O cinema italiano consegue preservar uma diversidade que o mantém em contacto com as componentes mais nobres do seu património, em especial com esse género que, de Roberto Rossellini a Nanni Moretti, pontua a sua história: o melodrama. O filme L"Immensità - Por Amor, de Emanuele Crialese (foi, em Lisboa, o título de abertura da Festa do Cinema Italiano), aí está, exemplificando essas linhas de força e, nessa medida, uma atitude criativa que não desiste de lidar com a complexidade humana das personagens - até porque o realizador está a contar uma história autobiográfica..Como frequentemente acontece na escrita melodramática, o espectador é confrontado com um território familiar - um casal com três filhos - ferido pelas convulsões internas do seu território. Duas, em particular: Adriana, a filha mais velha (12 anos), sente-se um rapaz e quer ser reconhecida como tal; Clara, a mãe, vive à beira da decomposição emocional, entre a alegria da relação com os filhos e a secura de um marido insensível e autoritário..Tudo isto acontece no começo da década de 1970, sendo a canção-tema do filme americano Love Story uma das referências mais emblemáticas desse contexto. O certo é que L"Immensità se vai desenvolvendo de forma "abstracta", levando o espectador a sentir que se trata menos de um retrato da Itália há meio século e mais de uma ilustração obrigatória (?) de "temas" da nossa actualidade..O que se discute, entenda-se, não é a qualidade industrial do projecto. Estamos, afinal, perante um objecto gerado num contexto de produção de muitas competências, além do mais apoiado num elenco talentoso, liderado por Penélope Cruz, no papel da mãe, com evidente destaque para a estreante Luana Giuliani, intérprete de Adriana..O que se discute é esta moda politicamente correcta (não apenas italiana) de fazer filmes que não se enraizam em qualquer desejo particular de cinema, de tal modo se mostram apenas empenhados em satisfazer a circulação de algumas "ideias gerais" todos os dias repetidas pelo mundo mediático em que vivemos - ou somos obrigados a viver. Sintoma esclarecedor de tudo isso é o modo como L"Immensità surgiu apresentado no site Cineuropa [cineuropa.org] aquando da sua passagem no Festival de Veneza (5 set. 2022). Aí se escreve que nele encontramos "o tema da identidade sexual", presente no certame através de "alguns filmes de autores italianos"....O contexto em que tudo isto está a acontecer é culturalmente muito complexo, justificando que evitemos favorecer (ainda mais) maniqueísmos - aliás, a anterior observação não exclui, longe disso, o reconhecimento de que o Cineuropa, financiado pelo programa Media, desempenha um papel importantíssimo na divulgação da produção europeia. Em defesa de L"Immensità, importa reconhecer, pelo menos, que o filme consegue sugerir que a televisão sempre teve um papel preponderante na sustentação dos valores dominantes do espaço familiar: as respectivas cenas a preto e branco são uma desconcertante excrescência narrativa que, em qualquer caso, abrem para um pensamento menos esquemático e mais ágil.