Celebrar a iconografia negra americana

One Night in Miami é a estreia de uma cineasta de corpo inteiro, a atriz Regina King. Encontro ficcional entre Malcom X, Muhammad Ali, Sam Cook e Jim Brown, chega agora ao streaming e está lançado para os Óscares.

Cinema com ideologia poderosa. Não é coisa rara por estes dias e neste contexto, mas a chegada de uma obra como One Night in Miami é de aplaudir e acreditar que há um espírito liberal novo em Hollywood. Regina King, vencedora do Óscar de atriz secundária em Se Esta Rua Falasse, de Barry Jenkins, estreia-se nas longas com uma obra que se tornou a surpresa do Festival de Veneza, isto depois de uma experiências em ficção televisiva e telefilmes. Pode, com propriedade, dizer-se que nasceu uma cineasta. King demonstra um cuidado visual de um rigor abissal e um sentido de cena tão preciso como cativante. One Night in Miami, como o título anuncia, passa-se numa longa noite em Miami depois de um combate de boxe que coroa Cassius Clay como campeão. O que se passa a seguir é pura imaginação: uma festa em honra do pugilista com Malcom X, a lenda da NFL Jim Brown e o cantor Sam Cooke. Imaginação de Kemp Powers, o autor e correalizador de Soul, que assina este argumento a partir de uma peça teatral que especulava sobre este encontro fictício de quatro sumidades da cultura afro-americana dos anos 1960.

Temos o Malcom X em pose de guru de Clay, mesmo na véspera de o pugilista mudar de nome para Muhammad Ali, o Sam Cooke atormentado por não ser visto como um dos heróis da causa dos direitos de igualdade dos negros e o Jim Brown cansado da fama e a contemplar uma carreira como ator. Regina King não se afasta da génese teatral da base e assume com riscos ousados a noção do huis clos: quatro homens num quarto de um motel a falar dos direitos civis de uma América racista. Mas engane-se quem pensar que se trata de "teatro filmado": One Night in Miami tem uma câmara que pensa cinema e com um ponto de vista capaz de celebrar com um ritmo esfuziante a importância dos mitos. Malcom X, Jim Brown, Ali e Sam Cook são como símbolos de uma geração que lutou e que deixou um legado. E juntá-los neste encontro de ícones é preservar e refletir sobre uma causa que continua a fazer sentido. Mais de 60 anos depois, os atos e as palavras de liberdade destes quatro afro-americanos apresentam-se agora como um gesto intemporal e profundamente tocante.

Para além do peso da metáfora e do jogo das evocações, One Night in Miami, tal como os recentes Mank, de David Fincher ou Os 7 de Chicago, de Aaron Sorkin, é um filme que acredita na vitalidade da palavra. E, para além do mais, consegue passar o teste da "lição histórica", oferecendo ao espectador a ultrapassagem da fronteira da grande ilusão. A licença da "liberdade da ficção" nos casos reais serve para isto, sobretudo neste caso em que o caderno de encargos da "boa consciência" lida com a emancipação do orgulho negro. Aí sentimos que na verdade dos mitos há uma lógica interna e talvez seja por isso que acreditemos no fator íntimo desta fantasia que se alimenta de factos verdadeiros. Aquele Malcom X é verdadeiro, aquela passagem para o islão de Cassius Clay é forte e o flashback de Sam Cook a mostrar "alma" ao vivo é mais do que compreensível. Tudo aqui é proposto como espanta-espíritos de uma dor afro-americana que não se apaga nem se rasura.

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