Ano de mudanças no Portugal dos Pequenitos. Vem aí um mini CCB?

Numa altura em que o parque lúdico se prepara para deixar de ser como o recordamos, revisitamos o homem que o sonhou, Bissaya Barreto, e a vida que corre pela fundação com o seu nome

O projeto deu entrada na Câmara Municipal de Coimbra em dezembro e tudo aponta para que as obras comecem em 2019. O Portugal dos Pequenitos mudará o seu rosto, com uma nova entrada que ficará no extremo oposto da atual. Do lado da Quinta das Lágrimas erguer-se-á então um novo edifício, projetado pelo ateliê SUBVERT STUDIO, eleito em 2016 entre as 11 propostas concorrentes.

Além da bilheteira, o edifício terá também sala para festas, uma área de patinagem, loja e espaço de restauração. Em torno do edifício, além dos espelhos de água, ver-se-á vegetação onde um olhar atento reconhecerá, por exemplo, o bucho anão, planta presente nos edifícios que marcam a obra de Bissaya Barreto.

Depois da construção da nova entrada, o plano da Fundação Bissaya Barreto (FBB), que gere o Portugal dos Pequenitos, parque sonhado por Bissaya Barreto, projetado por Cassiano Branco e inaugurado em 1940, é construir novos edifícios contemporâneos que deem conta do Portugal atual. Ainda sem planos definidos nem acordos firmados, o DN sabe que na calha estarão edifícios como o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, ou a Casa da Música, no Porto.

A FBB terá, aliás, já iniciado conversações com alguns dos arquitetos em causa nas obras que selecionou como possibilidades. "Estamos a obter autorizações para fazer as réplicas" afirmou ao DN a presidente do conselho de administração da FBB Patrícia da Costa Viegas Nascimento.

Recorde-se que, em 2015, quando o parque temático comemorou 75 anos, foi inaugurada uma casinha de xisto, que evoca as aldeias da serra da Lousã, e uma peça de Joana Vasconcelos, A Casa de Chá, que consiste numa reinterpretação da sua obra Miss Jasmine, um bule de ferro forjado de grandes dimensões, neste caso redimensionado para as crianças.

Aberto no ano em que teve lugar a Exposição do Mundo Português, o Portugal dos Pequenitos, que dá conta da paisagem arquitetónica portuguesa e das ex-colónias, de casas regionais até à Universidade de Coimbra ou ao Convento de Cristo em Tomar, está hoje "de alguma forma desatualizado", considera a presidente.

"Vamos dotar os pavilhões de conhecimento, para que as crianças quando nos visitam fiquem com o conhecimento de determinado país ou região. Aquilo é um parque pedagógico, queremos mantê-lo", adianta Patrícia Viegas Nascimento. Parte da modernização deverá passar por um reforço da componente digital. "Mas a matriz vai ser a mesma: aprender brincando."

Recorde-se, aliás, que já foram dirigidas críticas ao parque lúdico-pedagógico, que em 2017 alcançou os 273 mil visitantes, relacionadas com a forma como as ex-colónias portuguesas continuam a ser retratadas. Tal foi objeto da obra do artista Vasco Araújo Parque Temático, que se debruçou, por exemplo, sobre as estátuas dos negros que estão à entrada do parque e dos pavilhões que retratam aqueles países africanos.

Numa altura em que o Portugal dos Pequenitos se vai atualizar, tendo como meta o aniversário do Portugal dos Pequenitos, a 8 de junho, olhamos para o patrono Bissaya Barreto, que sonhou aquele parque, e para a fundação com o seu nome. Fundação que comemorou em novembro 60 anos e que em 2017 surgia em oitavo lugar num ranking das fundações por património, feito pelo Centro Português de Fundações, avaliado em cerca de 128 milhões de euros.

"Bissaya Barreto era um visionário"

"São muitas áreas. Nós temos uma área empresarial, dois hotéis, uma área social que trata desde o idoso à criança numa série de valências, creche, jardim infantil, lar de idosos, serviço domiciliário, SOS pessoa idosa, e toda a parte cultural, com a Casa Museu, o Portugal dos Pequenitos, a Casa das Artes, o Centro de Documentação... Penso que aí reside a maior dificuldade: gerir matérias tão dispersas", explica Patrícia Viegas Nascimento, que em 2007 assumiu a presidência da fundação depois da morte do seu marido e então presidente, Nuno Viegas Nascimento.

A presidente da fundação explica que no centro de toda a obra do médico e professor universitário Bissaya Barreto, que dedicou grande parte da sua vida ao cuidado pelos desfavorecidos, está a criança. "Ele adorava as crianças. O Portugal dos Pequenitos nasce primeiramente como um parque para a Casa da Criança que lá está implementada. Para ele as crianças eram o centro. E é curioso porque nunca foi pai. Se calhar por isso idealizava e tinha uma relação tão próxima com as crianças."

Visitamos uma Casa da Criança, não a do Portugal dos Pequenitos, num dia de sol, quando crianças de três e quatro anos corriam pela relva. "O projeto educativo da Casa da Criança mantém-se à imagem e semelhança daquilo que ele criou: que a criança aprenda brincando. Nós não ensinamos a ler até aos cinco anos. Acho que ele era um visionário. Não me parece as crianças tenham algum valor acrescentado por saberem ler aos quatro anos. Até aos cinco anos devem brincar. E aprender, nós vamos ensinando, mas a brincar. Vamos transmitindo valores e conhecimentos através do brincar."

