E se uma mulher só pudesse dizer cem palavras por dia?

O romance Vox começou por um conto, mas os comentários foram tão entusiastas que Christina Dalcher decidiu escrever um livro com sabor a distopia em plena era #MeToo. Num tempo em que as mulheres são proibidas de falar...

Tudo se passa num tempo futuro em que o presidente eleito dos Estados Unidos proibiu o sexo feminino de dizer mais do que cem palavras por dia, ler livros, escrever, ter contas bancárias ou poder trabalhar fora de casa.Em caso de incumprimento, a "pecadora" leva choques elétricos de uma bracelete que tem amarrada ao pulso. O título deste thriller é Vox - voz em latim - e o conteúdo é inesperado.

Tanto que até comparam este romance a obras que marcaram a história da literatura, como 1984,de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Não são livros de todo comparáveis, mas não deixa de ser um exercício de futurismo estranho quando estamos a viver o tempo do movimento #MeToo e o tempo da emancipação feminina não parece poder voltar atrás.

Christina Dalcher, que antevê neste romance a possibilidade de ser imposto um silêncio obrigatório em metade da população mundial, decidiu optar pela distopia para contar uma história que começou a escrever há alguns anos com a elaboração de um conto, do qual amigos do seu clube de escrita, marido e agente literário gostaram bastante. Já tinha escrito três livros, mas foi este que rompeu a barreira como de vez em quando acontece aos novatos que querem publicar um grande sucesso mundial.

Parece que Christina Dalcher conseguiu o objetivo, até foi traduzido e editado em Portugal pela Topseller, tendo estado em Lisboa para promover o romance, que só em Espanha não manteve o título para evitar ser confundido com o partido de extrema-direita Vox.

O tema da distopia era um propósito antigo da autora e, utilizando o registo do thriller num cenário de uma família que é parcialmente silenciada - mãe e filha - enquanto o marido/pai tem um alto cargo junto do próprio presidente, três filhos rapazes - e ainda há lugar para um amante. Entre os bons pormenores está o de dar como profissão à protagonista ser especialista em problemas de voz - Dalcher é linguista de formação.

O romance não terá o alcance profético das distopias mais famosas já referidas, mas Dalcher consegue pelo menos o objetivo de pôr o leitor a pensar no assunto e pôr a hipótese mais segura para um romance funcionar: "E se?" Não será por acaso que Vox está a ser negociado para uma série de televisão e traduzido em vários países!

Poderiam evitar-se as descrições puramente americanas; das gulodices que comem a torto e a direito, da descrição das fantasias dos grupinhos de mulheres suburbanas, das atividades fúteis como se vê em filmes da série B de Hollywood... Enfim, a técnica de utilizar capítulos curtos com murros no estômago do leitor faz que a leitura corra a bom ritmo, até porque se quer saber como é que uma mulher aguenta não ultrapassar as cem palavras ao dia quando a estatística contabiliza uma média normal de 16 mil.

Este é um bom livro para alertar as jovens que já se esqueceram da luta de muitas mulheres pela emancipação nas últimas décadas?

Eu nasci nos Estados Unidos nos anos 1970, ou seja, logo a seguir à revolução feminista e sexual que nos anos 1960 mudou a vida de muitas mulheres. A atual geração de mulheres não nasceu nessa época e acredita que as mulheres têm tantos direitos como os homens, como se fosse uma situação natural, por isso não sentem necessidade de lutar. Faz parte da natureza humana acharmos que acordamos no dia seguinte e tudo estará igual, o problema é que um dia isso poderá não acontecer. Recorde-se a Noite de Cristal, a deposição do Xá no Irão, o Brexit e muitas eleições. Portanto, ao lerem este romance, mesmo sendo ficção científica sobre um mundo distópico, ele avisa que se não participarmos na vida política poderemos descobrir numa manhã que o mundo mudou e para pior.

Uma personagem diz mesmo que "nunca podemos prever o que vai acontecer". Essa é a premissa de Vox?

É em parte, pois não sabemos adivinhar o futuro e só conhecemos o passado. Sejamos realistas, acho que nunca chegaremos a ponto de as mulheres terem uma bracelete no pulso que as proíba de falar; é ficção, mas ao mesmo tempo uma metáfora, porque a supressão do discurso tem acontecido em várias partes do mundo como vamos assistindo.

É impossível pensar na América sem a referência de Trump. Também é por essa razão que põe outra personagem a dizer "o meu erro foi não ter votado nos últimos 20 anos"?

Os Estados Unidos sempre foram um país onde houve liberdade, no entanto, enquanto investigava para o livro, descobri que em eleições presidenciais o número de eleitores está perto dos 65% - mais mulheres do que homens -, situação que não é assim tão diferente do que se passa na Europa. É muito preocupante que as pessoas não deem a sua opinião ao votar.

Este é o seu primeiro romance...

Não, é o primeiro publicado. Antes, escrevi quatro livros que nunca viram a luz do dia. Este, no entanto, entusiasmou o meu agente quando ainda era um conto e o esqueleto do que viria a ser o futuro romance, Vox. Conto que eu tinha enviado para revistas e que teve uma boa reação, tal como a dos meus colegas do clube de escrita, que me aconselharam a escrever um romance a partir daquele texto.

Quando começou a escrever achou logo que iria ser um sucesso?

