As Ondas, o grande filme do final do verão

Depois de ter criado sensação no último Festival de Toronto, As Ondas, de Trey Edward Shults, chega ao mercado Home Cinema esta semana. Um relato de ódio, luto e tragédia numa América dos extremos de Trump.

Custa a crer que um dos filmes com melhor imprensa americana dos últimos tempos não tenha tido estreia em Portugal. Dirão os preconceituosos que fita com afro-americanos não vende por cá ou que os atores (geniais atores, lembre-se) Sterling K. Brown (vencedor de Emmys e Globo de Ouro) e Lucas Hedges (nomeado ao Óscar) não levam espetadores ao cinema, mas é quase impossível alguém poder ficar indiferente a este drama que se desdobra em duas linhas narrativas. As Ondas, que apenas é lançado agora nos videoclubes virtuais, marca a consagração de um jovem cineasta, Trey Edward Shults, cineasta do mercado "indie" que aqui consegue uma feliz confluência com um cinema mais abrangente. Se em Ele Vem à Noite (2017) mostrava-nos uma América de medo e em choque pós-apocalíptico, agora propõe um olhar refrescante sobre o controlo parental na América dos "millennials" através de uma tragédia ocorrida na Florida. Um conto sobre uma relação entre dois adolescentes que descamba em violência e abuso depois de uma gravidez indesejada.

Ao som da música de Trent Reznor e Atticus Ross, Waves é também uma tese sobre manipulação emocional através de uma nova forma de melodrama e com uma câmara que não pára quieta. Sente-se o peso de uma tragédia com uma escala para além da medição "indie", sempre perto de algo ambicioso e de uma verdade sentimental capaz de chocar sem filtros.

Shults não pretende elaborar nenhuma tese premonitória sobre a falência da célula familiar americana, mas encena com uma câmara de ângulo largo uma verdade sobre uma génese de um mal-estar que é transversal à sociedade: a pressão dos pais, do sistema educativo e das aparências. Em última instância, é um daqueles objetos cinematográficos que nos deixa perplexos perante o abalo da violência. E as imagens nunca se retraem perante a sensualidade dos corpos e da potência do som. Acima de tudo, somos quase sugados por um centro gravitacional que concentra o poder da pujança da juventude, coisa rara num cinema de cineastas que olham para os jovens sem respeitar os seus fluxos de energia. Aí não é descabido pensar-se que As Ondas é porventura um dos herdeiros da carga de Moonlight, de Barry Jenkins, mesmo se pensarmos que Shults não é negro...

Depois, quase que como bónus, há também atores que dão tudo, sobretudo Sterling K. Brown, já premiado na série This is Us, mas também os adolescentes, onde pontifica Lucas Hedges, aqui num registo mais naturalista daquele que vimos em O Ben está de Volta.

Quem alugar por estes dias As Ondas terá uma surpresa que não sairá da cabeça tão cedo. Abala, revolta e apaixona. É sobre o que a vida nos tira mas também sobre o que nos dá. Uma balada atmosférica sobre o novo sonho americano, um sonho que se confunde com pesadelo.

**** (Muito Bom)

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