Drama e comédia "à la française" na praça pública

Agnès Jaoui continua a realizar comédias dramáticas que ela própria vai escrevendo com a colaboração de Jean-Pierre Bacri: "Na Praça Pública" é um novo exemplo desse trabalho, envolve sempre a participação de ambos no elenco.

Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri constituem uma talentosa dupla de argumentistas, agora confirmada através da estreia de Na Praça Pública. Como aconteceu em colaborações anteriores, surgem ambos com destaque no elenco, estando a realização de novo a cargo de Jaoui. Vale a pena recordar que o seu trabalho deixou marcas na obra do grande Alain Resnais (1922-2014) através dos argumentos que escreveram para o fascinante duplo filme que é Fumar/Não Fumar (1993), baseado numa peça do inglês Alan Ayckbourn, e ainda para a deliciosa comédia (en)cantada É Sempre a Mesma Cantiga (1997).

Em Na Praça Pública reencontramos um dispositivo comum às suas anteriores comédias dramáticas (a ambiguidade da designação é sempre sugestiva), afinal frequente em muitas produções francesas enraizadas na mesma tradição narrativa. A saber: tudo ou quase tudo acontece a partir de um evento que reúne um coletivo de personagens a pouco e pouco marcadas e, num certo sentido, desafiadas pelas diferenças sociais que, conscientemente ou não, refletem.

Desta vez, Bacri interpreta Castro, apresentador/vedeta da televisão que se reencontra com a ex-mulher, Hélène, a personagem de Jaoui, numa festa promovida pela irmã de Hélène (a talentosa Léa Drucker que vimos, por exemplo, em Custódia Partilhada, de Xavier Legrand). Digamos, para simplificar, que nada acontece de forma pacífica, competindo também ao espectador avaliar até que ponto Jaoui e Bacri, através da sua cumplicidade profissional, estão a sublimar os seus próprios fantasmas, já que foram companheiros entre 1987 e 2012.

Uma coisa é certa: este é um cinema de permanente cruzamento, ora dramático, ora hilariante, das vidas profissionais e dos cenários privados, num registo em que prevalece uma postura moral herdada do cinema de Jean Renoir (1894-1979). Como gostava de dizer o cineasta de A Regra do Jogo (1939), deparamos com um sistema de relações em que ninguém tem razão e cada um tem as suas razões... Sentimos, talvez, que o labor de Jaoui e Bacri começa a revelar os limites de um modelo inaugurado com O Gosto dos Outros (2000). Seja como for, saudemos esta tão típica tendência do cinema francês que, em nome de uma salutar pedagogia narrativa, sabe assumir todo um legado patrimonial sem se afastar dos temas do seu presente.

* * * Bom

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