As máscaras de Cindy Sherman a descoberto em Serralves

Cindy Sherman: Metamorfoses está, desde a passada sexta-feira e até abril de 2023, patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, numa exposição que quer mostrar as personagens criadas pela artista que não se quer ver nelas.

É com quase uma centena de imagens que Cindy Sherman se apresenta no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, ou melhor, as suas metamorfoses. É a segunda vez que a artista se apresenta em Portugal, tendo a primeira sido em Lisboa. Desta vez é o norte do país que tem o oportunidade de conhecer a vasta obra da americana.

As três salas da exposição Cindy Sherman: Metamorfoses apresentam trabalhos de praticamente todas as séries da artista, mas nunca por ordem cronológica. "A primeira coisa que Cindy Sherman disse foi que recusava que organizássemos a exposição de forma cronológica e, por isso, deu-nos liberdade para o fazer como quiséssemos. E foi o que fizemos", explicou Philippe Vergne, curador da exposição e diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Cindy Sherman também não dá nomes às suas obras para que seja o espectador a criar uma história na sua cabeça que não seja influenciada pelos nomes escolhidos.

O nome da exposição foi inspirado por uma citação da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís que surge colocada numa das paredes do museu:

As pessoas estão continuamente
sujeitas a metamorfoses que
chamaremos de ficção, mas
que é o próprio instrumento
da realidade...

São estas metamorfoses em que a artista se transforma fisicamente para se tornar noutra pessoa que se podem ver pelo museu. "Desde o início que Cindy Sherman se recusou a retratar-se a si mesma", diz o curador. Philippe Vergne explica que desde pequena a artista se mascarava e, de certa forma, tentava ser outra pessoa, algo que acabou por transportar para a sua arte. "Quando a artista se reconhece nos retratos que faz destrói-os e começa de novo", explica Paula Fernandes, coordenadora da exposição. Em todas as suas produções, Cindy Sherman é tanto diretora como atriz das suas obras.

A primeira sala é dedicada a um conjunto de obras realizadas no final da década de 1980 e inícios de 1990, referidas como Retratos Históricos. Aqui Sherman apropria-se de modelos culturais bem conhecidos do público, em que se pode reconhecer algumas das obras mais importantes do século XVI ao século XIX, de artistas como Caravaggio, Rafael ou Jean Fouquet. É fácil identificar estes elementos, mas eles rapidamente desaparecem quando se analisam os acessórios e as máscaras de que Cindy Sherman se serve na sua arte. Nestes retratos é possível ver como é que a americana mostra imagens de poder, ambição, posição social, vaidade, além dos papéis de género e estereótipos a que as mulheres sempre estiveram sujeitas.

A vaidade está muito presente nesta sala em que os retratos parecem estar a olhar para nós, e a confrontar o espectador com estas questões. "Fazer retrato não é inocente. É a história da cultura, do mundo e os retratos de quem está no poder. E é isso que ela faz aqui", afirma Philippe Vergne.
A cor das paredes desta primeira sala também não foi escolhida ao acaso. O roxo e o azul foram escolhidos para que o ambiente remeta para grandes museus como o Louvre, em Paris. Juntando a cor das paredes às fotografias de Sherman podem ver-se as semelhanças à pintura que durante tantos séculos foi vista como superior.

Na segunda sala podem encontrar-se vários momentos da obra da artista, desde a série Palhaços à série Modelo de capa. "Esta é a sala das máscaras. A noção de máscara é muito importante para Sherman", afirma o curador assim que entramos. É nela que a série Palhaços perturba o espectador com aquilo que está a ver e inclusive cria uma personagem que de certa forma parece não pertencer.

A série Film Stills mostra como os filmes têm vindo a estereotipar as mulheres ao longo dos anos, sem se referir a um filme em específico, apenas aos papéis que foram sendo criados pelo cinema, como a mulher dona de casa, por exemplo. "Estas são as únicas obras a que Cindy Sherman deu um nome", conta Paula Fernandes. Foi também a partir desta série que a americana começou a utilizar a fotografia digital, por lhe dar a oportunidade de fazer mais do que fazia com o analógico. Começou a utilizar os fundos verdes, além de ferramentas como o Photoshop por lhe permitirem transformar digitalmente as fotografias.

Na última sala, encontramos um dos poucos retratos masculinos feitos por Sherman, o seu Dorian Gray. Tal como a personagem de Oscar Wilde , e através da maquilhagem, a artista quer desafiar a passagem do tempo e novamente levantar estas máscaras e mostrar a sua constante metamorfose.

Para fechar a exposição, no segundo piso, Cindy Sherman concebeu e adaptou especialmente para o museu de Serralves uma série de trabalhos realizados em 2010. Este mural tem quatro metros de altura e é uma obra em que a artista não utiliza qualquer maquilhagem. Todas as alterações que foram feitas ao seu rosto, tornando-o mais magro, mais largo ou o nariz mais alongado, foram através do Photoshop e da transformação digital.

A exposição estará patente em Serralves até 16 de abril de 2023.

sara.a.santos@dn.pt

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