Entre 1936 e 1970 Bissaya Barreto criou na região Centro 26 Casas da Criança, com creche, jardim-de-infância e consultório médico, onde eram prestados de forma gratuita todos os cuidados. Atualmente existem sete.

"Foi médico da mãe do Salazar, a quem salvou a vida. Criaram uma relação próxima."

"Na sua altura não havia educadoras, não se cuidava da mulher grávida. Toda essa assistência à mãe e à criança foi ele que a imaginou, constituiu e implementou. Foi ele que fez a Maternidade Bissaya Barreto, foi ele que idealizou e pôs em funcionamento o primeiro curso de serviço social. Na altura, pelo menos aqui na região Centro, ele substituiu-se um bocadinho ao Estado", considera Patrícia Viegas Nascimento.

Politicamente, a presidente da fundação descreve Bissaya Barreto como "um republicano convicto". É conhecida a sua relação com Salazar. "Foi médico da mãe do Salazar, a quem salvou a vida. Criaram uma relação próxima."

No centro de Coimbra e com vista para o Jardim Botânico está a Casa Museu Bissaya Barreto. "Começaram a construi-la em 1923. Sabemos que veio passar aqui o Natal de 1925. O professor Bissaya morre em 1974. Vive aqui durante quase 50 anos", explica a responsável Marta Gama.

Apesar de não ter constituído família, esta seria uma casa com bastante vida. A mãe e as irmãs, além de amigos e conhecidos, frequentavam este lugar onde agora muitos vão à procura de pistas sobre aquela figura ou para admirar obras de José Malhoa, Corot, Souza Pinto ou a coleção de porcelana chinesa. "Ainda hoje é uma pessoa muito querida pela obra que deixou. As visitas de ex-alunos e de professores aqui em casa também traduzem isso."

Ao mesmo tempo, explica a diretora,"Pierre Goemaere, um dos primeiros biógrafos dele, chama a esta casa um refúgio. Era um espaço de acolhimento na vida muito ativa que tinha, entre dar aulas, cirurgia, e obra social."

Na biblioteca há livros de medicina entre Os Lusíadas e romances franceses. No que outrora foi o seu quarto quarto há várias imagens da Virgem, mas também um Buda ou deusas da felicidade japonesas. "Percebemos aqui uma abertura. Os biógrafos normalmente definem-no como um agnóstico."

Encostado à casa, no que era uma antiga garagem onde chegamos depois de passar pelo jardim - onde, lá está, se reconhece a presença do bucho anão - está o Centro de Documentação. Ali vemos algumas fotografias de Bissaya Barreto. Aqui estudante em Coimbra, ali de batina, depois ainda jovem no Hospital da Universidade com bata de cirurgião numa aula prática, noutra, surge rodeado pelos colegas, numa sala de operações, já em 1956, ano da sua jubilação.

Transformar uma cidade

A cerca de 10 minutos a pé, na Avenida Sá da Bandeira, está a Casa das Artes Bissaya Barreto, mais um dos satélites da fundação, a que se juntam o Centro Geriátrico Luís Viegas Nascimento, o Colégio Bissaya Barreto, o Instituto Superior, o Grande Hotel do Luso, ou o Centro de Formação.

As escadas são estreitas, avançamos pelo soalho de madeira que contrasta com o branco das portas e tudo está calmo naquela manhã. Não é noite de jogos de tabuleiros, não é dia de entrega dos cabazes de produtos biológicos, não há aulas de português para estrangeiros, com estudantes de Erasmus ou refugiados, não há yoga, matinés musicais, nem filmes, concertos, lançamentos de livros, ou debates.

Naquela altura apenas ali estão os habituais condóminos, que na casa têm o seu ateliê de trabalho, sejam designers, encenadores ou arquitetos. Eles e Alexandre Lemos, diretor da Casa das Artes que vai explicando as diferentes camadas de frequência da casa e o porquê de lhe chamar um "condomínio criativo".

Foi também ali, na Casa das Artes que em agosto deste ano se realizou pela primeira vez em Portugal o festival Les Siestes Électroniques, agora nomeado para cinco categorias do Iberian Festival Awards.

Falamos da vocação da fundação e Lemos evoca outros espaços, não necessariamente ligados à cultura, como o hospital psiquiátrico de Sobral Cid, que já não está nas mãos da FBB: "É um gigantesco jardim com pavilhões, castelo, já teve court de ténis, já teve piscina. É uma outra ideia do espaço. Uma das minhas sobrinhas nasceu na Maternidade Bissaya Barreto e eu lembro-me de a equipa que estava a fazer o parto estar a ensaiar para o coro. E lembro-me de pensar: 'Não é possível não relacionar uma coisa com a outra.' Acho mais difícil isto acontecer num hospital todo branco e só com equipamentos médicos."

Alexandre Lemos define assim o trabalho da Casa das Artes: "Fornecer espaço de trabalho aos criativos da cidade transforma uma cidade. E é isso que estamos a fazer." Voltamos ao quadro maior, à fundação: "Trabalhar com os miúdos da Casa da Criança, dos colégios, com os idosos, isso transforma uma instituição, transforma uma cidade."

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