A exposição de Angela Bulloch é inagurada hoje

Cultura

Com entrada gratuita. Angela Bulloch é a arma do MAAT para celebrar o 3.º aniversário

A artista ocupa a partir de sexta-feira a galeria oval do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira também estreiam uma nova peça, inspirada nos tempos de Cesariny em Paris.

A primeira vez que Angela Bulloch (n.1966) viu a galeria oval do MAAT, há dois anos, recordou as suas origens canadianas. "É como um ringue de patinagem, com som de arena". São essas características que está explorar na sua mais recente obra, que pode ser vista a partir de sexta-feira, coincidindo com o terceiro aniversário do museu, em Belém.

Totens geométricos, iluminados e de diferentes dimensões espalham-se pela galeria. Há um foco luminoso, uma montagem de monitores, um filme de animação, sombras pintadas na parede, música e diálogos e, no chão, projetam-se as imagens de uns olhos, que por acaso são os da artista.

Animas Vectorias, nome deste obra criada especificamente para a galeria oval, abre ao público esta sexta-feira, primeiro de três dias de festa e "encerra um período de três anos de exposições", segundo Inês Grosso, a curadora da exposição (em parceria com João Ribas, ex-diretor artístico do Museu Serralves). Esse período coincide com o da direção liderada por Pedro Gadanho, cujo mandato terminou em junho.

"Logo nas primeiras conversas, a Angela mostrou vontade de transformar este espaço num mundo virtual", conta Inês Grosso ao DN, passeando entre as peças da artista.

"Como este espaço é incrível, com uma arquitetura que realmente posso usar, muito teatral, com luz e som, foi uma inspiração", explica a artista, membro do grupo a quem se convencionou chamar Young British Artist, nomeada para o prémio Turner em 1997.

O nome da exposição, Animas Vectorias, vem do latim. "Vectorias é o verbo carregar, transportar. O que mudamos é a anima - um não objeto, o que traz à vida um objeto sem vida."

As esculturas são trabalhos recentes, explica Angela Bulloch ao DN, os filmes foram criados de propósito para esta instalação. Inês Grosso lembra que a artista "foi uma das primeiras a incorporar a tecnologia no seu trabalho."

"Tudo começa dentro de um computador", diz.

Uma pioneira da tecnologia

"Comecei no final dos anos 80", recorda ao DN, enquanto uma música eletrónica invade a galeria. "Eu estava muito interessada em arte minimal e comecei a usar silicone, tão presente em toda a tecnologia, interessada pela linguagem binária - sim ou não, zero e um".

Vem dessa época a preocupação de Angela Bulloch com a linguagem binária e o feminismo. "Como desconstruir isso? A negociação do poder!". Os computadores entraram em cena nesse momento assim como a vontade de fazer um trabalho que falasse com os espectadores.

Não são peças interativas, uma palavra que Angela Bulloch prefere manter ao largo quando fala da sua obra. Prefere de um trabalho relacional, como aquele momento da peça do MAAT em que o holofote projetado na parede se apaga à medida que os espectadores se aproximam. "A pessoa afeta a obra sem se dar conta", refere.

É uma artista que amiúde refere a palavra linguagem para explicar o seu trabalho e também as gavetas onde a costumam arrumar, como a categoria de Young British Artist ou YBA.

"É apenas uma estranha maneira jornalística de agrupar um grupo muito variado de pessoas. É confuso e não muito definido. Ninguém realmente concorda e aparece depois dos acontecimentos. Não foi um artista que decidiu chamar-se assim", explica.

O termo foi cunhado no final dos anos 80 para falar de um grupo de artistas que tinham frequentado o curso de Belas Artes na Universidade de Goldsmiths, como Angela Bulloch, que expôs na Freeze, em 1988. Um segundo grupo de YBA formaram-se na Royal College of Art. "É um nome fácil que torna mais fácil aos outros reconhecê-lo".

E mais três novas exposições

Esta sexta-feira é também inaugurada uma nova peça de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. Chama-se Ama como a Estrada Começa, a partir de um verso de Mário Cesariny, fonte de inspiração da dupla de artistas nesta peça a partir do testemunho do poeta e pintor no livro A Cidade Queimada (1965). A exposição pode ser vista até 20 de abril de 2020.

O MAAT associa-se, mais uma vez, à Trienal de Arquitetura com a exposição Economia de Meios , marca e condição da arquitetura racional. Éric Lapierre, curador, escolheu exemplos históricos e contemporâneos desta economia de meios. Está patente até 13 de janeiro.

Os portugueses João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira prepararam, uma obra criar para a Project Room do MAAT - "uma reflexão sobre espaços de controlo e dissidência dos corpos", diz o MAAT. A curadoria é de Inês Grosso e a obra pode ser vista até 20 de abril.

Dreamers Never Learn é uma instalação de Vasco Barata que transforma o espaço do museu num ambiente urbano semi-abandonado (curadoria de Carolina Grau). "Pretende refletir sobre o espaço temporariamente livre que é libertado entre o fluxo das marés da economia", descreve o MAAT. Até 27 de janeiro.

Três anos e uma nova diretora

Passaram três anos desde que as portas do edifício de Amanda Levete abriram as portas dando à cidade um novo espaço dedicado à arte contemporânea e trazendo a Lisboa exposições internacionais (lembremos duas: O Mundo de Charles e Ray Eames e Hello Robot).

Após três anos de liderança, Pedro Gadanho, arquiteto e antigo conservador do MoMA (Museu de Arte Moderna), em Nova Iorque, dá lugar a Beatrice Leanza, italiana, com formação em Londres e larga experiência na China, onde dirigiu a Bienal de Design. Mestre em Estudos Asiáticos pela Ca'Foscari University de Veneza, em Itália, com uma dissertação sobre a arte contemporânea na China, iniciou a sua carreira como curadora na China Art Archives and Warehouse (CAAW), o espaço de arte alternativo criado pelo artista Ai Weiwei. Foi fundadora do BAO Atelier -- um 'think-tank' que promove a relação entre a China e a Europa nas áreas das artes visuais, do design e da arquitetura --, e curadora chefe do programa de investigação Across Chinese Cities, apresentado em 2014, 2016 e 2018, na Bienal de Veneza de Arquitetura.

A nova diretora executiva do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia falou com os jornalistas pela primeira vez na quarta-feira numa visita de imprensa às novas exposições e disse que pretende ver o museu a funcionar em "modo de celebração" com mais frequência, no futuro.

A curadora e crítica de arte prometeu anunciar novos planos para o museu até ao final do ano, ao mesmo tempo que disse estar "muito entusiasmada com esta oportunidade" e, em particular, com a coincidência de o museu celebrar o terceiro ano de vida, este fim de semana, no momento em que ela própria inicia funções.

"É muito importante esta celebração de três dias para trazer as pessoas ao MAAT e a Lisboa, de forma a cativar os residentes e outros públicos", disse.

O aniversário - que decorre entre sexta-feira e domingo com entradas gratuitas - "é uma metáfora muito boa para aquilo que eu quero fazer no futuro para o MAAT", salientou, acrescentando que quer ver os visitantes do museu com um papel "muito participatório".

Entrada gratuita no sexta, sábado e domingo

O museu vai estar aberto sexta-feira e sábado até às 21:00 e no domingo até às 19:00, com uma programação especial que inclui um concerto de Legendary Tigerman esta sexta-feira (19:00), oficinas e visitas às exposições no sábado e no domingo.

MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Fundação EDP, Avenida Brasília, Central Tejo, Belém
Latitude 38º41'44.52 N
Longitude 9º11'44.30 W

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