As queixinhas de Nadav Lapid

Radiografia de uma certa raiva e angustia israelita, O Joelho de Ahed, premiado em Cannes é um regresso nada consensual de Nadad Lapid, aqui a filmar um cineasta em crise pessoal. Uma provocação cujo título remete para uma ativista palestiniana.

Será um para-raios sobre a moral de culpa israelita? Ou estamos na presença de uma hipótese de cinema-agressão perante um estado de coisas? É talvez prudente acreditar nas duas hipóteses neste caso. Nadav Lapid, cineasta de Israel algo pop-star fora do seu país, volta às origens depois do Urso de Ouro por Sinónimos (2019) e é premiado em Cannes 2021 com o Prémio do Júri.

O filme é uma descida aos infernos de um cineasta quarentão, uma espécie de duplo distorcido do próprio Nadav. Aliás, os acontecimentos relatados são espelho de uma situação que se passou com o cineasta: um convite para apresentar um filme seu numa pequena localidade num lugar remoto de Israel. Na narrativa de O Joelho de Ahed o realizador chama-se Y e é alguém com um tremor interior grande, um artista a lutar contra a censura e ao mesmo tempo com a dor de quem perde uma mãe - tudo o que se passou com Nadav. Y chega então a uma pequena localidade do deserto de Arabah onde é bem recebido por uma simpática e cooperante funcionária do governo israelita, alguém cuja maior preocupação é manter as aparências. Quando se pensava que na apresentação do filme o realizador Y pudesse ter um discurso livre eis que surge um formulário do Estado que pode proibir esse ato de liberdade. Às vezes, as palavras dos artistas ainda podem enfurecer o público? Ou será que os condicionalismos da arte em Israel estão condicionados? De lembrar que na altura, chegou a existir um projeto de lei chamado Lealdade à Cultura que visava estabelecer limites ao que era permitido dizer.

O Joelho de Ahed, a partir desse incidente, traça um processo de um homem que tem de escolher ser fiel à sua moral ou viver em permanente neura ou revolta. E é também uma reflexão sobre o lugar de um artista num país de todas e mais algumas complexidades. Um exame sobre as cedências e as resistências perante um abuso da autoridade. Nesse sentido, é um gesto de revolta, um pirete revoltado para um governo castrador, aliás um tema central na obra deste cineasta. Nadav Lapid quer questionar a cidadania no seu país, das suas possibilidades aos becos sem saída. Fá-lo numa espiral de códigos que às vezes deixa-nos de fora, mas nunca abdica de uma força sísmica admirável. Na verdade, não acerta no alvo como acontecia em Sinónimos ou O Polícia porque frequentemente muita coisa aqui parece caixa de queixas. Claro que o lamento com raiva que sai deste tal gesto tem uma urgência política que é tão impetuosa como artisticamente válida. E claro também que um certa vaidade de pompa cinematográfica (sobretudo na teimosia das brincadeiras com o "ponto de vista") é atenuada quando sai de lá uma ideia de musical pós-moderno inovador. Nadad Lapid está cheio de si próprio mas isso não são más notícias quando assume tal limitação.

Não parece estapafúrdio pensar que é um realizador que ainda vai dar muitas voltas, alguém que aqui é brilhante a desvendar pistas sobre de onde saem as ideias de cinema. Este alter-ego Y é exasperante, sim senhor, mas não tiramos os olhos dele...

dnot@dn.pt

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