Deus e a termodinâmica segundo Roy Andersson  

Um dos mais proeminentes realizadores suecos contemporâneos, Roy Andersson está de volta com o seu cinema-museu da existência humana. O filme chama-se Da Eternidade, mas degusta-se em pouco mais de uma hora.

​​​​Um casal sentado num banco de jardim a observar (talvez) a migração dos pássaros, no horizonte; um empregado de mesa que, absorto nos seus pensamentos, enche um copo de vinho até transbordar; uma mulher à espera, com ansiedade refreada, de quem a vem buscar à estação de comboio; um padre que perdeu a fé em Deus; dois amantes abraçados que flutuam sobre uma cidade em ruínas; um trio de raparigas a dançar à porta de uma cafetaria; a expressão de Hitler quando se apercebeu da derrota na guerra; um homem que acha que "tudo é fantástico" e faz questão de o dizer a propósito de nada às pessoas que se encontram com ele num café, enquanto cai neve lá fora.

Eis algumas situações, ou visões, que compõem o universo acinzentado e pitoresco Da Eternidade, o novo filme de Roy Andersson, que lhe valeu o Leão de Prata de melhor realizador no Festival de Veneza 2019, e que surge depois da trilogia concluída com Um Pombo Pousou Num Ramo a Refletir na Existência (2014). Não seria de esperar que, fechado o capítulo dedicado a essa coisa estranha que é estar vivo - um dos filmes da trilogia intitula-se mesmo Tu, que Vives - o cinema deste veterano sueco se voltasse para outro assunto alheio ao teatro do absurdo que é ser(-se) humano. Por isso, sem espanto, somos mais uma vez reenviados para a persistência de um olhar sobre o Homem que se debate com a angústia de estar no mundo, como quem entra num museu que muda a exposição de sete em sete anos (ou, neste caso, cinco) mantendo uma temática similar. A questão é: não há mal nenhum nisso.

A obra deste realizador amante da pintura, que apurou a sua estética ao longo de duas décadas a trabalhar em anúncios publicitários, continua a ser sinónimo de casinha de bonecas em tons desbotados, com figuras pálidas que oferecem presença cómica a uma superior brincadeira perversa (a da "criança" Andersson). Uma sucessão de quadros com algo que mexe dentro deles, como sempre, mais ou menos aleatórios, desligados entre si, apenas apresentando uma ou outra personagem que carrega um princípio narrativo. É o caso do padre que perdeu a fé - tal como o de Luz de Inverno (1963), do conterrâneo Ingmar Bergman - e que tenta desesperadamente superar o vazio abrupto dessa alma que já foi crente, ora ingerindo álcool antes da missa ora procurando aconselhamento junto de um psiquiatra que, para lhe responder à terrível pergunta sobre a possibilidade de Deus não existir, diz simplesmente: "Talvez tenhamos de nos contentar por estar vivos."

Nesta frase que poderia resumir a filosofia de todos os filmes de Andersson está também a verdade que torna aqui o seu humor, ao mesmo tempo, tão doce e tão cruel. Sim, porque Da Eternidade será a longa-metragem mais luminosa, quase terna, da fase recente da sua filmografia, na medida em que um humor negro divino é amenizado pelo encanto silencioso dos tais pássaros no horizonte. Por sua vez, a ideia do infinito que abraça tudo chega-nos através de uma lei da termodinâmica, verbalizada por um estudante que dá a chave para a interpretação do título Da Eternidade: segundo essa lei, tudo é energia e nunca poderá ser destruído, porque se transforma. O que leva à reflexão de que, dentro de milhões de anos, poderemos existir sob a forma de uma batata ou de um tomate... Dir-se-ia que é com preocupações destas que saímos da sala após 76 minutos agradavelmente passados.

De resto, não falta a habitual personagem que chora no interior de um autocarro, perturbando os passageiros "normais" que protestam que as lágrimas devem ser libertadas em casa. No cinema-museu de Roy Andersson a tristeza é coisa pública, e neste Da Eternidade, em particular, ela é consentida por uma voz off que já viu de tudo e nos guia pela exposição da existência humana, com curadoria de um realizador-filósofo maravilhado pela hipótese de Deus perder pontos para a tese da termodinâmica. O que dizer? Um mimo de trivialidade celestial.

*** Bom

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