Cannes: Terrence Malick assina um notável filme pacifista

O americano Terrence Malick está de volta à Côte d"Azur com a história verídica de um austríaco que recusou combater ao lado dos nazis: A Hidden Life é um dos grandes acontecimentos do 72º Festival de Cannes.

O americano Terrence Malick entrou para a mitologia de Cannes em 2011: o filme A Árvore da Vida foi recebido com grande entusiasmo pela comunidade cinéfila reunida na Côte d"Azur e a sua Palma de Ouro (atribuída por um júri presidido por Robert De Niro) foi celebrada em ambiente realmente festivo.

Nada disso se vai repetir, por certo, em torno de A Hidden Life (à letra: Uma vida escondida), o novíssimo Malick apresentado na secção competitiva da 72ª edição do festival. Oito anos depois, Malick está longe de gerar consensos e não há dúvida que esta evocação da trajetória trágica de um objetor de consciência, durante a Segunda Guerra Mundial, divide os críticos e tem tudo para dividir os espectadores.

Sou dos entusiastas, confesso. Em qualquer caso, Mais do que o "bom" ou "mau" de um filme, creio que importa percebermos aquilo que define a sua singularidade temática e formal. Em boa verdade, nem sempre Malick tem sido um retratista de situações concretas, apoiadas em factos verídicos. Neste caso, a intensidade emocional passa também pela admirável personagem (verídica, precisamente) do austríaco Frank Jägerstätter, nascido em 1907, que em 1943 recusou integrar o exército de Adolf Hitler.

O mínimo que se pode dizer de A Hidden Life é que Malick recusa, ponto por ponto, as regras do tradicional "filme de guerra". E não apenas porque esta é uma narrativa sobre a retaguarda da guerra, em particular sobre o processo judicial que os nazis desencadeiam contra o protagonista; sobretudo porque o essencial é vivido por Frank e sua mulher Fani (August Diehl e Valerie Pachner, respectivamente, intérpretes em estado de graça) na deslumbrante zona montanhosa onde se situa a sua pequena quinta. Ser ou não ser fiel à beleza anímica da Natureza - eis a questão.

Para além da agilidade envolvente da realização de Malick, a presença mágica das montanhas (e de todos os elementos naturais) evoca, necessariamente, outros momentos emblemáticos da sua filmografia. Podemos pensar, em particular, no belíssimo Dias do Paraíso (1978), um dos primeiros títulos da carreira de Richard Gere, em que o fulgor paisagístico era determinante na evocação da vida numa herdade do Texas no começo do século XX.

Estamos, enfim, perante um notável filme pacifista, encenando o horror da guerra através da infinita vulnerabilidade dos seres humanos. Nesta perspectiva, é forçoso citar também a herança de Horizontes de Glória (1957), com Kirk Douglas, título determinante na evolução temática e estética de Stanley Kubrick. Tratava-se, nesse caso, de expor a carnificina humana durante a Primeira Guerra Mundial, mas não será abusivo supor que Malick aceita ser definido como legítimo herdeiro de Kubrick.

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