Essencial Almodóvar para devorar na HBO

Oito filmes de Pedro Almodóvar para serem vistos ou revistos em streaming. São oito clássicos de um cineasta iconoclasta e voz singular do cinema mundial. Com os cúmplices Marisa Paredes, Penelope Cruz, Banderas e Victoria Abril.

Afigura-se como uma caixa de doces escondidas. A HBO Portugal não fez muito barulho por esta espécie de oferenda aos muitos fãs do maior cineasta espanhol: oito filmes do seu mais aclamado período. Oito obras que servem como aperitivo a A Voz Humana, a sua curta-metragem em inglês que tem estreia marcada nos cinemas mal as salas possam abrir. A saber: Negros Hábitos (1983), O Que Fiz Eu para Merecer Isto? (1984), A Lei do Desejo (1987), Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Saltos Altos (1991), A Flor do Meu Segredo (1995), Em Carne Viva (1997) e Voltar (2006).

Trata-se de um pedaço forte de uma obra que cruzou um imaginário feminino e da movida madrilena. Longas-metragens que fizeram de Almodóvar um ícone dentro e fora de Espanha, um cineasta que habilmente se tornou um caso de prestígio para um público vasto e para a crítica, sobretudo a crítica mais internacional. Deu salero à comédia à espanhola e reconfigurou um melodrama como género confessional, mas também edificou numa amplitude majestosa o conceito da musa.

A ideia da chica Almodóvar não é apenas um tag da imprensa, é uma invenção prodigiosa que se confunde com uma sincera homenagem a todas as mulheres independentes e de fibra, algo que faz que o cineasta possa ser elogiado por se ter tornado um ícone cultural de toda a reatividade espanhola do pós-franquismo, sobretudo por ter trabalhado a complexa questão da identidade espanhola, algures entre a forte herança católica e um desejo de transgressão. Provavelmente por isso, as suas mulheres são de extremos. Riem-se com alma, choram com garra e gritam de prazer e fúria. E é precisamente nessa fúria espanhola que o cineasta joga com os extremos - tanto pode permitir uma piada com efeitos hilariantes como criar momentos da mais pura tristeza, sendo certo que a dor das suas mulheres é quase sempre manifestamente em modo de excesso. Um tudo ou nada que evita o lugar-comum da caricatura por ser humano no seu olhar. Almodóvar está do lado das suas chicas e dá a mão aos seus homens desesperados.

Curiosamente, neste leque do tesouro da HBO temos o exemplo do Almodóvar jovem e "em carne viva", mas também o embate com a sua versão mais "madura" e mais atenta aos fundamentos clássicos do drama. Quem voltar agora a Que Fiz Eu para Merecer Isto? ou a Negros Hábitos sentirá uma energia em estado bruto, um prazer de filmar com carga punk espantoso. No caso de A Lei do Desejo, o que fica à vista é um caso de pulsão sexual sem igual. Podemos mesmo falar em efeito nostálgico para o espetador e é seguro afiançar que esses filmes não são peça de porcelana de relíquia: envelheceram bem e continuam excitantes, além de terem uma função extra: mostrar personagens extremos e marginais com as quais o cinema espanhol não tinha o desplante para lidar...

Os que voltarem ao embate com um título como Voltar terão outro tipo de prazer, nem que seja a gratificação do esplendor do melodrama clássico e com referências cinéfilas, neste caso a um período do neorrealismo italiano: ficamos a olhar para a prodigiosa Penélope Cruz como olhávamos para Anna Magnani ou Sophia Loren.

Uma depuração de género que terá tido ainda um ponto mais alto em Tudo sobre a Minha Mãe e Fala com Ela, dois títulos que não entram nestas contas.

Os 8 filmes

Negros Hábitos
Um convento em Madrid com freiras lésbicas. Divertimento fetichista... Nessa altura, Pedro Almodóvar fazia um cinema de contracultura. Porventura, um dos seus filmes mais provocadores.

O Que Fiz Eu para Merecer Isto?
Das obras mais hilariantes de Almodóvar, um olhar para uma dona de casa embrulhada na sua neura familiar. Mais do que nunca, sentia-se um à-vontade na sua câmara para aprofundar um golpe satírico na observação da Espanha dos anos 1980... E é bom olharmos para a secundária Chus Lampreave com outros olhos.

A Lei do Desejo
Almodóvar pode ser também um cineasta com uma perversão sexual forte. Aqui consegue ser mesmo negro numa história que envolve as desventuras de um cineasta gay na movida madrilena. A sua mise en scène ainda com uma secura tosca que era imagem de marca.

Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos
Comédia de equívocos num retrato cáustico e excêntrico sobre a "mulher moderna" espanhola. Carmen Maura era maravilhosa como atriz fetiche de Almodóvar. Foi este o filme da sua consagração internacional (em Portugal esgotava sessões...) e chegou a ser nomeado ao Óscar de melhor filme estrangeiro.

Saltos Altos
O lugar da mãe pela primeira vez em destaque na sua obra. É um dos seus filmes mais fetichistas. Esta história sobre uma mãe desaparecida confirmava Victoria Abril como um dos grandes talentos espanhóis.

A Flor do Meu Segredo
Mais sóbrio e com desvios para o melodrama... Marisa Paredes sublime!

Em Carne Viva
Almodóvar a adaptar Ruth Rendell num conto sobre vingança que se torna um thriller erótico poderoso. Uma das suas obras-primas com um Javier Bardem genial. O cinema policial a ser descodificado...

Voltar
Um melodrama sentimental com fantasmas que deu a Penélope Cruz uma nomeação ao Óscar.

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