Cinema alemão revisita memórias dramáticas do Bloco de Leste

A Revolução Silenciosa evoca o ano conturbado de 1956, retratando um grupo de estudantes alemães solidários com a revolta do povo húngaro - um bom exemplo de cinema histórico.

Cinema histórico? Sim, por que não? Em tempo de proliferação de aventuras com personagens digitais, sabe bem encontrar um filme capaz de nos recordar uma verdade muito básica, tristemente fora de moda: a revisitação das memórias históricas ajuda-nos a compreender que há mais mundos para além do ruidoso espalhafato dos super-heróis...

Além do mais, A Revolução Silenciosa remete-nos para um contexto de grande dramatismo, decisivo na progressiva decomposição do chamado Bloco de Leste e, mais especificamente, dos seus governos de inspiração comunista. Trata-se, assim, de evocar o ano de 1956, quando o povo húngaro se revolta contra o seu governo e a dominação da URSS. Curiosamente, os acontecimentos na Hungria não são a matéria direta da encenação do realizador de Lars Kraume; no seu centro está uma turma de estudantes que, na Alemanha de Leste, chocados pelas notícias que chegam da Hungria, decidem, na abertura de uma aula, protagonizar um breve ritual: um minuto de silêncio em solidariedade com os cidadãos húngaros.

Digamos, para simplificar, que esse minuto vai transfigurar por completo, de forma brutal, a vida daqueles rapazes e raparigas. Desde logo, porque a sua atitude é vista como "contra-revolucionária", suscitando um severo julgamento das autoridades escolares e, por fim, a intervenção do próprio ministro da Educação; depois, porque as fissuras morais e políticas expostas através das informações que chegam da Hungria vão começar a questionar a comunicação (ou a falta dela) entre pais e filhos.

De Lars Kraume já conhecíamos Fritz Bauer: Agenda Secreta (2015), outro sugestivo fresco histórico, centrado no procurador que, em 1960, conseguiu localizar e capturar o criminoso nazi Adolf Eichmann. Agora, a sua "mise en scène" eminentemente clássica possui a virtude muito básica, mas essencial, de nos apresentar uma visão histórica multifacetada que evita qualquer descrição maniqueísta das personagens, a começar pelas mais jovens. Nesta perspetiva, a qualidade do elenco é decisiva, a começar pelos intérpretes dos estudantes: Leonard Scheicher, Tom Gramenz ou Lena Klenke não serão nomes nossos conhecidos, mas isso não os impede, naturalmente, de serem brilhantes perante a câmara de filmar.

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