Emma Thompson ao estilo de Jimmy Fallon

Um talk show em queda de audiências, a sua anfitriã e uma guionista novata são os ingredientes de Programa da Noite, uma comédia com Emma Thompson em modo imperioso e magnificamente desagradável. Já disponível nos videoclubes.

Pense-se em Meryl Streep no filme O Diabo Veste Prada, troque-se esse ambiente editorial de uma revista de moda pelos bastidores de um talk show liderado por Emma Thompson e temos Programa da Noite (no original, Late Night). Esta nova aquisição dos videoclubes caseiros, que não passou pelas nossas salas de cinema, é a prova de que a atriz britânica, aos 60 anos, está decidida a valorizar a sua maturidade em papéis enérgicos. Vimo-la com uma expressão mais ou menos semelhante em A Balada de Adam Henry (2017), a interpretar uma juíza imersa no seu trabalho, e mais recentemente na série Years and Years, a fazer uma versão feminina de Donald Trump... Entre um e outro, protagonizou esta comédia de Nisha Ganatra.

Na pele de Katherine Newbury, a anfitriã de um talk show noturno, Thompson é uma estrela hollywoodesca, com um toque de arrogância britânica, que começa a ganhar pó no ecrã da televisão. O seu programa está a perder audiências e a substituição da comediante torna-se um horizonte quase inevitável. Contudo, a súbita decisão de contratar uma mulher para a equipa de guionistas - totalmente composta por homens - vem transformar, desde logo, o modo de trabalho. Até aí, a veterana Newbury, com 30 anos de casa, nunca tinha estado propriamente numa sala de reuniões com os seus colaboradores. E a partir do momento em que o faz, inaugura uma dinâmica que inclui essa particularidade do confronto inédito com outra visão feminina, a da principiante Molly (Mindy Kaling).

Na verdade, esta será também protagonista da história, já que Late Night é escrito e produzido pela própria Mindy Kaling, partindo da sua experiência como única mulher na sala de argumentistas da série The Office. No filme, entusiasmada com a oportunidade e vinda de um emprego numa fábrica de produtos químicos (o contraste é hilariante), ela começa por ser olhada com muita desconfiança por parte dessa equipa masculina que entende a sua contratação como um mero gesto simbólico de diversidade - isto não apenas por ser mulher, mas pela cor da pele que denuncia a ascendência indiana. Sem paciência para falsas subtilezas, Newbury não nega o fator inerente à contratação dela, esperando, apesar disso, que a novata aproveite a chance caída do céu. E claro que ela vai mostrar o seu valor, com todos os trambolhões típicos do percurso...

Eis então os dados lançados para uma comédia que explora o terreno da dificuldade de ser comediante, ainda mais do sexo feminino, funcionando como um ligeiro comentário subversivo de quem conhece bem as manobras do meio e a melhor maneira de lidar com esse meio. De resto, mesmo à realizadora, Nisha Ganatra, com um currículo sobretudo ligado à televisão, não é estranho este retrato. Talvez falte só algo mais do que uma abordagem de "feel-good movie" com piscadela de olho feminista para Programa da Noite suplantar a receita da automotivação. As boas ideias pairam por aqui mas acabam por não ser tão ousadas na concretização quanto poderiam ser.

Por sua vez, da parte de Emma Thompson nem um passo em falso. Este é um daqueles papéis que deliciam tanto o espectador quanto terá deliciado a atriz. Quando ela foi ao talk show de Jimmy Fallon, pouco antes da estreia do filme nos Estados Unidos, fez questão de dizer ao comediante: "Tudo o que sei sobre apresentação de talk shows, aprendi contigo". E aparte essa performance específica, Thompson representa brilhantemente a mulher furacão, que por trás da plasticidade do sorriso televisivo lida com a depressão da meia idade e um código íntimo que a faz resistir às demandas dos espectadores de hoje. É aí que vai operar a calorosa Molly, empurrando o registo do programa para algo mais "moderno", e o do filme mais para a simpatia da comédia romântica do que para um bem-vindo espírito incisivo e agridoce que atravessa algumas cenas ou diálogos. A pena de Mindy Kaling não enveredou o suficiente por aí... Caso para dizer que não se pode ter tudo, mas o show Emma Thompson merece a nossa atenção.

** Com interesse

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