Alvalade chama pelo cinema

Aos sábados as noites de Lisboa têm cinema ao livre com a curadoria preciosa do Alvalade Cineclube, sempre com filmes que abordam a própria cidade. Ou cinema de bairro em jardins e pracetas em frente aos cinemas que fecharam. Chama-se Salão Lisboa e no próximo sábado a oferta será Alcindo, documentário a ser exibido ao lado do antigo King.

Uma noite de verão perfeita, sem vento, pôr-do-sol com cores de cinema e um ambiente encantado. Campo Grande, sábado passado perto das 21h, uma hora antes de começar mais uma sessão do Salão Lisboa, iniciativa de cinema ao ar livre do Alvalade Cineclube, mesmo em frente ao antigo Caleidoscópio, hoje metade McDonalds, metade sala de estudo da Universidade de Lisboa. Aos poucos começa a chegar um público variado; jovens, casais seniores, solitários e pequenos grupos - parece que sabem ao que vêm, a maior parte traz uma toalha para se sentar na relva desta parte do jardim do Campo Grande. Quando a projeção de A Cidade Branca, de Alain Tanner, começa, a "casa" está bem composta. Filmes ao ar livre em Lisboa estão mesmo na moda e este programa Salão Lisboa tem tido grande afluência, mesmo que a projeção não seja através de DCP, embora o som tenha uma qualidade muito aceitável.

Neste mês de julho, aos sábados, o encontro com os filmes tem um mote: ser em frente a uma sala de cinema de bairro encerrada, um pouco para assumir uma nostalgia por esses cinemas de Alvalade perdidos. Inês Bernardo, do cineclube do bairro também refere outro motivo: "o Salão Lisboa também serve como um alerta para tentar que se volte a investir em cinemas de bairro. A missão é sobretudo habitar espaços de memória. No início deste ano fizemos o mesmo com associações e agora era mesmo pôr em marcha um manifesto cívico e político sobre porque é que deixámos fechar os cinemas de rua em Lisboa. Por isso, era importante fazermos estas sessões à porta dos cinemas que fecharam. Esta cidade está a mudar muito depressa e perde-se logo a memória. A memória dos espaços, das pessoas... Que cidade é que estamos a construir e a deixar de herança sem essa memória? Não há muito tempo, o bairro de Alvalade tinha 20 ecrãs de cinema!".

No passado dia 9, na primeira sessão deste ciclo, o local escolhido foi o Quarteto, hoje um edifício de co-work. O filme também era especial: Kilas - O Mau-da-Fita, de José Fonseca e Costa, enorme êxito de público de 1980. Pois bem, rezam as crónicas que no terraço do edifício que já foi cinema de culto e de formação, aconteceu uma enchente: "As pessoas estavam ansiosas por voltar a entrar no Quarteto e aquele terraço que ninguém conhece é lindo! Foi curioso as pessoas entrarem naquele espaço e reconhecerem pistas do antigo cinema. Por exemplo, a receção é onde eram as bilheteiras... Lembro-me tão bem das noites non-stop do aniversário!", conta Julieta Pracana, também do Alvalade Cineclube.

Enquanto isso, Bruno Ganz e o seu rosto iluminam o espaço do Campo Grande e as saudades do Caleidoscópio ficam no ar. Isso e o som da passarada que cria um ambiente paralelo. A Cidade Branca, filme que é uma tese sobre a luz de Lisboa, é a obra perfeita para refletir sobre saudosismos mas os que entram nesta história vão perceber que é algo intemporal - nem mesmo os aviões a descer para o aeroporto desviam a atenção. Nos anos 1980 e até 1994 o Caleidoscópio era um cinema de jardim que fazia figura de modernismo na cidade. Passava diversos tipos de cinema e chegou a ser programado por Lauro António. Agora, curiosamente, mesmo do outro lado da avenida, está uma nova sala de cinema, em plena universidade Lusófona, nem de propósito parcialmente ocupado pela programação deste cineclube tão interventivo, chama-se Sala Fernando Lopes e merecia mais atenção.

Para a semana, em jeito de encerramento desta dose de Salão Lisboa, sessão num lugar que se tornou icónico no bairro: os cinemas King. A sessão será mesmo ao lado do edifício e terá um filme com mensagem política, Alcindo, documentário de Miguel Dores, obra nunca estreada no circuito comercial e que retrata a noite longa de 10 de junho de 1995 quando um grupo de etno-nacionalistas matou Alcindo Monteiro, um crime racista que jamais pode ser esquecido. Miguel Dores vai estar presente para apresentar o filme cujo começo está aprazado para as 22h.

"Nós tínhamos vontade de programar cinema ao ar livre desde que começámos. Gostamos muito mas, entretanto, apanhámos a pandemia... A vantagem destas sessões é que aproximam as pessoas dos filmes, sobretudo aquelas que se tinham distanciado das idas às salas. Além do mais, acreditamos que é importante resistir em relação a esta crise de espectadores nas salas. Temos fé que as pessoas voltem aos cinemas, há um público cinéfilo atento. Estas sessões são importantes", referem as programadoras a sorrir enquanto reparam que há bastante gente a chegar para ficar para a sessão mágica de A Cidade Branca. Para o próximo verão, está garantido mais um Salão Lisboa sob as estrelas, quanto mais não seja porque o ecrã insuflável foi um investimento do Alvalade Cineclube.

dnot@dn.pt

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