'A Favorita' traz de volta a História aos cinemas

Releia a crítica ao filme que é um dos mais nomeados dos Óscares deste ano.

De que falamos quando falamos de cinema histórico? A pergunta justifica-se, uma vez mais, perante a estreia de A Favorita, de Yorgos Lanthimos. Com grande presença na corrida aos Óscares (dez nomeações, incluindo melhor filme do ano), a evocação de Ana de Inglaterra, no começo do século XVIII, está longe de ser um grande feito cinematográfico.

Lanthimos é um formalista sem grande imaginação e, dois anos depois de O Sacrifício de um Cervo Sagrado, a mais gratuita ostentação formal continua a condicionar os resultados do seu trabalho. Em qualquer caso, nos tempos que correm, e para além do talento das atrizes - Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz -, há algo de libertador no facto de um filme que se quer de grande espetáculo recorrer a personagens de carne e osso, não a super-heróis digitais.

E porque é de "cinema histórico" que falamos, justifica-se que recordemos aquela que foi a primeira super-produção assinada por Stanley Kubrick: Spartacus (1960) acaba de reaparecer no mercado do DVD, permitindo-nos revisitar um tempo em que Hollywood também apostava nos grandes meios para chamar os espectadores às salas escuras, embora, convenhamos, quase sempre com outra agilidade formal e inteligência narrativa.

A encenação épica da revolta do escravo Spartacus (Kirk Douglas, também produtor do filme) contra o Império Romano é um exemplo modelar de um cinema que, na sua época, face à generalização dos televisores caseiros, celebrava as potencialidades do grande ecrã (Spartacus surge numa coleção "Vintage Art", com chancela dos estúdios Universal).

Enfim, registemos também o aparecimento de dois filmes perdidos noutras práticas de ostentação e redundância. Clímax, do francês Gaspar Noé, confirma o seu gosto pelas pequenas anedotas mais ou menos "provocatórias": esta é a crónica de uma festa de bailarinos que acaba mal (porque alguém colocou uma substância alucinogénica na sangria...). Ou como há quem, na falta de ideias, opte por agitar muito a câmara, afinal sem saber o que filmar - nem como filmar.

No caso de Cafarnaum, de Nadine Labaki, está em jogo a tragédia de pobreza e sobrevivência de uma criança nas ruas de Beirute. Sob a capa da denúncia política (?), Labaki explora uma certa "fotogenia" da miséria que, em última instância, só se interessa por efeitos de choque à maneira de certos clips televisivos. Cafarnaum está nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro, o que, além do mais, envolve uma informação importante para o leitor destas linhas. A saber: a minha perspectiva muito severa sobre Cafarnaum está longe de ser universal. C"est la vie.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG