"Somos irmãos de armas". Artistas lamentam a morte de José Mário Branco

Sérgio Godinho, Camané, Janita Salomé e outros músicos recordam como José Mário Branco os influenciou - na música e na vida. Era "um dos maiores criadores musicais de sempre".

Sérgio Godinho: "Uma dor profunda"

O músico Sérgio Godinho manifestou hoje uma "dor muito profunda" pela morte de José Mário Branco, um autor "riquíssimo e fundamental na música portuguesa", disse à agência Lusa. "Tenho uma dor muito profunda, de repente esta morte súbita. Sempre fomos extremamente leais. Nunca houve um desentendimento. No essencial estivemos sempre próximos e cúmplices. [...] Somos irmãos de armas. As nossas vidas tocaram-se muito e tocaram-se em muitas aventuras criativas e pessoais", afirmou o cantautor.

Sérgio Godinho recorda-se de ter conhecido José Mário Branco em Paris, onde este estava exilado: "E imediatamente desenvolvemos uma amizade. [...] Começámos a fazer parcerias e letras para aquilo que viria a ser o seu primeiro disco, e o meu primeiro disco, que foram gravados mais ou menos ao mesmo tempo".

Godinho nomeia "a enorme etapa no desenvolvimento sonoro" dos discos do Zeca Afonso que tiveram participação de José Mário Branco e a ligação "absolutamente fulcral" com o fadista Camané. Ele "teve uma importância fundamental no renovar da música portuguesa", considera. "Era alguém riquíssimo e fundamental na música portuguesa", disse o músico de 74 anos.

Capicua: "É um dos meus heróis"

"É um dos meus heróis. É uma das figuras mitológicas da minha infância. Foi um dos grandes exemplos de músicos em Portugal que fizeram da canção uma ferramenta [para mudar o mundo] e um megafone para ampliar as suas causas", declarou à Lusa Capicua, nome artístico de Ana Matos Fernandes.

Capicua assume que "Zé Mário", como lhe chama, a inspirou muito para a fazer a sua música, recordando que escreveu os versos a pensar no artista para o tema A última, do seu primeiro álbum. "A última começava com os versos 'Eu cresci a ouvir Zé Mário, a TV era a rádio, e a minha primeira rima foi à porta do infantário', porque de facto os meus pais ouviam muito Zé Mário e é um dos heróis do meu pai. São todos eles os meus heróis e ouvia muito as músicas dele que eu achava até que era música para crianças", como por exemplo A ronda do soldadinho ou o Charlatão.

Para além da memória afetiva, Capicua destaca que José Mário Branco "tem sido sempre uma referência" para ela. "Porque é uma das pessoas que mais associou a música à palavra, como ferramenta para mudar o mundo e Portugal", disse, lembrando que a expressão "a cantiga é uma arma" foi inventada por ele e que por ser uma "expressão tão forte" acabou por "definir toda a música de intervenção que é feita em Portugal". "Acho que tenho tentado honrar esse exemplo e fazer música com uma mensagem e com uma capacidade de mobilização e de mudança de mentalidades e falar das causas que me são queridas", conclui.

Adolfo Luxúria Canibal: "É um amigo que se perde"

"Estou em estado de choque. É um amigo que se perde", disse, emocionado, Adolfo Luxúria Canibal. O vocalista de Mão Morta e poeta referiu ainda o valor e a importância de José Mário Branco para a música e cultura portuguesas.

Adolfo Luxúria Canibal e José Mário Branco escreveram em conjunto a canção intitulada Loucura, que foi recentemente recuperada para um disco de tributo lançado este ano.

Tó Trips: exemplo de "verticalidade"

"Uma das coisas que sempre admirei nele, além da sua verticalidade, era uma coisa que já não encontro hoje em dia: a maneira como ele cantava, aquela escola tipo Ary dos Santos ou Jacques Brel", afirmou o guitarrista português Tó Trips em declarações à Lusa. Quando se ouve alguém cantar dessa maneira, referiu, "aquilo é bastante sofrido, é bastante vivido".

"Estás a ouvir alguém cantar e parece que o que está a dizer é a maior das verdades, que aquilo se passou ou que viveu aquilo, uma maneira bastante sofrida, bastante emotiva. Uma coisa que hoje em dia não conheço ninguém que tenha isso", referiu.

Tó Trips descobriu a música daquele autor na década de 1980, através de uma namorada da altura, "que era da JCP [Juventude Comunista Portuguesa] e gostava imenso de José Mário Branco e de Sérgio Godinho". O guitarrista explicou que, no pós-25 de Abril de 1974, fartou-se "um bocado de música de intervenção e de música brasileira, era tudo aquilo que se ouvia na rádio" e "quando apareceu o Rock-Rendez Vous [um dos mais importantes espaços na história do rock em Lisboa] e a cena portuguesa de rock" foi esse o caminho que seguiu: "só mais tarde é que eu me reconciliei com esses artistas".

Com os Dead Combo, banda que formou com o baixista Pedro Gonçalves e que recentemente anunciou o fim, teve "a sorte" de um dia participar num concerto no Musicbox com o fadista Camané e com José Mário Branco. "Foi a única vez que estive a falar com ele nos camarins", recordou.

Janita Salomé: "Portador de grandes ideias inovadoras"

"O José Mário Branco desaparece fisicamente mas a obra dele permanecerá - isto é um lugar comum, mas é necessário dizer -, é justo dizê-lo e fundamental, até para que este acontecimento triste, que é o desaparecimento do Zé Mário, seja um ponto de partida, faça com que a música portuguesa renasça, porque a obra que ele nos deixou é muito vasta e variada, e dá muitas sugestões para muitos trabalhos de muita gente que queira seguir a obra dele", disse à Lusa o músico Janita Salomé, que recordou ter conhecido José Mário Branco "como a referência que sempre foi na música portuguesa, mesmo antes do 25 de Abril".

José Mário Branco chegou mesmo a produzir um disco de Janita Salomé, uma experiência que este afirma ter sido um "privilégio", destacando "todas as suas capacidades de grande músico de grande orquestrador, portador de grandes ideias inovadoras para a música portuguesa". Mas não só para a música portuguesa, ressalva, também para o país, "no que diz respeito ao seu exemplo enquanto cidadão, o seu exemplo cívico de indivíduo exemplar".

E é como pessoa, que Janita Salomé recorda José Mário Branco como "um indivíduo austero, intenso, de relação forte e extremamente rigoroso em termos profissionais - isso transparece na sua obra -, e um homem generoso".

Mário Laginha: "Um músico inspiradíssimo"

"É um dos expoentes máximos da música de intervenção, e tudo o que ele fez foi bom. Sempre que ele punha a mão [num projeto] - não só como compositor, mas também como arranjador e produtor - havia a certeza que iria ser alguma coisa boa e bem feita", comentou o pianista Mário Laginha, acrescentando que Branco "manteve sempre uma enorme juventude do ponto de vista musical", ao longo da carreira.

Mário Laginha, que acompanha Camané no seu último álbum, lançado em novembro, Aqui Está-se Sossegado, salientou o trabalho que José Mário Branco fez com o fadista, em produção e arranjos de vários fados. "O Camané é um bom exemplo de alguém que o José Mário Branco compreendeu e explorou as potencialidades, mas sempre encontrando um equilíbrio em relação ao repertório, para além das grandes canções que escreveu para o fadista", recordou. Para Laginha, "foi um músico inspiradíssimo": "Tenho canções que me acompanharam na adolescência e ainda hoje me lembro delas", tal como muitas pessoas de várias gerações.

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