Devo dizer que sim, que o sentia devido às muito boas reações - até o meu marido me disse "este é muito bom!" - estava muito confiante, mesmo que nunca se saiba o que pode acontecer até o contrato ser assinado. Principalmente porque é um thriller, um género em que é muito difícil competir com quem já tem carreiras longas. Contudo, não é só um thriller, o livro tem também uma mensagem forte - além de eu ter incluído muito do meu conhecimento sobre linguística. Como tudo isso é pouco habitual, creio que também ajudou a que corresse bem.

O que vai fazer aos livros anteriores?

São três romances de que gosto entre os que estão prontos, portanto acho que poderão ser publicados. Creio que agora isso será mais fácil.

Muita gente pensa que Vox é um livro da era #MeToo. Foi a intenção ou é uma coincidência?

É uma boa coincidência em vários níveis. Escrevi o romance antes de o movimento #MeToo aparecer, mas o que acontece é que quando se tem um livro, um programa de televisão ou um movimento sobre mulheres e com tantos elementos feministas, toda a gente acaba por comparar as situações. No entanto, o movimento #MeToo é sobre mulheres que finalmente rompem o silêncio depois de anos de abuso sexual e o romance Vox nada tem que ver com isso. Portanto, é muito diferente enquanto romance, mas, no sentido mais geral, o facto de ser sobre mulheres que usam a voz permite fazer comparações.

Encontrou um bom título. Foi a primeira escolha?

Sim. Apareceu-me e adorei porque é pequeno e bastante forte. A capa na edição americana ainda o destaca e impressiona mais porque tem o X de Vox sobre a boca da mulher, mas em alguns países da Europa mudaram a capa porque assim é mais orwelliano, rétro e apelativo também para os leitores masculinos. Esta capa portuguesa é mais unissexo. O título em latim torna-se quase universal e o facto de ter só uma palavra torna-o muito poderoso.

Refere Orwell. O que queria escrever era um romance distópico como ele, Aldous Huxley ou Ray Bradbury, ou apenas aconteceu?

A minha intenção era mesmo fazer um romance distópico porque sempre gostei do género. Eu li 1984 na escola, no ano de 1984 por coincidência, O Admirável Mundo Novo de Huxley e os livros de Philip K. Dick, mas o romance que tinha na cabeça era The Stepford Wives, um romance de Ira Levin de 1972. Se pensarmos que foi publicado após os anos de libertação da mulher, mas que 20 anos antes existia uma cultura de domesticidade como a da era vitoriana, onde a separação dos papeis de cada género eram bem evidentes, com os homens na esfera pública e as mulheres na privada, é curioso fazer a comparação com o que acontecia nos EUA à data da sua publicação. Os homens já tinham regressado da II Guerra Mundial e as mulheres perderam os seus empregos, deu-se o baby boom e uma década depois elas ganharam a liberdade, puderam usar contracetivos e divorciar-se sem ser um estigma. A história de Ira Levin recriava um grupo de homens que queriam manter as mulheres com vestidos bonitos, a fazer jardinagem e bolos e sempre belas, nada de feminismo. Esse foi o livro que me inspirou mais.

Fala de domesticidade. Esse "culto" ainda existe nos Estados Unidos?

De certo modo sim, pois há lugares - num país tão grande e onde existe uma parte em que imperam as leis da Bíblia - com uma concentração de fundamentalistas cristãos que defendem os papéis dos dois sexos bem separados. E há movimentos extremistas, como a organização True Woman Movement, que foi fundada por mulheres que querem continuar a viver como na era vitoriana.

Fala muito de linguagem. É uma parte importante para se compreender a manipulação das fake news?

Não sinto grande pressão das fake news porque não acredito só no que me dizem e procuro informar-me com mais profundidade. Se o Presidente assina um decreto, vejo os títulos nos órgãos de comunicação social, mas aquilo em que eu acredito é na consulta do decreto e não no que noticiam. O que pouca gente faz, só veem as manchetes.

Temos atualmente cinco mulheres a querer candidatar-se contra Trump. É pelo poder?

Não acho que seja, cada mulher é diferente, com uma experiência e objetivos que não são iguais. Há mulheres e homens que querem poder mais do que tudo, mas o que se passa neste caso é que após experimentarmos com Barack Obama, o primeiro presidente negro, pergunta-se porque não uma mulher? Há primeiras-ministras na Europa e noutros continentes, porque não nos EUA? Muitas mulheres acham que isso pode ser importante e estão a tentar.

Fala muito em silêncio no Vox. Dá valor ao silêncio?

Existem situações em que o silêncio é a melhor resposta, mas há duas frases em latim sobre o silêncio que merecem atenção: 'o silêncio é de ouro', que é romântico quando não se quer gritar um com o outro, e 'silêncio implica consentimento'. São frases opostas, que mostram muito sobre o silêncio. A minha opinião é de que muita gente considera melhor que certas ideias não se manifestem, por exemplo as do Ku Klux Klan, mas eu prefiro ouvir as suas opiniões em vez de desconhecer o que pensam. Calá-los não os vai fazer mudar de opinião. Aliás, o problema é que cada vez há mais palavras que nem podemos pronunciar de forma a evitar problemas.

Quantas palavras costuma dizer por dia?

Nunca contei. Tive uma experiência breve de quase nada falar, quando o meu marido estava ausente e, como morava numa pequena terra, onde ainda não tínhamos amigos, passava dias sem falar. Era horrível e deprimente.

Vox

Christina Dalcher

Editora Topseller, 303 páginas

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