E se Astérix e Obélix fossem cowboys?

Nesta quinta-feira, dia 21, é lançado o álbum n.º 39 da série Astérix. Com uma tiragem de cinco milhões de exemplares, em 17 línguas, continua a ser um sucesso mundial. Astérix e o Grifo é o título desta aventura que se desloca para os confins do Leste Europeu, bem longe do centro do império romano de César. (Aviso: texto contém spoilers.)

Em 1959, o argumentista René Gosciny e o desenhador Albert Uderzo precisavam de tirar da cartola um novo herói para o primeiro número da revista de banda desenhada Pilote. Como é frequente nas boas ideias, não demoraram muito tempo: "Em duas horas ficou tudo resolvido", revelou mais tarde Goscinny, após Uderzo se ter lembrado do cenário da Gália e de inventarem uma aldeia com gauleses muito especiais, rodeada por exércitos romanos que sempre "colaboraram" para os leitores se divertirem à sua custa.

As aventuras de Astérix regressam hoje com um novo álbum: Astérix e o Grifo. Uma figura mitológica que desperta a cobiça de César, que envia uma expedição aos territórios dos Sármatas que tem a infelicidade de se cruzar com Astérix, Obélix - Ideafix também - e o druida Panoramix. A aldeia dos Sármatas é a oposta da gaulesa, onde as mulheres é que tomam conta da guerra, mas os problemas não diferem muito. Principalmente, quando uma guerreira sármata é raptada pelos romanos e as amazonas têm de a salvar.

Astérix quer ajudar mas, no grande truque desta nova aventura, quando vai beber a poção mágica descobre que o frio congelou o líquido e precisa, além da força de Obélix, de encontrar soluções nada mágicas para combater o destacamento enviado por César até, diz o centurião, "nunca antes um romano se aventurou tanto para Leste". A guarnição romana vai ter a vida dificultada e mesmo com as informações de Feikenius e de Desorientadus (um sósia do escritor Michel Houellebecq), receiam que o mundo esteja para acabar num precipício, numa alegoria os terraplanistas, enervam-se com o distanciamento exigido entre os soldados, que são ameaçados de confinamento se não obedecerem às ordens superiores, noutra alegoria à covid.

Não é por acaso que é grande a paródia aos acontecimentos mais recentes no planeta neste álbum, o quinto de autoria dos sucessores da dupla Goscinny e Uderzo, respetivamente, Jean-Yves Ferry e Didier Conrad. Segundo o argumentista, os factos contemporâneos fazem falta para situar as aventuras de Astérix e os leitores gostam: "Sim, quanto mais não seja porque sem essas referências atuais poderia até parecer que se está a ler um Astérix dos anos 60. É preciso trazê-lo aos nossos dias, isto sem se perder a forma clássica de contar."

Realmente, a cada novo álbum dos sucessores de Goscinny e Uderzo, a réplica fica mais aprimorada e com Astérix e o Grifo evocam-se os melhores tempos das aventuras dos gauleses. O que não implica que Ferri e Conrad não deixem a sua marca, como o primeiro faz questão de afirmar quando se lhe pergunta como foi fazer um novo álbum após a morte recente de Uderzo. Tiveram mais liberdade? "A morte dele entristeceu-nos porque existia uma ligação que se foi fazendo ao longo destes cinco álbuns, no entanto ao nível do trabalho nada mudou porque Uderzo foi-se distanciando e dando-nos liberdade, contentando-se com alguns reparos e nada mais."

E a receita do sucesso de Astérix está toda neste livro, nem se esquecem de trazer os piratas para onde não há mar. Segundo Ferri, todos os "amigos" dos gauleses devem marcar presença em cada livro e desta vez "só aconteceu à última hora porque os piratas vinham a propósito de uma piada que só se tornaria possível com eles". Quanto à ausência da poção mágica nesta aventura, Ferri revela um pouco do segredo que provoca o sucesso contínuo nesta série: "É verdade que seguimos as regras mas, ao fim de tantos livros, é preciso sempre encontrar qualquer coisa que altere a realidade a que o leitor já se acostumou. É o caso da poção mágica que fica congelada e só resta a Astérix inovar-se e deixar de contar com uma força que torna tudo mais fácil, restando-lhe a ajuda de Obélix, cujos efeitos da poção são eternos porque caiu no caldeirão em pequeno.

Quando se diz a Ferri que ao ler Astérix e o Grifo tem-se a sensação de estar com Goscinny e Uderzo ainda. É o vosso desejo ou uma obrigação? "Não é uma obrigação, mas é importante manter o perfil das personagens. Por exemplo, o Goscinny gostava muito de colocar Astérix em países reais, isso era muito dele, depois quando era só Uderzo as coisas mudaram." E desta vez mudam mais ainda porque Ferri e Conrad levam Astérix até bem longe da aldeia gaulesa e basta olhar a capa para se perceber como alteram o paradigma tradicional: Obélix está a tentar tirar Ideaifix de cima de um totem e Astérix está montado num cavalo! É uma homenagem aos westerns que a dupla aprecia, transformando os heróis gauleses numa espécie de cowboys. Ferri explica: Tem a ver com isso. Eu adoro os westerns clássicos dos anos 50 de John Ford, onde há grandes aventuras, passadas em espaços naturais gigantescos e no álbum passa-se um pouco disso porque os sármatas vivem muito longe." Ou seja, é uma espécie de western mas na direção oposta, podendo chamar-lhe um eastern!

