ESTREIAS: Diz-me como "twitas", dir-te-ei quem és...

Como nos relacionamos, ou julgamos relacionar, através das redes do mundo virtual? Desta vez, a pergunta surge relançada num filme português, "Linhas Tortas", assinado por Rita Nunes.

O filme português Linhas Tortas distingue-se por uma indesmentível atualidade temática e simbólica: os seus protagonistas, António (Américo Silva) e Luísa (Joana Ribeiro), conhecem-se no Twitter e, através das mensagens partilhadas, vão consolidando aquilo que parece ser uma genuína relação humana.

Afinal de contas, vivemos num planeta em que o homem mais poderoso do mundo utiliza o Twitter como o seu principal instrumento de comunicação... O que nos pode conduzir a uma observação desconcertante: quando aplicamos a expressão "rede social", quase sempre nos esquecemos de lançar a pergunta mais básica. Ou seja: "twitar" é uma forma de conhecer o outro, ou apenas a criação de um fantasma que nos acolhe? Ou ainda: de que sociedade falamos, ou que sociedade estamos a construir, quando tudo ou quase tudo acontece "em rede"?

O filme realizado por Rita Nunes, tendo como base um argumento de Carmo Afonso, não é uma "tese" sobre o assunto. Não tinha que ser, como é óbvio. Seja como for a partir de certa altura, nele se confunde a sugestão (mais ou menos elíptica) do que vai acontecendo com a possibilidade de intensificação dramática - creio que as cenas finais perdem, por causa disso, alguma vibração. E também não terá sido muito feliz o facto de a sinopse oficial do filme revelar o percalço que acontece nas relações entre António e Luísa (quando o filme já cumpriu metade da sua duração...).

Estamos longe do trabalho de alguns filmes que têm discutido de forma contundente a decomposição das relações humanas através do novo "social". Penso, em particular, nos notáveis e muito pouco conhecidos Desligados (2013), de Henry Alex Rubin, e Homens, Mulheres e Crianças (2014), de Jason Reitman. Isto sem esquecer, claro, esse prodigioso objeto que é A Rede Social (2010), de David Fincher, com argumento de Aaron Sorkin, em que se mostrava, por A+B, como o conceito de negócio do Facebook não era exatamente a derradeira encarnação do humanismo clássico. Que tal filme tenha sido produzido, não num qualquer circuito "independente", mas no coração de Hollywood, quinze anos antes da revelação do escândalo em torno da Cambridge Analytica, eis o que não dá muito jeito aos puristas de todos os quadrantes... C"est la vie.

Entenda-se: semelhantes comparações servem para contextualizar o universo temático em que Linhas Tortas se apresenta, não para diminuir o valor simples, mas essencial, da sua contribuição. A saber: por uma vez, na sua assumida austeridade dramática, um filme português coloca em cena personagens de um quotidiano em que nos podemos reconhecer, sem ceder aos estereótipos moralistas e "metafóricos" do espaço telenovelesco. Não é muito frequente, mas quando acontece importa sublinhá-lo: há mais mundos para além das rotinas televisivas que desistiram de pensar a possibilidade de diversificação das ficções audiovisuais.

Nesta perspectiva, é particularmente sugestivo o minimalismo que marca o trabalho de todos os elementos do elenco, com inevitável destaque para os dois protagonistas. Ambos surgem marcados e, num certo sentido, assombrados por um vínculo "social" abstracto: os corpos são, afinal, os despojos humanos dos desejos que circulam pela paisagem virtual.

Destaque-se também a sobriedade da direção fotográfica de Manuel Pinho Braga. Na verdade, o tratamento da luz cinematográfica não pode (e, a meu ver, não deve) ficar refém das convenções de iluminação que servem normalmente para as situações específicas de um estúdio de televisão. E não será preciso evocarmos a história gloriosa da fotografia no cinema, de Rudolph Maté a Robert Richardson, para justificar tal procedimento. Acontece que a fotografia não é um mero efeito "decorativo", antes uma forma de mostrar e problematizar as personagens, expondo a sua humanidade.

Outras estreias:

TOY STORY 4 - Será surpreendente, mas é um facto: ao contrário de outras "franchises" da atual produção americana (em particular no domínio dos super-heróis da Marvel), a história dos brinquedos que têm vida persiste... e resiste. O quarto capítulo das aventuras de Woody (Tom Hanks) e Buzz Lightyear (Tim Allen) é uma festiva reinvenção do universo da fábula, tecnicamente irrepreensível, dramaticamente sofisticada.

YESTERDAY - Convenhamos que o novo filme de Danny Boyle não sabe muito bem como encontrar um final adequado ao seu delírio... Seja como for, a premissa é irresistível: o mundo não sabe que os Beatles existiram e um jovem cantor (Himesh Patel) constrói uma carreira cantando Yesterday, Let It Be, The Long and Winding Road, etc., etc., etc. - insólito, divertido, contagiante.

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