A terra do cinema português esmagou Cannes

Num ano de exceção, Cannes abraça com força o cinema português. Por estes dias há um filme poderoso em alta, o novo de Tiago Guedes, Restos do Vento, mas também um documentário obrigatório, O Silêncio de Goya segundo Jean-Claude Carrière, produção da família Galvão Telles.

Rui Pedro Tendinha, em Cannes
Albano Jerónimo ganha o desafio de dar a volta a uma personagem com deficiência mental.

O diretor do festival, Thierry Frémaux, chegou à pequena sala Buñuel e, muito bem disposto, saudou a tão rara presença portuguesa na seleção oficial. A equipa de Restos do Vento, de Tiago Guedes, estava toda vestida de gala, exceto um dos Tiagos, o argumentista Tiago Rodrigues, futuro diretor do Festival de Avignon, que veio de ténis e foi logo barrado da passadeira vermelha. Frémaux brincou com o incidente e pediu desculpas mas também pôs a rir a sala quase cheia quando disse que o produtor português Paulo Branco tem algo sempre a dizer. Um espírito informal em contraste da secura do filme.

No fim, aplausos sentidos para outro dos filmes portugueses que reafirma um novo momento de ouro da internacionalização do nosso cinema. Restos do Vento é um crime português com rasto de mistério, um "slow thriller" capaz de segredar com o vento. Um adolescente é morto numa pequena aldeia do interior português, uma tragédia que pode trazer ressonâncias com o passado quando a tradição tinha uma festa de rapazes que mascarados "atacavam" as raparigas da cidade. Passados uns anos a tradição não se mantém mas nesse dia da festa um jovem é morto, supostamente por cães. Mais tarde, vem-se a saber que, afinal, foi esfaqueado. As suspeitas recaem em Laureano (Albano Jerónimo), o "tolinho" da terra, alguém que numa dessas festas de masculinidade tóxica terá sido traumatizado.

Um dos muitos pequenos grandes milagres do trabalho de Guedes é conseguir ser filme de atores e ao mesmo tempo recital de câmara sobretudo porque é no trabalho de grupo dos atores que reside aquilo de mais fulminante passa por aqui mas também porque cada plano-sequência encerra um prazer e um desejo de cinema puro, se calhar ainda mais elaborado que em A Herdade ( e são filmes bem diferentes, sublinhe-se). Desse grupo de atores é obrigatório ir ao céu com o porte dramático de Nuno Lopes e com o desafio ganho de Albano Jerónimo em dar a volta a uma personagem com deficiência mental. Por muito que Restos do Vento seja do homem que fez a série Glória, não haja dúvidas: estamos na terra e no tempo do cinema. Esta é ficção para se degustar.

Na secção Cannes Classics, um documentário com marca portuguesa foi outro dos triunfos, cortesia da Fado Filmes, de Gonçalo e Luís Galvão Teles. O Silêncio de Goya - segundo Jean-Claude-Carriére, uma viagem por Espanha com o falecido argumentista a dissertar sobre o mestre da pintura. José Luís Lopez-Linares dirige este filme em movimento recheado das aborrecidas "cabeças falantes" mas sempre pontoado por uma câmara que capta com criatividade a dimensão da pintura de Goya e a sua Espanha. Uma boleia que inclui os momentos de cinema que tentaram dar dimensão cinematográfica ao pintor, bem como académicos da pintura e alguns pintores (por exemplo, Julian Schnabell). Curiosamente ou não, é um filme também sobre Carrière, que morreu na pós-produção. E, como cicerone, é ele quem introduz o universo do amigo Buñuel e, sensatamente, evita o lapso de Os Fantasmas de Goya, obra que escreveu para um outro amigo, Milos Forman. L"Ombre de Goya, título original desta co-produção Portugal, Espanha e França é uma prova daquilo que Goya conseguia ver na condição humana, ou seja, tudo o que nós comuns mortais não conseguimos...

dnot@dn.pt