D. A. Pennebaker: morreu um mestre do documentarismo

Autor de uma notável colecção de documentários, incluindo o célebre Dont Look Back, sobre Bob Dylan, o americano D. A. Pennebaker faleceu aos 94 anos de idade.

Personalidade marcante na história do moderno documentarismo, mestre da reportagem, é dele o lendário Dont Look Back (1967), sobre Bob Dylan: D. A. Pennebaker faleceu em sua casa, em Nova Iorque, no dia 1 de agosto - contava 94 anos.

O nome de Pennebaker é indissociável de toda uma comunidade de criadores que, a partir do início dos anos 60, transfiguraram a paisagem do documentário nos EUA. O filme Primary (1960), sobre as eleições primárias dos Democratas no estado do Wisconsin (opondo John F. Kennedy e Hubert Humphrey), seria uma espécie de bandeira do movimento do "cinema-verdade". Nele trabalharam o produtor e realizador Robert Drew e, na qualidade de directores de fotografia, Richard Leacock e Albert Maysles; Pennebaker foi um assistente de rodagem que, depois, asseguraria a montagem.

Estava em jogo, afinal, a rentabilização prática e estética de uma panóplia de novos recursos mais leves (câmaras de filmar e gravadores), capazes de garantir uma agilidade de movimentos que as antigas técnicas não permitiam. Frederick Wiseman (n. 1930) é outra figura fundamental dessa renovação documental, ainda que sempre se tenha demarcado dos pressupostos do "cinema-verdade".

Dont Look Back seria, justamente, a consagração desse processo técnico, de uma só vez artístico e político (título português: Eu Sou Bob Dylan). Embora datado de 1967, ano do respectivo lançamento, o filme foi rodado em 1965, acompanhando, em particular, a polémica primeira digressão de Dylan com guitarras eléctricas. As singularidades humanas e dramáticas de muitas das suas cenas conferiram ao filme um valor icónico que serviu, por exemplo, como fundamento para a interpretação de Cate Blanchett num dos capítulos de I"m Not There (2007), de Todd Haynes, uma biografia "surreal" de Dylan.

Encontramos, aliás, na longa filmografia de Pennebaker muitos títulos que reflectem o seu envolvimento com a música popular. São dele, por exemplo, Monterey Pop (1968) e Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1973): o primeiro é uma reportagem sobre o Festival de Monterey de 1967, incluindo uma lendária performance de Jimi Hendrix (cerca de um ano antes de Woodstock); o segundo foi rodado a 3 de Julho de 1973, no Hammersmith Odeon, em Londres, com David Bowie naquele que seria o derradeiro concerto em que assumiu a personagem de Ziggy Stardust.

The War Room (1993) ficou, por certo, como um dos títulos mais conhecidos da sua filmografia. Co-assinado com a sua mulher, Chris Hegedus, faz o retrato íntimo da campanha de Bill Clinton, em 1992, num tom que viria a influenciar muitas abordagens (cinematográficas e televisivas) da cena política. Obteve uma nomeação para o Óscar de melhor documentário.

Através da sua companhia, Pennebaker Hegedus Films, o casal viria a produzir e realizar alguns dos mais importantes documentários americanos das últimas décadas, incluindo Only the Strong Survive (2002), sobre os músicos da editora Stax, Kings of Pastry (2009), dedicado a uma figura mítica da cozinha francesa, e por fim Unlocking the Cage (2016), centrado nas questões morais e jurídicas de defesa dos direitos dos animais. Em 2012, no âmbito dos chamados Governor Awards, a Academia de Hollywood distinguiu Pennebaker com um Óscar honorário.

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