Se a distância da Gália aos Sármatas pode ser comparada às do Oeste da América do Norte, há uma grande diferença no cenário, que é a da neve do Leste. Foi mais complicado desenhar? "Esse foi um grande desafio para o Conrad na hora de desenhar. Se usássemos muito um cenário branco de neve, a ação seria menos fácil de perceber e foi preciso encontrar um modo de contornar a falta de cor habitual. Enviei-lhe várias fotos da Mongólia em que se viam florestas, lagos e paisagens bastante diferentes das habituais em Astérix, e ao vê-las Conrad conseguiu fazer o que queríamos sem trair o espírito da geografia."

Conrad dá a sua opinião: "A receita é simples: paisagens magníficas, aventura, ação a cavalo e uma natureza hostil! E explica a influência do cinema: "Quando se fala de um western, pensa-se imediatamente em vastos espaços virgens. É o que salta aos olhos ao ver os velhos filmes de John Ford, em que ficamos obrigatoriamente sem fôlego devido àquelas imagens idílicas. É um verdadeiro desafio para um desenhador como eu e devo honrar esses filmes que devoro desde tenra idade."

Ferri explica que este novo álbum tem como cenário os verdadeiros Sármatas, mas não quis fazer um argumento ao jeito de um historiador: "Era mais como uma Sildávia imaginária e pareceu-me divertido inventar um território, com o seu folclore e as suas crenças." Quanto a este álbum, Ferri responde ainda a várias questões abaixo.

Quando chega a hora de fazer um novo álbum, o maior receio é no início?

Não, o meu medo é mais no fim. Porque quando começo está tudo em aberto e até posso divertir-me, mas conforme a história avança e o álbum começa a aparecer, é preciso afinar o tom geral e essa é a parte mais complicada.

Astérix e o Grifo foi o álbum mais difícil até agora?

Creio que podemos dizer que cada novo álbum é sempre mais difícil, mas as razões serão diferentes. É preciso encontrar em cada livro um equilíbrio e desta vez, como eles foram até muito longe, era complicada a gestão do espaço nas páginas para a descrição da viagem. Por isso, fez-se uma elipse logo ao princípio ou de outra forma precisaríamos de 60 páginas só para essa descrição.

A ação decorre numa região onde os romanos nunca foram. César oblige?

Tem a ver com razões históricas, porque havia a possibilidade de César ter querido encontrar o grifo, mas creio que é mais uma desculpa para outros interesses. Não é por acaso que um dos personagens vai fazendo prospeção de ouro na região, razão financeira que daria mais cobertura às expedições nesse sentido geográfico do que numa busca pelo grifo. Mas essa era uma história mais complicada!

Os Sármatas já entraram em Astérix e a Transitálica...

É verdade, mas aí era mais numa ótica política. Eram russos que parodiavam os comunistas, desta vez estão como o povo que eram e sem referências à sociedade russa.

Michel Houellebecq não se vai irritar por ser o Desorientadus?

... não sei... pode-se dizer que sim... mas ele tem um bom perfil para o personagem e daí termos imitado. Espero que ele goste, mas até agora não houve reações.

O empoderamento das mulheres Sármatas deve-se ao movimento Me Too?

Sim, com certeza, porque os três gauleses vão para um país onde é tudo é ao contrário. Se bem que a aldeia se pareça com a deles, a sociedade é bem diferente. É uma resposta ao que se vê hoje em dia e o Astérix não pode apenas viver entre mulheres que estão a tratar da casa como era nos primeiros livros. Há um lugar muito forte para as mulheres, mesmo que se mantenham sentimentais e isso vê-se com a paixão de Obélix.

Obélix já se apaixonou em vários livros!

Não sei o que se passa com ele, mas uma coisa é certa, ouço muitas vezes as mulheres dizerem que Obélix é o seu personagem preferido. Não sei se é uma coisa sexual, não percebo.

Num tempo de grande crise editorial, Astérix vende cinco milhões de exemplares. Qual é o segredo?

Um bom argumentista... falando a sério, cada vez que perguntávamos isso a Uderzo, ele respondia que não sabia o segredo e recordava que era o primeiro a surpreender-se desde o início da série. O sucesso foi passando para o segundo livro, para os outros e como os primeiros quinze álbuns eram de grande qualidade, isso fidelizou os leitores.

Qual o livro de Astérix de que gosta mais?

Do período de Goscinny gosto de Asterix Legionário. Do período de Uderzo, que é bastante diferente, prefiro O Grande Fosso. Dos nossos, é sempre o mais recente. Acho que Astérix e o Grifo é bastante diferente e destaca-se do que é habitual.

Já agora, vamos esclarecer os números da correspondência entre vós. A editora diz que trocaram seis milhões de emails durante a produção do álbum. Não fazem mais nada na vida?

Eu gostaria bem de ter trocado esse número gigante de emails, mas essa informação não passa de uma brincadeira da editora. Pelo contrário, diria que somos mais sóbrios, até porque o Conrad tem um método de trabalho muito à americana. A troca de emails acontece mais em partes que colocam dúvidas, como a da neve neste livro, e vamos conversando mais ou menos a cada dez páginas.

dnot@dn.pt

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