Cliff Richard: "Como vou esquecer a coisa mais horrível que aconteceu na minha vida?"

Tribunal deu razão ao cantor e BBC vai pagar 240 mil euros a Cliff Richard por violação da privacidade.

À saída do tribunal, em Londres, um grupo de fãs aplaudiu-o e cantou Congratulations, o tema com que Cliff Richard concorreu ao festival britânico da canção em 1968. Não era motivo para menos. O músico britânico Cliff Richard tinha acabado de vencer um processo judicial, por violação de privacidade, contra a BBC, que foi condenada a pagar-lhe uma indemnização de 240 mil euros. A decisão do tribunal foi anunciada na quarta-feira.

Cliff Richard, de 77 anos, moveu uma ação contra a BBC, depois de a televisão pública britânica ter difundido em direto imagens de uma busca policial à sua casa em Sunningdale, no sudeste de Inglaterra, em agosto de 2014, no âmbito da investigação de uma agressão sexual a um adolescente com menos de 16 anos, que remontava à década de 1980 e da qual o músico foi ilibado.

A BBC soube da investigação através de uma fonte da Polícia de South Yorkshire e conseguiu um acordo no qual concordava em não divulgar imediatamente a história em troca de uma dica sobre quando ocorreria a busca na casa do cantor. A cobertura televisiva da BBC foi apelidada pela estação como a "cacha do ano" e difundida por todo o mundo, mas o cantor nunca foi preso ou acusado de algum crime.

O seu advogado declarou no processo que a cobertura da BBC provocou "danos profundos na sua reputação", além de ter causado um "sentimento de pânico e impotência" no músico, quando viu o canal transmitir as buscas policiais, através de imagens captadas por helicóptero. "A minha vida ficou, efetivamente, virada de pernas para o ar e a minha reputação, em todo o mundo, foi manchada, desnecessariamente", afirmou o cantor numa das primeiras vezes em que se apresentou em tribunal.

O processo em tribunal demorou três meses. Até que finalmente a decisão do juiz Anthony Mann estabeleceu que a BBC atentou "gravemente" contra a vida privada do músico, de "forma sensacionalista", condenando-a a pagar 210 mil libras (cerca de 240 mil euros), como forma de compensação pelos danos causados. O juiz defendeu que o suspeito de uma investigação policial deve ter "uma expectativa razoável de privacidade" e considerou que embora o facto de Cliff Richard estar a ser investigado "poderá ter interesse para um fofoqueiro", não havia "um genuíno interesse público" no caso.

"Se rolarem cabeças [na BBC] é porque, se calhar, era merecido", comentou o cantor após saber a decisão do tribunal. "Foi um absurdo", disse, referindo-se ao facto de a estação ter transmitido em direto as buscas à sua casa.

Mas David Jordan, editor da BBC, explicou que os despedimentos não seriam "necessariamente a resposta certa para cada erro que os jornalistas cometem". E garantiu que a empresa vai ler com muita atenção as 122 páginas da decisão judicial antes de decidir se vai ou não recorrer.

Uma questão de liberdade de imprensa?

Para já, a televisão pública britânica apresentou desculpas ao músico, assim como a polícia do South Yorkshire, que dirigiu as investigações, que disse lamentar a mediatização do processo durante a investigação.

Em comunicado, Fran Unsworth, diretora de informação da BBC, garantiu que a estação vai "aprender as lições" deste caso: "Hoje faríamos as coisas de maneira diferente." No entanto, também alertou para o facto de os jornalistas terem agido de boa-fé e de a BBC não ter dado qualquer informação falsa.

A BBC critica a decisão judicial sobretudo porque esta considera ilegal a nomeação de Cliff Richard: "Portanto, mesmo que não tivéssemos usado as imagens do helicóptero ou que tivéssemos passado a história com menos destaque, o juiz teria considerado a cobertura ilegal, apesar de admitir que toda a informação difundida era verdadeira", escreve a responsável, considerando, por isso, que esta decisão é ​​​​​"contrária à liberdade de imprensa e à capacidade de os jornalistas poderem tratar investigações policiais".

"Em causa está um princípio muito importante e que afeta todos os meios, não apenas a BBC", diz. "Se esta decisão se mantiver, mudará a forma como todos os jornalistas irão abordar os sujeitos de investigações criminais. Tornará ilegal revelar o nome de alguém que esteja a ser investigado, a não ser que a polícia o faça." E conclui: "E eu não acredito que isso sirva o interesse público." Este é o motivo pelo qual a BBC está a considerar a hipótese de recorrer da decisão judicial.

Também Tony Gallagher, diretor do jornal tabloide The Sun, critica a decisão judicial: "Uma vitória para (alegados) criminosos e advogados gananciosos. Terrível para os media", afirmou num tweet.

Já Chris Patten, antigo presidente do trust (conselho consultivo) da BBC não tem dúvidas de que seria "uma loucura" a estação recorrer da decisão do tribunal: A BBC "deve engolir em seco, admitir que cometeu um erro, pedir desculpa a Cliff Richard e seguir em frente, garantindo que isto não volta a acontecer".

"Nunca mais vou esquecer isto"

Para Cliff Richard a questão é simples : "Eu queria uma correção ao que me foi feito, ninguém disse nada contra a liberdade de imprensa, mas eu lutarei até à morte contra o abuso da liberdade de imprensa", afirmou o cantor à ITV, numa entrevista em que não escondeu as lágrimas em alguns momentos. "O que a BBC fez foi um abuso. Eles puseram-se no papel de juiz."

"Uma das coisas mais fáceis de fazer é dar prazer às outras pessoas", disse. "Posso fazê-lo a cantar, mas também sendo fotografado pelas pessoas, abraçando os seus bebés. São coisas simples e que dão alegria aos outros. E isso foi-me retirado", explicou. "Continuo a tirar fotografias mas fico ligeiramente afastado e não toco em ninguém", contou, referindo-se às suspeitas de pedofilia de que foi alvo. "Acho que nunca mais vou esquecer isto. Como poderei esquecer a coisa mais horrível que aconteceu na minha vida?"

O caso ainda não está fechado. O juiz irá continuar as audições para determinar se haverá mais danos a serem ressarcidos, uma vez que o cantor afirmou que o seu "trabalho foi seriamente afetado" por este caso e diretamente pela cobertura da BBC.

Cliff Richard, que se distinguiu nos anos de 1950/1960 como vocalista dos The Shadows, soma uma carreira de mais de meio século, com mais de 250 milhões de discos vendidos. É o terceiro artista com mais discos vendidos na história dos tops britânicos de música, depois dos Beatles e de Elvis Presley. Entre os seus êxitos encontram-se The Young Ones, Living Doll e Summer Holiday.

O cantor foi investido cavaleiro do Império Britânico, pela rainha Isabel II de Inglaterra, em 1995, e recebeu a chave da cidade de Albufeira, em 2014 - 510 anos após a atribuição da Carta de Foral à localidade -, onde existe igualmente uma rua com o seu nome. Cliff Richard adquiriu uma casa neste concelho algarvio, há mais de 40 anos, onde manteve também uma exploração vinícola, que pôs à venda em 2016, por nove milhões de euros, segundo o jornal britânico Daily Mail.

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