Bertolucci, o barroco

Disse em 1970, numa entrevista: "Creio que rodar um filme significa pôr um pouco de ordem no caos que existe em mim". A Bertolucci, Pier Paolo Pasolini chamou-lhe mestre do cinema-poesia

O cinema do italiano Bernardo Bertolucci é, nas suas bases, um cinema de memória coletiva. Isso mesmo se vê no brilhante thriller O Conformista (1970) - que curiosamente esteve em exibição anteontem no Lisbon & Sintra Film Festival -, sobre um homem seduzido pelo fascismo na Itália de Mussolini.

Sendo da geração de 1960, alguém de convicções políticas, com um genuíno interesse nas relações do indivíduo com a textura social (veja-se A Estratégia da Aranha, de 1969, tirada de um conto de Jorge Luis Borges), Bertolucci passou igualmente para a tela uma natural disposição lírica e psicanalítica, que confere a títulos como o épico 1990 (1976) e a narrativa incestuosa de La Luna (1979) um sortilégio particular.

Disse em 1970, numa entrevista: "Creio que rodar um filme significa pôr um pouco de ordem no caos que existe em mim". E talvez este então jovem cineasta, a quem Pier Paolo Pasolini apelidou de mestre do cinema-poesia logo após a estreia de Antes da Revolução (1964), ainda não estivesse bem consciente de como o barroquismo da sua expressão de intimidade iria manifestar-se em grande parte da sua obra posterior.

Assim aconteceu no polémico O Último Tango em Paris (1972), mas também, por exemplo, em Os Sonhadores (2003), ambientado no Maio de 68, e até em Eu e Tu (2012), o seu derradeiro filme, que conta uma história bastante simples, extraída de um livro de Niccolò Ammaniti. A saber, Lorenzo, um jovem de 14 anos pouco dado à convivência social, decide pregar uma mentira aos pais dizendo que vai esquiar com amigos durante uma semana de férias, e fecha-se na cave da casa onde acaba por conhecer a sua meia-irmã Olivia, que se revela o verdadeiro caos que faltava à sua vida... Neste microcosmos da cave, Bertolucci encena a vitalidade cinematográfica da juventude, e numa belíssima cena de "barroca" intimidade mostra-nos como a tragédia dos corpos abraçados ao som da versão italiana de Space Oddity de David Bowie (Ragazzo Solo, Ragazza Sola) pode ser um espetáculo inesquecível. Obrigada, Bernardo Bertolucci.

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