Camus do outro lado da Faixa de Gaza

A Letter to a Friend in Gaza, de Amos Gitai. Terá sido o filme-acontecimento do Festival de Jerusalém. Um olhar livre e sem medos sobre o atual estado do conflito na Faixa de Gaza com homenagem a Albert Camus. O cineasta israelita falou ao DN

Sala 3 da mais linda Cinemateca do mundo, a de Jerusalém. Lotação mais do que esgotada, ambiente tenso. Há um silêncio quase brusco. Estamos na antestreia mundial do novo filme do mais internacional dos cineastas israelitas, Amos Gitai, homem que nos deu filmes como Free Zone ou Rabin- The Last Day (visto no LEFFEST em 2015). A Letter to a Friend in Gaza, curta-metragem, é a sessão mais procurada do 35.º Festival de Jerusalém mas, como nos diz o realizador, não é bem a verdadeira estreia mundial, é uma espécie de ante-antestreia, já que está escalada para o Festival de Veneza, que começa no final de agosto. "Neste momento em que vivemos uma perigosa escalada de xenofobia e racismo é muito importante que possamos refletir. Este é o tempo para isso. Agradeço muito ao festival a coragem por programar um filme destes", discurso de Gitai no começo da sessão.

O filme é um ensaio documental sobre estes dias em que a tensão entre os soldados israelitas nos territórios ocupados aumenta. Um documento sobre Gaza e o que lá se vive, com momentos fotográficos e de imagens de telemóvel recentemente captados. A Letter to a Friend in Gaza é um lamento, um choro cinematográfico sobre uma tragédia que nos deixa a todos envergonhados. Que Gitai o faça sob o signo das palavras de Albert Camus e ao som da voz de Barbara Hendricks é um dos sortilégios mais radicais de uma obra urgente feita para pensarmos na consciência israelita de uma outra forma. Chama-se a isso escancarar a alma.

A mágoa de Gitai é a mágoa de Israel e o seu murro de consciência afeta-nos a todos. No final da sessão sentia-se que aquele plano (que travelling moral!) sobre o Muro à saída de Jerusalém é um estigma automático daquilo que entendemos como uma possibilidade do equívoco ou a impossibilidade de tudo. É potente, francamente potente.

"Para mim o cinema não é showbiz"

Ontem, mais a frio, Amos Gitai falava ao DN e começava a anunciar que quer colocar esta curta num festival português. Recado dado mas logo a seguir uma lembrança: "para mim o cinema não é showbiz, é um reflexo da realidade e o que está a acontecer em Israel é muito alarmante. Amo muito este país mas estou muito perturbado com esta mudança. Temos limites no que toca à liberdade de criação graças a esta Ministra da Cultura e nomeações de juízes reacionários para o Supremo Tribunal. O cinema para mim serve para refletir a realidade. Por isso, fiz este filme - a melhor homenagem que um artista pode fazer ao seu país é ser crítico".

E a poesia no meio da denúncia serve para Gitai fazer o paralelismo com Picasso e o seu quadro Guernica. A arte serve para lidar com a guerra, vinca bem. Esse é o seu ato cívico.

"O que é importante é que os filmes que lidem com este tema não sejam demagógicos. Quis fazer um filme claro. Tenho dito publicamente que não gosto do trabalho de Michael Moore, sinto que a sua mensagem é demagógica. Quando vejo um filme dele até começo a duvidar de ideias que costumo apoiar... Sou um cineasta que acredita que o cinema é uma arte para fazer pensar, para abrir uma estrada. Mas sei bem que há pessoas que não querem pensar, que apenas querem consumir", conta. Curiosamente, num encontro que o Clube de Imprensa de Jerusalém proporcionou à imprensa estrangeira para conhecer críticos israelitas, o nome de Gitai era aquele que criava mais celeuma. Santos da casa não fazem milagres. E fica-se com curiosidade para se perceber se Gitai em Israel se sente persona non grata pelo regime. Responde com humor: "não convém dar-lhes ideias..."

No Panorama do festival, o cinema britânico teve também um filme para abalar consciências, A Balada de Adam Henry, de Richard Eyre, adaptação do romance homónimo de Ian McEwan. Um espetáculo popular sobre uma juíza que tem de tomar uma posição delicada sobre um caso relacionado com uma transfusão de sangue para um adolescente Testemunha de Jeová. Uma adaptação que não engonha e que dá à grande Emma Thompson um dos maiores papéis da sua carreira. Vai chegar aos cinemas portugueses na rentrée.

Veja o trailer de A Balada de Adam Henry:

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