ESTREIAS: Falar ou não falar, eis a questão

Inspirado num caso verídico, Segunda Vida faz o retrato de um homem que, na sequência de um AVC, perde o uso normal da fala - o grande trunfo do filme é o trabalho do actor Fabrice Luchini.

E se nos faltasse a mais básica capacidade de comunicar pelas palavras? É esse o drama vivido por Alain Wapler, presidente de um grande grupo automóvel francês e personagem central do filme Segunda Vida.

A vida agitada de Wapler vai cobrar-lhe um preço cruel (aliás, teria sido mais lógico traduzir à letra o título original: "Um homem apressado"). Depois de vários sinais de cansaço e instabilidade comportamental, sofre um AVC que vai alterar por completo a sua existência. Os sinais de recuperação física até são animadores, mas Wapler dá mostras de uma limitação perturbante, mesmo quando se manifesta através de detalhes quase burlescos: as palavras saem-lhe confusas e baralhadas, exprimindo-se por frases completamente absurdas.

Realizado por Hervé Mimran, também responsável pelo argumento, Segunda Vida inspira-se no caso verídico de Christian Stieff, ex-director geral do grupo Peugeot. Stieff viveu uma situação semelhante, vindo a recuperar através de um metódico e muito exigente processo de terapia da fala. Em boa verdade, o que está em jogo excede a boa articulação das palavras: trata-se de refazer todo um sistema de relações humanas, envolvendo necessariamente as mais delicadas questões familiares e profissionais.

É pena que o filme insista em transformar a sua história numa espécie de fábula "redentora" sobre a resistência à adversidade. Dir-se-ia que a experiência humana vai sendo encerrada num determinismo "simbólico" que limita o alcance dos resultados. A introdução da história "paralela" da terapeuta da fala que acompanha Wapler é mesmo sintomática de uma banal gestão narrativa dos elementos dramáticos.

A odisseia do protagonista, por vezes pontuada por insólitas derivações humorísticas, acaba por depender, no essencial, da composição do ator principal: Fabrice Luchini consegue apresentar-nos um Wapler que tem tanto de trágico como de irónico, sem nunca banalizar a sua dimensão humana. Neste aspecto, não se pode dizer que haja qualquer surpresa. No panorama artístico francês, Luchini é um dos mais prestigiados veteranos do cinema e do teatro, e conhecemo-los desde os tempos heróicos em que trabalhou em vários filmes de Eric Rohmer, incluindo Perceval le Gallois (1978), A Mulher do Aviador (1981) e Noites de Lua Cheia (1984). Como se prova em Segunda Vida, as suas qualidades permanecem intactas.

** Com interesse