Design italiano para o bem comum

Diz-se design italiano e pensa-se em Prada, Ferrari ou Gucci, mas para um dos seus embaixadores, o designer Giulio Vinaccia, há muito mais a dizer. Esteve em Portugal a convite da embaixada de Itália para mostrar que o design pode ser uma ferramenta de justiça social.


Na tarde de 11 de Setembro de 2001, o designer italiano Giulio Vinaccia estava reunido com os executivos de uma conhecida marca de acessórios de marroquinaria, com o objetivo de discutir que tom de vermelho deveria ter um dos artigos estrela da nova coleção - Burgundy? Magenta? Sangue de boi? Colaborador assíduo de marcas associadas ao melhor do italian lifestyle como a Ferrari, Moschino, Piaggio ou Borsalino, Vinaccia estava habituado a longas brainstorms para discutir pormenores como o fecho de uma carteira de senhora ou os manípulos das portas dum automóvel. Mas naquela tarde, à saída da reunião, Vinaccia constatou que o mundo dera uma guinada tão súbita como brutal, com o atentado às Torres Gémeas, em Nova Iorque. E sentiu-se um pouco absurdo, como conta agora ao DN: "Pensei que não podia continuar assim, a trabalhar para a elite que pode comprar aquela mala ou aquele automóvel. É um público que não excede 1% da população mundial. Então e os outros 99%? Teremos de os deixar com produtos horríveis?"

Giulio Vinaccia esteve em Portugal na semana passada, a convite da embaixada de Itália, para assinalar o Dia do Design Italiano, neste caso, em colaboração com a Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos, que, bem a propósito, se prepara para lançar uma pós-graduação em Design para o Impacto Social, que ele coordenará. Junto dos alunos da Escola, de manhã, e à tarde, numa conferência livre intitulada, "Design para o Impacto Social - O caso italiano", Vinaccia falou da sua experiência como consultor da ONU para o Desenvolvimento Industrial, mas sobretudo dos projetos que tem vindo a desenvolver em países como o Brasil, Moçambique, Sri Lanka, Marrocos, Líbano ou Jordânia, neste caso junto de mulheres refugiadas, fugidas aos horrores da guerra na Síria. Um trabalho que já lhe valeu prémios como o World Green Design (em 2015) e o Compasso d"Oro (em 2016)..

Com um português fluente ganho ao longo de anos de trabalho com comunidades brasileiras, Vinaccia fala-nos das razões que o levaram a mudar de rota: "É evidente que trabalhar com marcas de luxo é o sonho de todo o designer porque não há limites orçamentais. O problema é que o impacto do seu trabalho na sociedade é nulo porque, se tiver sucesso, apenas permite que o CEO da empresa compre um novo iate. Mas o design, na sua essência, não é isso. Nós não somos alfaiates, o nosso objetivo é solucionar problemas, que não estão nas classes altas. Se tenho as ferramentas da profissão, tenho a obrigação de usá-las para o bem comum." Filho de italianos, mas nascido na Venezuela , o designer viajou muito na infância, o que lhe formou "uma consciência precoce dos níveis de pobreza existentes em muitos países, nomeadamente na América do Sul." Depois desse despertar de consciência de 2001, Vinaccia trocaria muitas vezes o conforto do seu atelier de Milão pelos lugares e pelas pessoas que, na verdade, mais precisam dele, a tal ponto que, diz a brincar, em Itália passaram a chamar-lhe "o Indiana Jones do design".

Nestas andanças, trabalhou, por exemplo, com comunidades pobres de Florianópolis, no Brasil, "para tentar perceber que produtos podiam elas fazer para gerar rendimento. Voltei na época do Campeonato do Mundo, para os ajudar a criar souvenirs para vender aos visitantes. O presidente Lula anunciara que não seria importado qualquer produto da China, justamente para apoiar a Economia local, nomeadamente esses grupos social e economicamente mais frágeis. Com eles, estudei a identidade cultural a fundo, já que esta é fundamental para alimentar o storytelling de que o design precisa. Tudo isto implica muita pesquisa, análise, estudo. No meu caso, sou o gringo, tenho de estudar ainda mais."

Pesquisa, análise, estudo mas também empatia, capacidade de se meter nos sapatos do Outro, sobretudo quando este já desceu aos infernos e tenta regressar à vida com as poucas ferramentas de que dispõe. Foi o que Giulio Vinaccia procurou fazer na Jordânia, num campo de refugiados: "A primeira dificuldade é criar uma estrutura produtiva num local daqueles, onde não há qualquer vestígio de normalidade. No entanto, apesar das dificuldades inimagináveis para a maior parte das pessoas, conseguimos criar uma linha de produtos baseada em dois princípios familiares a estas pessoas: por um lado, a importância da indústria da saboaria em Alepo, que é milenar, por outro, o conceito espiritual de lavagem ritual no Islão." Assim, foi criada a linha de produtos Azraq, hoje comercializada para todo o mundo muçulmano.

"Fala-se muito de design democrático, mas não o podemos confundir com o que faz o Ikea", esclarece o designer, "porque a maior parte dos seus produtos são ecologicamente desastrosos, fabricados por mão-de-obra de baixo preço, que vive em condições muito difíceis." A sustentabilidade é, pois, uma preocupação constante: "Importa sempre usar materiais locais, que não impliquem grandes deslocações, e de qualidade. A reciclagem é uma treta. Eu tenho uma mesa do meu avô, que foi feita há 120 anos e que está pronta a durar outro tanto. É neste tipo de objetos, com alma e história, que temos de apostar."

Embaixador do Design Italiano há 5 anos (o que considera uma honra e uma responsabilidade), Giulio Vinaccia considera que as lições do made in Italy não se resumem a elegância e bom gosto. "Há um modo italiano de trabalhar, um método se quiser, e que é diferente de todos os outros, seja o francês, o americano ou o escandinavo", afirma. "A minha mãe, quando era jovem, nos anos de 1930, comprava chapéus de chuva numa pequena loja de Roma chamada Fendi. Hoje, que esta marca já se tornou um nome maior no mundo da Moda, continua a ser a mesma família que a lidera. O mesmo acontece com a Prada ou com a Alessi, que começou por fabricar colheres para o exército durante a guerra. Começam por ser negócios familiares, onde mesmo o CEO conhece todas as etapas do processo produtivo. Não tenha dúvidas de que o senhor Armani sabe cortar um fato." Este modelo familiar, que não se perde de vista mesmo quando o volume de negócios atinge níveis estratosféricos, é, para Giulio Vinaccia, uma metodologia que pode ser exportada para países em vias de desenvolvimento. Isto, e a importância de valorizar a identidade cultural, fazendo do que é local um legado universal.

dnot@dn.pt

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