Equipa que filmou documentário candidato aos Óscares está sob acompanhamento médico

A equipa de produção do documentário The Cave, nomeado para Óscares na categoria Melhor Documentário, continua a receber terapia após ter estado a filmar num hospital na Síria durante o cerco de Goutha.

Nomeado para os Óscares, The Cave é um documentário centrado na médica pediatra Amani Ballour, que foi eleita pelos colegas para administrar o hospital em Al Ghouta, região cercada por Bashar al-Assad durante cinco anos, por ser um reduto das forças de oposição ao presidente sírio. O título (que significa A Caverna) refere-se ao nome dado ao hospital, praticamente construído debaixo da terra pelos resistentes durante o cerco, com o objetivo de salvar o maior número de vidas possível.

The Cave é um projeto inspirado na capacidade de resistência dos indivíduos em situações de crise em que o realizador quer "que olhemos nos seus olhos e vejamos que são pessoas, que têm sonhos e esperança de um futuro melhor, em especial as mulheres", disse Dyekjær.

Mesmo numa situação trágica de guerra e morte, a liderança de Amani Ballour é tratada com resistência por parte de homens que ainda acreditam que o lugar das mulheres é em casa, situação que Feras Fayyad quis expor. Com o crescente bombardeamento a hospitais, o regime deu aos médicos a possibilidade de fugirem, mas para Amani e os demais, essa opção estava fora de questão. "É preciso entender que ser médico é uma vocação e Al Goutha era a área onde Amani praticava medicina. Por isso conhecia muitas das famílias e das crianças. Ela não queria ir-se embora, queria ficar e ajudar a sua gente", explicou Dyekjær.

A escassez de comida e medicamentos foi-se agravando à medida que o regime bombardeava os túneis de ligação entre o mundo exterior e o hospital subterrâneo. As consequências do cerco, levaram à morte de alguns elementos da equipa que participou na produção. "As pessoas cavaram e construíram os túneis e Assad começou a perceber que havia alguém a salvar pessoas", explicou Sigrid Dyekjær, responsável pela Danish Documentary, que produziu o filme com Feras Fayyad.

"Tínhamos um terapeuta para a equipa, os editores, tradutores, o [realizador sírio] Feras [Fayyad]", salientou a produtora dinamarquesa Kirstine Barfod, numa intervenção pública em Los Angeles. "Ajudou-nos com ferramentas porque todos fomos afetados. Ainda estamos a receber terapia"."Não sabíamos se eles iam sobreviver", acrescentou Dyekjær.

Realizado à distância por Fayyad, que se encontrava exilado depois de ter sido preso e torturado na Síria, o documentário conta com imagens enviadas por uma equipa no local. O realizador já tinha sido nomeado para os Óscares por Os Últimos Homens em Alepo, que considerou ser uma versão masculinizada da guerra, e concebeu The Cave como "uma ode feminista, uma dedicatória a todas as mulheres na Síria", disse ainda Dyekjær.

Apesar de mostrar os ataques com armas químicas e constantes bombardeamentos aéreos entre 2013 e 2018, o foco do documentário não é o de tomar uma posição quanto à guerra. "A Síria é um local geopolítico no qual toda a gente tem interesses. A decisão do Feras foi de que o filme não tocaria nessas questões", explicou Sigrid Dyekjær.

Fayyad, que foi impedido de participar neste encontro porque o governo norte-americano lhe negou o visto temporário de entrada, "sente a resistência e o comportamento racista" todos os dias por ser sírio. Feras Fayyad apostou num documentário que possa ser visto pelos mais sensíveis, evitando mostrar os corpos mutilados, as operações de socorro após bombardeamentos e as crianças mortas, considerando que isso afastaria o público. Uma decisão que a médica Amani Ballour criticou.

A visão de Fayaad torna-se clara quando este, na cena final, mostra um avião de guerra e um navio afundados provenientes das duas guerras mundiais. "Não aprendemos nada com a História. Os sírios estão a fugir e a afogar-se e o mundo não quer saber", conclui Dyekjær.

A 92.ª edição dos Óscares decorre este domingo, madrugada de Lisboa, em Hollywood. O documentário estreia na National Geographic na véspera.

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