Cinema recorda a violência estalinista

Algum cinema contemporâneo não desiste de explorar factos fundamentais da história coletiva: Mr. Jones - A Verdade da Mentira recorda a tragédia da fome provocada, em 1932-33, pelo governo de Estaline.

O mínimo que se pode dizer de um filme como Mr. Jones - A Verdade da Mentira é que corresponde a um modelo dramático nem sempre valorizado pelos atuais sistemas de produção cinematográfica. Claro que continuam a ser fabricados muitos "filmes históricos", evocando, tal como aqui acontece, épocas mais ou menos conturbadas. Mas há claramente menos narrativas que ponham em cena uma fundamental ação humana: a de procurar superar a ilusão das mitologias através da contundência dos factos.

Importa, por isso, lembrar o essencial. A personagem do título é Gareth Jones (1905-1935), jornalista galês que foi pioneiro na apresentação pública de factos indesmentíveis sobre a tragédia da fome em várias regiões da União Soviética, incluindo a Ucrânia, ao longo dos anos 1932-33. Apesar de desmentida pelas autoridades comunistas, a fome foi deliberadamente provocada pelo governo de Josef Estaline, visando a supressão dos "ricos" agricultores - estima-se que tenham morrido perto de dez milhões de pessoas.

Realizado pela cineasta polaca Agnieszka Holland - autora, por exemplo, de Eclipse Total (1995), sobre Arthur Rimbaud, com Leonardo DiCaprio -, Mr. Jones resulta de uma coprodução envolvendo Polónia, Ucrânia e Reino Unido. Começa por ser um filme hesitante em relação ao tom que deve adotar. Primeiro, parece funcionar como uma coleção de "anedotas" breves, mais ou menos sugestivas, sobre a fase em que Jones foi conselheiro de Lloyd George, primeiro-ministro britânico (ninguém terá dado importância ao facto de ele considerar Adolf Hitler uma ameaça real para o futuro da Europa e do mundo); depois, a narrativa é sujeita a um corte abrupto, para nos projetar no inferno das paisagens ucranianas, marcadas pelos sinais da violência estalinista.

Em boa verdade, tais contrastes acabam por refletir as convulsões vividas pelo próprio Jones, aliás, exemplarmente expostas pela sóbria interpretação de James Norton (ator inglês que veremos em breve na versão de Mulherezinhas assinada por Greta Gerwig). Mais do que um rol de referências históricas mais ou menos esquemáticas, o melhor do filme tem a ver com o labor do próprio Jones - ele vive um processo de descoberta de uma imensa tragédia coletiva em que investigação e emoção estão sempre, inevitavelmente, enredadas.

A importância simbólica de um filme como Mr. Jones é tanto maior quanto, em boa verdade, a Revolução Russa de 1917 está longe de ser um tema muito frequente na produção cinematográfica das décadas mais recentes. Seja como for, justifica-se algum paralelismo com o admirável Reds (1981), de Warren Beatty.

É certo que o filme dirigido e protagonizado por Beatty se centra nos tempos iniciais da Revolução - a partir da experiência de John Reed (1887-1920), o lendário autor de Dez Dias Que Abalaram o Mundo -, além do mais distinguindo-se por um excecional fôlego épico. De qualquer modo, em ambos deparamos com a mesma dinâmica narrativa: as respetivas personagens centrais procuram ver e conhecer o concreto, contornando as regras abstratas das ideologias. Essa paixão pelos factos, sendo um fundamental valor jornalístico, continua a ser uma fascinante matéria cinematográfica.

* * * Bom

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