (Joan Botey, ator que se estreia no grande ecrã e que é, de facto, o dono do terreno onde a maior parte do filme acontece), e aí se instala para uma residência artística que acaba por revelar-se consequência da sua demanda íntima e secreta...

Apresentando-se com esse motivo da busca de identidade - que é também a busca por um passado -, o novo trabalho de Jaime Rosales (n.1970), um dos mais respeitados nomes do atual cinema espanhol, tem a refinada aptidão de contornar, desde logo, quaisquer lugares comuns do (melo)drama. As personagens entram em cena como esboços humanos cujos contornos se definem à medida que o seu lugar nesta tragédia grega assume intensidade. Todas elas contam para a trama, e nenhuma sai ilesa: para além de Petra, interpretada por uma Bárbara Lennie plena de sobriedade (vimo-la há pouco tempo em Todos Sabem), temos a veterana Marisa Paredes no papel da amarga mulher de Jaume, Alex Brendemühl como Lucas, o filho de ambos, e mais três membros de uma família que trabalha na propriedade, e que será a chave para certas transições da narrativa.

Chamamos-lhe transições porque Petra é um filme literalmente construído a partir de blocos narrativos enumerados em capítulos com legendas (algumas delas sem preocupações quanto à gestão do fator surpresa), e sem uma sequência linear. Por exemplo, tudo começa no capítulo dois, quando a protagonista se introduz no ambiente familiar de Jaume, segue-se o terceiro capítulo e só depois se volta ao primeiro para avançar para o quarto - pelo meio há mais trocas... No trajeto, vamos conhecer a mãe doente de Petra, a relação que esta última, por sua vez, estabelece com Lucas, o filho do artista, as tenebrosas nuances psicológicas desse patriarca - que é tudo menos um mestre íntegro - e, a envolver todas as personagens, damos com uma arquitetura de mentiras que vai desabando progressivamente.

É nesse gesto lento, a todos os níveis traduzido no movimento da câmara de Hélène Louvart (diretora de fotografia), que Petra encontra a sua epidérmica sugestão dramática. Percorrendo os espaços, sobretudo interiores, com uma suavidade fantasmagórica, entre portas e corredores, a lente dá-nos a sensação de estar a auscultar a intimidade humana ao mesmo tempo que impregna a atmosfera de uma força oculta. E da conjugação da elegância visual com a secura da abordagem nasce um filme comparável a uma muito bem forjada peça contemporânea, que tem a própria arte e o passado como palco: aí o corpo de Petra dá-se a ler numa síntese de contenção e desassossego.

Por falar em passado, não será um apontamento menor o facto de a personagem de Lucas, com a profissão de fotógrafo, estar envolvido em escavações que trazem à luz do dia restos mortais de vítimas da Guerra Civil de Espanha. Há no filme de Jaime Rosales uma urgência subtil, uma vontade de sondar a complexidade humana através de erros do passado que ecoam no presente. E também por isso, este é um objeto de cinema tão robusto quão murmurante.

*** Bom

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